Paradinha: Um interior

As chuvas de maio escorriam pelo vale. O vento cocegava os pinhos; os ramos; as folhas de eucalipto. Nas margens do Paiva, não se ouvia um zumbido emitido pela civilização humana. Apenas se ouvia o choro do rio; o espreguiçar da floresta; o tilintar da folhagem; o estalar de um ramo. Paz. Aqui, só a lânguida efervescência da natureza interrompia o silêncio. 

Segui caminho. A chuva ensopou o terreno e ao fundo, num dos socalcos do vale, deparei-me com um povoado esculpido em xisto e ardósia: a aldeia da Paradinha. O casario rústico, as chaminés encardidas, a envolvência montanhosa, remetiam para um Portugal rural desvanecido há décadas, porém, os postes elétricos, a estrada alcatroada e a sinalética impediram-me de explorar as efabulações do meu imaginário histórico. Ainda que as camadas de tempo não convivam harmoniosamente, a paisagem é indubitavelmente bela. 

Entrado no coração da aldeia, pude examinar as ruelas de xisto, os alpendres, as portas. Os tons acastanhados das camas da folhagem húmida rimavam com as lajes pardas do casario, e os adornos fabricados pelas plantas araliáceas ornamentavam as rudes paredes de xisto. O fumo emanado pelas chaminés acrescentava uma melancolia reconfortante à atmosfera rural. 

Desci em direção ao rio. Nada mais se ouvia do que o vento e o murmúrio do Paiva. A água era cristalina e a praia fluvial era formada por um pardo mosaico de pedras. A corrente seguia forte como se estivesse a ser soprada por uma divindade das montanhas, e o vento assobiava por entre os troncos do arvoredo envolvente. 

Instalado numa das casas de xisto, pude usufruir do conforto de uma casa de campo restaurada. Idealizei uma vida arredada do pulsar da urbe e o meu sono não foi interrompido pelos espasmos da modernidade. As primeiras horas da manhã higienizaram o meu espírito. 

A Paradinha foi-me sugerido como um recanto para as almas citadinas; um refúgio para as almas mais inquietas; um segredo bem guardado. Não fui ao engano. 

Procurava um parênteses e encontrei-o. Nas margens do Paiva, jaz um reino mágico: a aldeia da Paradinha.

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