
Estou a escrever isto numa sala de estar em São Domingos de Benfica, de cabeça para baixo porque, por algum motivo, ajuda a refrescar e, talvez a ter ideias. Estou a tentar perceber sobre o que vos quero falar este mês.
Talvez vos queira falar da porta da mina, que um dia descobrimos escondida entre os arbustos do caminho para a capela. Ficamos aterrorizados. O que é que estaria do outro lado? O esconderijo de um assassino? Corpos de crianças raptadas? Em princípio não, éramos as únicas crianças de Bustelo e nenhum de nós tinha sido raptado. Mas aquela porta ali escondida, escura, não inspirava confiança e de repente era só nela que conseguíamos pensar. Era para ela que olhávamos quando passávamos a correr em direção à capela. A correr, porque o qualquer mal que ali se escondia não podia ter oportunidade de nos apanhar. Foi a razão que nos fez mudar a localização da nossa hipotética casa da árvore. A vizinhança é sempre um fator a ter em conta.
Se calhar quero escrever sobre a árvore gigantesca que se erguia ao lado do tanque, tão grande que ultrapassá-la era uma jornada hercúlea. O outro lado parecia separado por quilómetros e agora, caída a árvore, já nem é o outro lado, já nem merece ser alcançado. Não me lembro do porquê de a terem cortado, mas faz falta. Está tudo mais vazio desde então.
Talvez deva falar do “desde então”, mas para isso precisaria de localizar o “então”. Foi quando deixaram de se reunir no banco de pedra ao lado do tanque, agora tapado pelas folhas? Foi quando fechou o café da minha tia? Aquele onde balançávamos nos corrimões e onde perdi nos matraquilhos mais vezes do que consigo contar. Foi quando deixaram de haver crianças ou quando nós deixamos de ser crianças? Algumas destas coisas é verdade?
São as questões que me coloco, aqui, de cabeça para baixo, a pensar se consigo escrever sobre Arouca sem escrever um livro de memórias. Mas não há muito por onde fugir, mesmo quando se escreve sobre dar boleia a turistas no autocarro da Junta. Enfim, estou a divagar.
Talvez escreva sobre aquele único dia em que me envolvi na campanha para as autárquicas, reunido na praça com os camaradas daquele partido que ainda não elegeu, mas que dificilmente deixará de ter o meu voto – nas autárquicas, pelo menos. Talvez pudesse escrever sobre isso, sobre quando encontrei o primeiro Lenine ou os diários do Che na biblioteca municipal, mas prometi a mim mesmo que não tornaria esta crónica política. No entanto, tenho pensado na sensação de voltar à biblioteca passado tanto tempo, no lançamento do último livro da minha mãe – fica feita a publicidade. A sensação de tudo diferente e tudo na mesma.
Talvez deva escrever sobre isto tudo. Sobre a porta da mina, sobre a casa da árvore, sobre o tanque, sobre a árvore gigantesca e o outro lado, sobre o café, os corrimões, sobre o Che Guevara e sobre a biblioteca. Prometi a mim mesmo que isto não seria uma coletânea de memórias, mas lá terá de ser. Agora o importante é escrever.

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