
A festa já vai longa e admito que ainda não sei dizer o que celebramos. É a Senhora do Monte, diz-me a minha irmã, como se esta resposta só por si fosse elucidativa do que quer que seja. Eu sei lá quem é a Senhora do Monte nem quais os seus feitos que merecem ser celebrados. Mas pouco me importa. O que importa é que estou finalmente a aprender as regras da sueca, mais dois jogos e estou perito nisto. Uma vez o meu pai chamou-me de parte, sentou-me na mesa grande da sala e ensinou-me as regras da sueca. Na altura, não percebi grande coisa. Tal como a Senhora do Monte, nada ali me soava evidente. Tens de assistir, não podes renunciar. Como assim? Mas bem, acho que agora está a ir ao sítio. Ainda gasto trunfos desnecessários, mas mais dois jogos e estou perito nisto. Mais dois jogos e posso finalmente trocar o Uno pela sueca. Vocês não querem ir à festa?, pergunta a minha tia, quando aparece para nos deixar um saco de cavacas. Ninguém aqui gosta de cavacas e isso agora não importa! O que importa é que estou quase a tornar-me bom na sueca e o que quer que se esteja a passar lá em cima, vai ter de esperar. Os homens dos cavalos que fazem pinotes para se impressionarem uns aos outros, os malucos das motas que são como os homens dos cavalos. Acabei de desperdiçar mais um trunfo e agora tenho vontade de fazer xixi. Magda, tenho de ir à casa de banho! Faz aí. Tenho vergonha. Vai ter com a mãe. Não sei dela. Vai ter com o pai. Não sei dele. Eu também não, por isso faz aí. Não quero, tenho vergonha. Há uma casa-de-banho lá em cima, debaixo do coreto, diz a minha prima. Magda, anda comigo. Agora não, estamos a jogar. Eu também estou! Anda comigo! Não! O caminho até ao coreto não é longo, não é nada demais. Tanta gente, demasiada gente por todo o lado. Demasiados cavalos, demasiadas motas. A procissão que vai arrancar e ainda não consegui chegar ao coreto. A procissão arrancou e eu aflitinho para fazer xixi. Está ali a porta! Agora é só atravessar a multidão e todos os meus problemas se vão resolver e posso finalmente voltar à sueca. É só cruzar a procissão e estou no coreto. Só cruzar a procissão. Entrei. Agora é só preciso sair, não há de ser nada demais. Duas ou três pessoas, com licença, com licença. Não consigo. O passo é lento mas a procissão é demasiado forte e arrasta-me consigo. A minha tia avista-me e sorri. Finalmente algum dos miúdos quis vir à festa. As pessoas sorriem-me simpaticamente, não deixa de ser inusitado ver o filho do Celso na procissão. O filho do Celso lia na missa, mas deixou de ler porque o verdadeiro pecado é fazer uma criança acordar cedo num domingo. Eu só quero fazer xixi, por favor, deixem-me sair daqui. Esta procissão é interminável, nunca vou conseguir fazer xixi e nunca me vou tornar um perito na sueca. Consegui sair! Corro pela minha vida até ao coreto, é agora ou nunca.
Mais dois jogos e estou perito nisto. Perdeste-te? Agora estamos a jogar Uno, queres jogar?

O envio da nossa newsletter é semanal.
Garantimos que nunca enviaremos publicidade ou spam para o seu e-mail.
Pode desinscrever-se a qualquer momento através do link de desinscrição na parte inferior de cada e-mail.