Na pérola do Bósforo

Vibrante, magnânima e charmosa. Assim é Istambul. Coração de impérios, cidade de aspirações. O centro mitológico de todos os fetiches euroasiáticos. A pandemia obrigou-me a adiar este encontro, mas a sorte, a juventude e o privilégio permitiram-me visitá-la finalmente. A sensação de ir para qualquer lugar pela primeira vez é sempre excitante, no entanto, em alguns casos, a sensação de voltar pode ser ainda mais entusiasmante. Talvez seja assim com Istambul.

A segunda Roma não é bem uma cidade. É um ideal. Constantino, Teodósio, Justiniano, Maomé II ou Solimão, não se limitaram a edificar uma capital imperial: construíram uma nova Roma, uma nova civilização, propuseram um novo começo. Criaram um novo ponto de encontro para a humanidade, onde tudo converge, tudo acontece, tudo se decide. Foi-o assim durante séculos. Porém, na moderna Istambul, ainda podemos sentir o pulsar desse mundo desaparecido. Podemos ouvir os ecos do passado, mas também os frenesins da modernidade.

Istambul, outrora Constantinopla, é um ponto onde o Ocidente e o Oriente se entrecruzam por excelência. Aqui, a cultura greco-romano-judaico-cristã pôde fundir-se com os perfumes e os jeitos do Oriente, e não há cidade que glorifique mais esta simbiose do que a antiga Bizâncio. Capital psicológica do mundo greco-romano durante a Antiguidade e a Idade Média; centro imperial e espiritual dos sultões otomanos entre os séculos XV e XX; e local de culto para várias religiões e credos, Istambul afirma-se como a epítome das civilizações mediterrânicas, onde o Ocidente e o Oriente se abraçam fraternamente, numa cidade-utopia imaginada. Foi aqui, em Istambul, que o homem euroasiático idealizou novas Romas, novos césares. Novas visões imperiais e espirituais.

Se no passado Constantinopla era deslumbrante para qualquer alma viajante, hoje, a Istambul contemporânea é-o também: trata-se de uma metrópole com mais de 15 milhões de habitantes, onde o novo e o velho convivem lado a lado, numa atmosfera ruidosa e frenética. Na zona de Fatih, podemos admirar os expoentes máximos da arquitetura bizantina e islâmica, com as mesquitas de Hagia Sophia, Azul e Süleymaniye, e, no lado asiático, nada nos impressionará mais do que floresta de arranha-céus do distrito financeiro de Ümraniye. O confronto entre as várias camadas de tempo confere um caráter único à cidade.

Há várias maneiras de conhecer Istambul, mas nenhuma delas é tão boa quanto a ideia de o leitor se perder completamente. Apanhe um táxi para não sei onde. Siga o cheiro dos perfumes e das especiarias. Cruze o estreito do Bósforo para um cais menos óbvio. Coma uma mixórdia que nunca viu. Veja o pôr do sol num ponto alto qualquer. Fale com um local! Deixe-se ir pelos sentidos e não pelo Tripadvisor, ou pelas sugestões banais da revista Time Out. Por fim, atravesse a ponte Galata e contemple o pôr do sol na margem norte do Corno de Ouro. A luz, a silhueta da cidade, os bandos de gaivotas, os ferries, os barcos de recreio e a azáfama da faina marítima pintam um quadro formidável.

sobre o autor
Miguel Brandão
Discurso Direto
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