
O Rufos rodopia na água do tanque como se aquele fosse o seu único momento de prazer no verão que começa. E talvez fosse, mesmo que não estivesse assim tanto calor. O tanque, cuja propriedade tem sido o centro de tantas exaustivas disputas territoriais entre vizinhos, é conquistado, sem oposição que se lhe atreva a fazer frente, por aquele boiadeiro de Berna gigantesco. Ocupa-o como um soberano soberbo ocupa o trono. O irmão, mais elegante e menos bonacheirão, estendido no cima das escadas olhava-o sem julgamento nem aprovação. Nunca subiu ao tanque, de certo mais por pudor do que por falta de vontade ou agilidade, e, sendo pastor e o segurança daquela casa, sabe que tem responsabilidades que não lhe permitem aquele tipo de despreocupação. Rufus não. A sua casa não precisa de proteção, quem quiser entrar que entre, e não havendo mais quem se abasteça da água do tanque, ou que nele lave a roupa, aquele pedaço de água corrente é seu por direito.
Distraído, nem se apercebe de Tex. O cão dos vizinhos, que vagueia nas redondezas, de nariz no chão, pronto a mijar em tudo o que é canto, é recebido em fúrias pela cadela da casa do meio, cuja raiva é profundamente desproporcional à estatura. Consegue saltar apenas o suficiente para ser vista por microssegundos e voltar a aterrar atrás do rasteiro portão verde.
As vacas do Sr. Luís ouvem-se ao longe e não tarda nada hão de chegar, guiadas pela velhinha serra da estrela que mostra os dentes a quem se aproximar. Hão de cruzar, imediatamente depois de tanque, e seguir para a corte. Não fosse o carro parado, de dianteira empinada para o cruzamento e traseira descaída quase em casa do Sr. Luís. É só engatar a primeira e sempre a andar, mas este só já custa o suficiente. Vai com o ponto de embraiagem, vai com o travão de mão, não há forma de não ir abaixo.
Enquanto o Rufus vive os seus melhores dias, aquele rapaz passa as passas dos Algarves a tentar tirar o carro dali. E o pai recusa-se a fazer. “Se queres tirar a carta, tens de aprender a dominar o carro” e ali ficam os dois num arranca, esmorece, arranca, esmorece, sem sair da cepa torta e sem conseguir afastar a traseira que tanto ameaça a fachada do Sr. Luís. E as vacas aí vêm, cada vez mais próximas, cada vez mais um obstáculo, que arrancar de baliza aberta é sempre mais fácil do que com a ameaça de uma manada impaciente.
Não há nada a fazer. “Não consigo” e arranca-se para fora do carro. O pai consegue. Se não conseguir, o carro que ali fique plantado.
É sábado, são cinco da tarde. Não que isso importe para a fauna doméstica da aldeia. Chegam os primeiros calores e está para chegar o exame de condução. Não há de ser desta. O ar tresanda a ameixas. Vida santa.
Rodrigo Samuel Duarte

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