
Não sei quando foi, nem que idade tinha, mas a partir de uma certa altura o cetro da Rainha Santa Mafalda passou a parecer-me um guarda-chuva – o da estátua do Parque Municipal, pelo menos. Melhor dizendo, não é o cetro como um todo, mas qualquer coisa numa das pontas que se assemelhava à pega de um guarda-chuva e que mudou para sempre a forma como vejo aquela estátua e a própria da Rainha Santa.
Vivendo em Arouca, a Rainha Santa Mafalda é omnipresente, está por todo o lado. Quer queiramos, quer não, não há quem não esteja farto de saber a história da mula, do milagre do incêndio do mosteiro ou das laranjas do Burgo. Nada, no entanto, tem, para mim, metade da relevância e das implicações do guarda-chuva. Peço desculpa desde já se impressionar as mentes mais suscetíveis, mas há muito que tinha isto preso cá dentro e este é o espaço para desabafar.
É que as lendas da Rainha Santa – que não são poucas – falam-nos quase sempre de milagres, às vezes bondosos, às vezes nem tanto – veja-se a insistência em excomungar pegas e laranjeiras. A estátua ergue-se no Parque Municipal para que nunca nos esqueçamos que a santa está ali para olhar por nós. Quer tenhamos problemas com pegas, quer nos sejam atiradas laranjas, sabemos que estará ali sempre para nos defender e proteger.
No entanto, este pormenor não é da ordem do divino e tem pouco que ver com milagres. É sim da ordem do real, do mundano, e é muito importante que todos tenhamos consciência disto: O que o guarda-chuva nos diz é que a Rainha, tornada Santa, é mais humana do que pensávamos. O que nos diz é que mesmo ela, condenada a ficar em pé todo o dia num pedestal a olhar por nós e pela vila para toda a eternidade, tem medo das gripes do inverno e quer ter por perto uma coberta, não vá chover – que não há nada pior do que não se estar preparado e levar uma molha. O que nos diz é que os nossos ídolos – e a Rainha Santa é também uma espécie de ídolo à sua maneira -, são iguais a nós, são igualmente frágeis e estão igualmente sujeitos às adversidades do mundo. E também eles não se resignam! Também eles saem sempre de casa com um guarda-chuva, porque na internet diz que não chove, mas isto já se sabe que “eles” estão sempre enganados.
Para escrever este texto voltei a visitar a estátua e apercebi-me que o cetro já não parece um guarda-chuva. Não sei o que aconteceu, mas a tal ponta de que me lembrava já lá não está, ou então não está igual ao que eu me recordo. Caros leitores, só há uma conclusão óbvia e possível para isto e acho que todos sabemos qual é: por mais divina, por mais rainha, por mais milagreira, por mais beatificada que seja, nem a Rainha Santa Mafalda conseguiu escapar à imprevisibilidade dos guarda-chuvas. Num momento estão lá, no outro deixam de estar, é que é impressionante.

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