Vale alguma coisa

“Cá estamos”, uma daquelas frases que se diz, quando o silêncio já não é suficiente e as luzes da praça ainda não se ligaram para lhes dizer que o dia acabou. O convento é lindo e sempre vale de alguma coisa. Vale pelas horas que se passam, de costas para a fonte e a ver a avenida. Vale pela avenida, essa que vai da Câmara a Santo António, de tal forma que não sabemos onde começa e onde acaba ou se é uma ou se são várias. Ali não é uma nem várias, e não tem princípio nem fim, só um troço de calçada por onde descem carros e onde a vila diz “bom dia” às cargas e descargas, ao “podes deixar-me aqui, vou o resto a pé, não vale a pena entrares pela alameda”. A alameda tem o seu encanto, mas não é a mesma coisa. Dum lado o Alcino, do outro o Rainha e do outro o Tem Tudo, ou se compra tudo ou só pães e telemóveis, mas vai dar ao mesmo, é um círculo de busca infinita por lugares de estacionamento. Já que entramos pela alameda, o melhor é estacionar no milénio, que o regresso faz-se bem a pé e ao pé do tribunal sempre costuma ter mais espaço e na volta paramos no Cachimbo para comprar o Discurso, porque nem tudo o que acontece se consegue ver da avenida. Mesmo no pouco que acontece, muito se passa. Passam os putos carregados de gomas ao quilo e passam os ocupas do polivalente, que foi remodelado e eu não me apercebi. Passam os forasteiros, aqueles a quem mostramos garbosos a fé de mil cruzeiros, fascinados com a quantidade de casas-de-banho públicas. Casas-de-banho essas que estão sempre à pinha em dias de Colheitas e onde se encontram conhecidos e desconhecidos, se percebe que entre um e outro pouco se difere, que nesta vida estamos todos em silêncio à espera de vez. Passam-se as casas de pizzas e hambúrgueres, que abrem e fecham e se vão substituindo até que, pela lei do mais fraco, uma resista e lá vá ficando. Passa-se o kebab que abriu e nos fez dizer uns aos outros “sabias que agora há um kebab em Arouca?”, incapazes de adivinhar como se reage quando não se está à espera e de repente lá está ele. Passa-se a estátua da Rainha Santa Mafalda, que já não tendo um guarda-chuva, vigia o lago onde às vezes há patos e onde se encontram sempre uns peixes do tamanho de cachalotes. Passa-se o parque municipal, onde em tempos partiram um porco de baloiço, que infelizmente não vos posso dizer quem foi, e onde aqueles que não escolheram a praça, se sentam aos quatro para jogar à sueca e partilhar ameixas. Passam-se os cortejos fúnebres que pela avenida seguem do convento ao cemitério. O cemitério já é Burgo, nunca se esqueçam. Uma freguesia que começa no cemitério e que já não existe sozinha não significa nada, mas talvez signifique qualquer coisa. Passa-se o corredor de casas, a quem nos referimos se em piada dizemos que há comboio, quando confrontados com a melancolia da falta de acessos. Muito se passa, mas nada importa, porque estamos sentados na praça e aqui pouco se vè, só o convento e a imaginação do prédios que são impedidos de crescer. Vale alguma coisa.

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