O destino da estrada

“É sempre em frente”. Mas não era. Nunca tinha sido e não havia de ser agora. Quantas horas é que será que já tinham passado? Pareciam cinco, dez, um dia. Mas mais do que duas, de certeza. Subiam e desciam há uma eternidade e, por cada vez que se repetia “é sempre em frente”, as palavras iam perdendo o seu sentido.

Aquela embrulhada começou na padaria. Os cinco miúdos pasmados a olhar para a fotografia aérea da vila. Ruas que se correm todos os dias, casas de uns, casas de outros, ruas que não se sabe onde vão dar e ruas que nem se percebe de onde vêm. E aquela era uma dessas. Atrás do parque municipal, ao longo da Petro Variante, o destino daquela estrada era um mistério para todos e descobri-lo tornou-se o objetivo daquele dia.

Foram subindo, uns atrás, outros à frente, uns a pé e outros de bicicleta. Enfrentaram o calor escaldante do início da tarde e as chuvas torrenciais do fim do outono. Sentiram-se a caminhar por entre estações, por entre eras, até darem por si estacionados na zona industrial. Voltar para trás não era uma hipótese. Quem é que lhes garantia que já tinham descoberto o destino daquela estrada?

Descoberto ou não, naquele momento já só tentavam caminhar em regresso. Os mais confiantes, capazes de convencer todo o bando das suas capacidades de orientação, desapareciam curva após curva nas suas bicicletas, deixando para trás os indefesos caminhantes. Um chorava, ligava aos pais implorando que o fossem buscar, sem ser sequer capaz de explicar onde estava. “É perto da zona industrial!”, mas talvez nem seja, talvez já estivessem a andar mesmo há uma eternidade, perdidos sabe-se-lá onde ou talvez a chuva, o sol e o desespero tivessem dilatado o tempo e estivessem a duas curvas de distância da padaria. Mas todas as estradas têm um fim. Voltar para trás continuava sem ser uma opção e haviam de encontrar o fim antes de anoitecer.

O fim, o destino, o que queiramos chamar, apareceu-lhes de repente. Petrificados, os miúdos que sobraram daquela travessia no deserto encararam a variante, que se lhes apresentava a um arbusto de distância. “Estamos na variante?”, “Estamos em Rossas!”, “Não podemos atravessar a Variante, vamos presos se atravessarmos a Variante!”, “Seguimos em frente! Quer estejamos em Rossas, quer não, a estrada continua e havemos de chegar a algum lado” e de repente o grupo tinha um novo líder e os pés voltaram a correr apressados.

E a verdade é que chegaram realmente a algum lado. Seguiram a estrada e acabaram em Romariz, confusos com o percurso circular que pareciam ter feito. Ninguém falava. Caminharam em passos lentos, derrotados, em direção ao centro da vila, numa marcha dolorosa de soldados que voltam vitoriosos do combate – mas a que custo? Uns seguiram para casa, outros para a central de camionagem. Nem sequer quatro e meia da tarde e o dia já terminado. Talvez fosse aquele o destino da estrada.

Rodrigo Samuel Duarte

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