
Perigosa, corrupta, disfuncional. São os adjetivos mais utilizados para descrever a cidade mais antiga de França. A conflitualidade dos seus subúrbios, o espírito irascível dos provençais e as tensões étnico-culturais dos seus bairros parecem dar má fama à capital da Provença. Mas será mesmo assim? Será Marselha um destino a evitar? «Marselha é perigosa», «Marselha é suja», «Marselha não é bem França», sim, ouvi tudo isso, mas por uma vez deixei-me levar pela curiosidade. A princípio, esperava juntar-me ao coro de papagueadores, mas não foi isso que aconteceu. Acreditem ou não, Marselha pode-nos surpreender pelo seu charme único e peculiar. Longe de ser uma pérola no Mediterrâneo, a antiga colónia de origem grega conquista-nos pela sua generosidade, pela sua relação com o mar e sobretudo pelos seus habitantes, les marseillais.
Comecei por visitar Le Vieux Port, o porto velho de Marselha. A poeira naval, o cheiro a peixe seco e a azáfama da faina reconforta o nosso imaginário mediterrânico. Em Quai de Rive Neuve, junto ao porto, a agitação dos restaurantes sugere um ambiente gastronómico convidativo e o tráfego rodoviário confirma que Marselha é, como muitas outras cidades da bacia do Mediterrâneo, extraordinariamente barulhenta, caótica e particularmente indelicada com os seus peões. Por apenas um euro, pude alcançar a rua da outra margem do porto, a Quai du Port, e assim pude seguir para o famoso bairro artístico Le Panier. Em Quai du Port a vista é maravilhosa: ao fundo, ergue-se a lindíssima a basílica de Notre-Dame de la Garde – o verdadeiro símbolo da cidade –, e a floresta de mastros e velas confere um panorama único sobre a marina, cujo pano de fundo são belíssimos edifícios pardos de estilo neoclássico. O forte de Saint Jean, construído durante o absolutismo, demarca-se no horizonte pela sua opulência e robusteza pétrea.
O colorido bairro de Le Panier ostenta um charme pouco convencional. Há elementos tipicamente mediterrânicos, como as famosas portadas marselhesas, mas são os seus cafés ajardinados, as suas galerias de arte e os seus arranjos florais que denunciam a sua beleza de feição meridional. As grades das janelas marselhesas fazem lembrar as cidades costeiras da Campânia; as manchas deixadas pela arte urbana remetem imediatamente para os bairros boémios de Nápoles; e os largos, as ruas e os jardins públicos sugerem outras paragens do Mediterrâneo, tanto no Magrebe como no Levante.
Em La Joliette, pude admirar um dos expoentes máximos da arquitetura neobizantina – a majestática e gloriosa catedral de Marselha –, e num dos molhes a norte do porto pude contemplar o horizonte marítimo, cujos tons azul-turquesa acalmam qualquer espírito taciturno. Ao fundo, numa das enseadas, avisto belo e firme o Palais du Pharo, assim como a célebre fortaleza o Châteux d’If, um dos cenários do clássico literário O Conde de Monte Cristo do prolixo e genial Alexandre Dumas.
Sem a sofisticação e o perfume de Paris ou Bordéus, Marselha oferece uma experiência substancialmente diferente. A leveza dos seus habitantes, a sua atmosfera portuária e a sua relação umbilical com o mar imprimem-lhe um carácter invulgar no contexto francês. A França atlântica é-nos atraente e exótica. Porém, a França mediterrânica é-nos bem mais próxima: conquista-nos pela sua excelente gastronomia, pelo seu clima amigável e pela sua informalidade prática. Em Marselha, não me senti tão estrangeiro assim.
Perigosa? Violenta? Suja? Talvez assim seja, mas podemos dizer o mesmo de muitas outras cidades, mesmo a nossa. Desconcertante, mas surpreendentemente bela, Marselha vale pelo seu carácter singular e profundamente mediterrânico.

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