Where is the pomté suspémsá?

“Tu só falas, mas não sabes é nada” e volta o silêncio, concluindo-se mais uma conversa, sem tempo para se começar uma nova. O autocarro que vem da vila chega às duas e não tarda é hora de aquecer o motor, por isso os minutos que ainda faltam são para aproveitar a calma antes que mais uma remessa de crianças encha a carrinha da Junta e o outro volte pras bombas abastecer os carros que não passam. Por agora, são só dois trabalhadores a ver a serra do outro lado e a contar as casas que ficam pelo caminho. 

“Sorry, excuse me” e o silêncio volta a ser quebrado. Olham confusos para aquelas figuras que se lhes prestam à frente, mais altas que os dois juntos, armadas com bastões de caminhada. Devem ser alemães, pensam um com o outro, sem necessidade de o dizer em voz alta. Isto agora com turismo é só alemães e, mesmo que não sejam, é como se fossem, a língua é igualmente incompreensível. E mais incompreensível foi a frase seguinte, dita com um sorriso gigantesco de quem acha que convence pela simpatia. “Do you know where is the pomté?”. “Parece-me que estão a perguntar qualquer coisa”, mas até aí é adquirido, que o tom percebe-se em qualquer língua. 

“‘Tão a pedir direções, de certo”. E agora? “Para onde é que querem ir?”, como se aquelas palavras significassem o que quer que fosse. Os gigantes, com todo o respeito, riem timidamente e repetem “The pomté suspémsá”, sem saber que respondem à pergunta que lhes foi feita, sem esclarecer em nada a quem a faz. Sobra para os pobres homens resolverem este indecifrável código, quando a digestão ainda nem acabou o seu serviço. Não são horas para esta ginástica.

“Estão à procura dos passadiços. Aqui não há mais nada para ver”, diz o gasolineiro, “Não sei o que é que estão aqui a fazer, isto não é Canelas”, responde o outro, enquanto os indefesos lhes sorriem desesperadamente. “Vou mandá-los para a ponte e eles que se desenrasquem”, o gasolineiro aponta para a curva ao fundo da estrada e, olhando de baixo e berrando, com esperança que o som soe a inglês ao atingir grandes altitudes, “Vocês façam aquela curva, depois é sempre andar e hão de chegar a um entroncamento e lá ‘tá a entrada da ponte. Os passadiços são por ali”. 

Tanto disse e nada foi compreendido. Estica-se em bicos de pés, não vá os alemães não conseguirem ouvir abaixo da cintura, mas não vai a tempo de puxar a voz. O outro, a ver os seus minutos de silêncio profanados por aquela babelianice toda, faz sinal e manda-os entrar na carrinha. “Tenho de ir pro entroncamento, deixo-os à entrada da ponte”. E os coitados entram, que remédio, e lá vão eles. 

A viagem é curta e eterna. Dois minutos de sorrisos de agradecimento e de medo, de fixes para trás e de fixes para a frente guarnecidos de “Moimto Obrigadou”, até que lá estão eles, de novo sozinhos na sua jornada em busca da “pomté suspémsá”. 

O outro, por outro lado, lá volta, estrada fora na carrinha da Junta, saem turistas, entram crianças e lá hão de chegar os minutos de silêncio.

sobre o autor
Discurso Directo
Discurso Direto
Partilhe este artigo
Comentários
Relacionados
Newsletter

Fique Sempre Informado!

Subscreva a nossa newsletter e receba notificações de novas publicações.

O envio da nossa newsletter é semanal.
Garantimos que nunca enviaremos publicidade ou spam para o seu e-mail.
Pode desinscrever-se a qualquer momento através do link de desinscrição na parte inferior de cada e-mail.

Veja também