
O fenómeno da «febre do volfrâmio» em terras de Arouca sempre me fascinou pelo seu lado mais obscuro. Ainda na adolescência cheguei a imaginar agentes da Gestapo a adquirir carregamentos de wolfram nos lugares mais recônditos da serrania arouquense. Ouvi também histórias mirabolantes sobre contrabandistas, capatazes e mineiros que construíram fortunas invejáveis durante a Segunda Guerra Mundial. Suponho que alguns arouquenses conseguiram enganar o seu destino e viver desafogadamente durante os anos da guerra. Mas o que resta desse passado nebuloso? O que resta desses tempos em que a cobiça, a ganância, o ágio, a sorte e o azar corromperam o espírito das gentes de Arouca? Restam, pois, ruínas, minas e trilhos que rasgam as montanhas – testemunhos de uma civilização industrial que conheceu o seu declínio num tempo não muito longínquo. Os resquícios materiais do complexo mineiro são substanciais e podem ser encontrados nas imediações da aldeia de Rio de Frades, no coração da Serra da Freita. Sequioso de dissipar as brumas do tempo, segui então pelos caminhos da «febre mineira» sem qualquer plano, referência ou objetivo. O sol batia impiedosamente nas encostas serranas e apenas a floresta de eucaliptos e pinheiros-bravos me protegeu do fulgor veranil. Prossegui pelos trilhos que serpenteiam a paisagem serrana.
Explorada a aldeia de xisto de Rio de Frades, avancei vagarosamente pelo trilho que liga à mina. As ruínas do antigo complexo mineiro sobressaem pelo meio da vegetação e o gorgolejar dos riachos remete para uma atmosfera estranhamente silvestre e inquieta. Chegado à entrada da mina, fatigado, dei por mim a fitar a imagem da Santa Bárbara de Nicomédia. O semblante da mártir, os arranjos pétreos, o fundo negro da mina – tudo nos transporta para um ambiente imaginado onde os brados dos mineiros se sobrepõem ao tinir das picaretas. O olhar maternal e circunspeto da santa induz uma pausa introspetiva antes de qualquer passo em falso.
Atravessei a mina com a relutância típica de quem nunca o fez. O vento fresco emanado pelo túnel soprou sobre os meus ombros. Percorri a mina com o olhar e detive-me por alguns segundos para contemplar as suas feições rugosas. Por fim, vi um feixe de luz ao fundo e todos os calafrios se desvaneceram subitamente. A luminosidade veranil clareou o meu caminho e pude então apressar o passo. O ar húmido da mina dissipou-se assim que alcancei a saída. E o silêncio sumiu-se entre o sussurro da folhagem. A natureza voltou a preencher o horizonte.
Emergido da mina, vi-me perante um cenário de beleza rara. A ribeira que aflui ao rio de Frades oferece-nos uma paisagem única no panorama arouquense: as cascatas deslizam elegantemente pelos degraus de pedra lisa e as águas cristalinas das lagoas reconfortam a visão de alguém que se escapuliu das trevas. A flora circundante parece intocada pela «febre mineira» e as formações rochosas parecem ter sido arredondadas pela força das torrentes que correm da montanha. Numa das encostas, é possível ver uma casa em ruínas. Percebi então que os vestígios da «febre do volfrâmio» se encontram encapsulados entre a folhagem e a moldura silvestre. Em Rio de Frades, a natureza está a reconquistar o seu lugar.

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