Despojos das Colheitas

A coisa que menos gosto de fazer é ver carros a afastarem-se. Gosto menos ainda quando estou dentro deles. Há qualquer coisa nas vidas que se afastam e que passam a ser duas, múltiplas. Se o tempo passa mais devagar no interior, comprova-se assim que Arouca é litoral, porque para mim o ano está sempre no fim. A vila é bonita ao início da tarde, mas também é a hora em que os autocarros se afastam. E afastam-se para cada vez mais longe. E nem na noite podemos esconder-nos, que os carros afastam-se a todas as horas do dia.

As marcas ao longo da parede são as marcas das cheias ou as marcas do nosso crescimento? Onde é que tu estavas quando a vila se afundou? Eu estava a garantir que o brasão do Casa dos Malafaias me dava o segundo lugar no peddy-paper, ao mesmo tempo que me prolongava o fim do ano. Era ano de eleições, ou melhor, de renovação de mandato, mas a festa e os brindes são sempre os mesmos e a campanha coincide com as Colheitas. Será que em Lisboa há Colheitas? Há de haver comunidade abaixo do Mondego, é só descobrir.

Pior do que ver carros ao longe é ver espaços vazios. A praça, acabadas as Colheitas, é um espaço vazio. Tal como o é a alameda das universidades, onde, vindo do futuro, escrevo este texto, fechadas as urnas das eleições brasileiras. Os despojos são apanhados pelos vencedores, mas, ao contrário da festa da democracia, nas Colheitas não há vencedores. Há derrotados. Como eu, que não consegui ver o desfile. No passado, a derrota era curada pelos carrosséis e no futuro há de ser pelo vinho doce e pelos mirtilos da banca com a bandeira da Palestina. No presente, é difícil saber. É pena que as Colheitas também tenham acabado este ano.

Se eu te pedir, prometes ser para sempre? Prometes não entrar em nenhum carro que se afaste, nem ficar ao longe enquanto me afasto eu. Prometes não me deixar sozinho no espaço vazio, derrotado com os despojos de uma vitória que nunca foi minha? De ano para ano, vou sendo menos e aos despojos só me resta atirá-los ao Paiva. A corrente que os leve até que encontrem uma comunidade para lá do Mondego.

Vim do futuro para dizer que gosto muito da capital, mas, por agora, as Colheitas acabam sempre todos os anos e é cada vez pior. Não consegui ver o desfile. É difícil pensar numa vila que vive sem estarmos presentes. O que é feito de todos aqueles minutos? E daqui para a frente?

sobre o autor
Discurso Directo
Discurso Direto
Partilhe este artigo
Comentários
Relacionados
Newsletter

Fique Sempre Informado!

Subscreva a nossa newsletter e receba notificações de novas publicações.

O envio da nossa newsletter é semanal.
Garantimos que nunca enviaremos publicidade ou spam para o seu e-mail.
Pode desinscrever-se a qualquer momento através do link de desinscrição na parte inferior de cada e-mail.

Veja também