
Neste jornal falamos de várias infraestruturas, entre as quais duas que são fundamentais: a conclusão da variante de Arouca e a de Castelo de Paiva. E o investimento grande, estrutural, quando é bem feito, é para aplaudir.
Mas, há uma dicotomia que já não dá para disfarçar: investe-se como deve ser nas grandes obras e aceita-se, como se fosse normal, o investimento irrisório nos acessos locais.
Antes de mais, começo por casa: Cinfães. Quem conhece o concelho sabe que, em matéria de estradas, a qualidade já vinha a pedir socorro há muito. Mas os temporais das últimas semanas foram um teste que expôs a fragilidade dos acessos locais. Houve ocorrências em sequência, estradas condicionadas, muros a ceder, cortes pontuais, felizmente sem vítimas, e fica uma conclusão: a nossa rede viária está a trabalhar no limite.
Ainda assim, dou os parabéns ao executivo e aos responsáveis da Proteção Civil pela rapidez de resposta. Quando há pessoas condicionadas e acessos bloqueados, reagir depressa é uma obrigação. E isso foi de notar.
Mas são parabéns que deixam algo a desejar. Porque melhor do que reagir rápido é não ter de reagir. E aqui entra a parte incómoda: a prevenção. Agora fala-se em reforçar medidas preventivas e em verificar valetas e aquedutos para garantir a drenagem. Ótimo. Mas eu pergunto: porque é que isto aparece sempre com o estrago já em cima? Quais foram as prevenções? Nenhumas?
Mas o problema não fica por Cinfães. Entre Castelo de Paiva e Arouca, há um exemplo que dispensa floreados e que já noticiámos no mês passado: a CM 1138. Há vários meses que esta via apresenta buracos, desagregação do pavimento, pedra solta na faixa de rodagem. E não é um “piso mau”. É um piso miserável. Volto a usar a palavra, porque é mesmo isto: miserável.
Senhores membros dos executivos paivense e arouquense: muitos parabéns por conseguirem dar avanços às variantes que a população anseia há anos. Mas deixo o desafio de passarem nestes locais, porque eu acredito que esta estrada não é caso único. Passem lá. Façam o percurso inteiro. Sintam o medo de rebentar um pneu ou fazer um dano pior no carro, numa zona onde, em alguns troços, nem rede existe para pedir assistência.
E depois, quando voltarem para o gabinete, expliquem-nos com cara séria como é que isto é aceitável. É absolutamente inadmissível que uma estrada usada por dezenas de cidadãos, todos os dias, esteja meses assim. Inadmissível.
Volto a Cinfães, porque isto não é um problema “dos outros”. Há quantos anos é que as vias de comunicação em Cinfães são tratadas como um assunto secundário? Há quantos anos temos estradas estruturais, a EN 222, por exemplo, com tráfego diário intenso, que vão sobrevivendo à custa do mínimo? Quanto tempo mais vamos continuar a preferir a glória de responder depressa, em vez do silêncio de não termos de responder?
Quando se começa a falar em respostas “excecionais” e mecanismos extraordinários, o que está a ser dito é simples: a rede local não aguenta. Só que não são declarações de calamidade nem ajudas avulsas do Governo que mudam o essencial. É apenas mais um remendo. Maior, mais caro, mas um remendo.
Deixo uma última questão: durante quanto mais tempo vamos continuar a fingir que o nosso concelho não está isolado de tudo, sem acessos rápidos e dignos aos principais pontos do concelho? Nesta altura, já nem me atrevo a pedir investimento para todos os lugares, o atraso é tal que garantir acessos dignos aos principais pontos já seria uma conquista.
A verdade é que as estradas são os nossos caminhos. E os caminhos são a primeira forma de comunicação entre pessoas. Não é de hoje. É desde o início da história. Tratá-los da forma como têm sido tratados é prestar um serviço miserável à população.

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