O que estamos a perder?

No início deste mês, rebentei um pneu na CM 1138, a infame estrada que liga Castelo de Paiva a Arouca e sobre a qual já aqui escrevi.

Nessa crónica, desafiei os responsáveis dos dois municípios a fazerem o percurso e a sentirem o “medo de rebentar um pneu”… certo…

Podia falar sobre a razão de ter acontecido, mas disso não se retiraria grande proveito. Interessa-me mais o que aconteceu depois.

Como o meu carro não tem pneu suplente, vi-me obrigado a chamar o reboque e a esperar no cimo do monte, já a chegar a Santo Adrião e antes do cruzamento para Real.

Para quem não conhece, imagine uma estrada e um enorme descampado à volta. Sombra é coisa que nem a pouca vegetação que por ali existe consegue oferecer aos insetos.

Cheguei antes das nove da manhã. O reboque apareceu perto das onze.

Durante aquelas duas horas passaram carros suficientes para rapidamente perder a conta. A conta das pessoas que pararam para perguntar se precisava de ajuda foi bastante mais fácil.

Uma.

Uma pessoa, que seguia de mota, parou para saber se estava tudo bem. Felizmente, estava. Tinha conseguido contactar a assistência e, tirando o calor, o aborrecimento e um pneu destruído, não precisava de ajuda.

Mas quem passava não sabia disso.

Via apenas um carro encostado numa zona isolada, com os quatro piscas ligados, num dia em que havia incêndios na região, embora não naquele local. Poderia estar tudo controlado, como estava. Mas também poderia não estar.

E foi aí que me surgiu a pergunta: o que estamos a perder, enquanto sociedade, para vermos alguém naquela situação e continuarmos viagem sem sequer tentarmos perceber se está bem?

Não escrevo isto de um pedestal. É bem possível que já tenha feito o mesmo. Todos andamos com pressa, horários para cumprir e problemas suficientes na cabeça.

Mas foram muitos carros. E parou uma pessoa.

Bastaria abrandar, baixar o vidro e fazer uma pergunta simples. Naquele dia, a resposta seria não. Noutro dia, com outra pessoa, poderia ser diferente.

O pneu foi substituído e eu segui caminho. A pergunta continuou comigo: enquanto passamos uns pelos outros sem parar, o que estamos a perder?

sobre o autor
Pedro Gonçalves
Discurso Direto
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