“Mudam-se os ventos, mudam-se as vontades”

Nas últimas semanas, Portugal voltou a estar em voga pelas piores razões. As tempestades sucederam-se, uma atrás da outra, varrendo o litoral, inundando estradas, arrancando árvores e deixando famílias às escuras.

Em poucos dias, o país foi assolado por sucessivas depressões atlânticas – como a Tempestade Kristin e a Tempestade Joseph – nomes estrangeiros para problemas bem portugueses: ribeiras que transbordam sempre nos mesmos sítios, bairros construídos em leitos de cheia, infraestruturas frágeis à primeira rajada mais séria.

As imagens repetiram-se nos telejornais: carros submersos em túneis urbanos, comerciantes a tirar água das lojas com baldes, bombeiros exaustos a trabalhar noite dentro. Em Castelo de Paiva, em Cinfães, em Leiria e Coimbra – ninguém pareceu escapar. Durante dias, as declarações oficiais multiplicaram-se, os alertas laranja e vermelhos foram partilhados nas redes sociais e os responsáveis políticos percorreram zonas afetadas com ar compenetrado.

Mas, tal como o vento, também a indignação é volátil.

Alterou-se o governo. Mudaram as pastas. Mudaram os discursos. E, no meio dessa mudança, parece ter-se diluído a urgência de discutir a sério a prevenção, o ordenamento do território, o investimento estrutural em sistemas de drenagem e planeamento urbano resiliente. Cada executivo promete rever planos, criar grupos de trabalho, reforçar verbas. Depois, o sol regressa

– e com ele regressa o esquecimento.

Portugal tem memória curta para as tragédias longas. Assim que as águas baixam, baixam também as prioridades. A política, essa, funciona ao ritmo dos ciclos mediáticos. Hoje fala-se de tempestades; amanhã, da próxima polémica parlamentar. Entretanto, as populações continuam a viver nas mesmas zonas vulneráveis, com as mesmas promessas por cumprir.

E por falar em promessas por cumprir, voltou esta semana à voga a velha história do IC35 – 25 anos depois. Um quarto de século de anúncios, estudos prévios, lançamentos simbólicos e sucessivos adiamentos. Gerações inteiras habituaram-se a ouvir que “agora é que é”, que “desta vez avança”, que “a obra está para breve”. O tempo passa, os governos alternam, os comunicados acumulam-se. A estrada, essa, continua a ser mais promessa do que realidade.

O paralelismo é inevitável. Tal como nas cheias recorrentes, também aqui se assiste ao mesmo padrão: o problema é reconhecido, a urgência é declarada, a solução é adiada.

É certo que fenómenos extremos se tornaram mais frequentes e intensos, numa realidade moldada pelas alterações climáticas. Mas isso não pode servir apenas de explicação conveniente. Se sabemos que os ventos sopram mais fortes, porque insistimos em construir como se o clima fosse o mesmo de há trinta anos? Se sabemos que as cheias regressam, porque não antecipamos em vez de remediar?

Há uma diferença entre imprevisibilidade e negligência. A primeira é inevitável; a segunda é política.

O problema não é apenas a força das tempestades – é a fragilidade das respostas. É a facilidade com que se passa da solidariedade circunstancial ao silêncio confortável. É a rapidez com que os governantes trocam o impermeável de ocasião pelo fato seco da rotina parlamentar.

 

“Mudam-se os ventos, mudam-se as vontades”, escreveu Camões. No Portugal contemporâneo, a máxima mantém-se inquietantemente atual. Sopra a tempestade, acende-se o debate. Abre o céu, fecha-se o assunto.

Até à próxima rajada.

sobre o autor
Paulo Soares
Discurso Direto
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