As curvas da estrada de Alvarenga

Roberto Carlos cantava – verdadeiramente desesperado – sobre as curvas da Estrada de Santos. Era lá que ele acelerava para tentar esquecer um amor perdido. Ora, Arouca e Santos são cidades-irmãs e eu, por respeito ao Rei e à geminação, passei a minha vida a cambalear de um lado para o outro nas curvas da estrada de Alvarenga. 

Toda a minha vida vivi em Alvarenga, mas estudei quase sempre em Arouca. Desde que me entendo por gente que conheço estas curvas de trás para a frente, ou da esquerda para a direita. Era nesta estrada que dormia, que divagava em discursos intermináveis, que cantarolava sobre o calhambeque do Roberto Carlos – lá está. Foi nesta estrada que capotei e que, depois de outro acidente, disse ingenuamente ao meu pai que tinha acabado de viver o pior dia da minha vida. Foi também ali que, 20 anos depois, perdi o para-choques contra uma pedra. 

Foram também estas curvas que tornaram os meus aniversários em eventos não intencionalmente bairristas – só alvarenguenses por todo o lado, por mais que a maior parte dos meus amigos estivesse para lá do Paiva. E quando, depois de uns anos, começaram a finalmente ir aparecendo às migalhas, vinham completamente destruídos. Odisseu não passou tanto para voltar a Ítaca nem os hebreus passaram tanto para escapar ao Egito como o que este miúdos passavam para chegar a Bustelo. Uns vinham esverdeados, outros com a boca em sacos, outros a cheirar limão, mas poucos vinham com estômago para brincadeiras. Sempre os achei uns fracos, são só meia dúzia de curvas. 

No entanto, e é uma realidade que temos de encarar, a rivalidade Alvarenga-Arouca não surge do nada. Como é que estamos à espera que dois povos se mantenham unidos, que se sintam irmãos, partes de um todo e de uma comunidade maior, se entre eles há pelo menos 40 minutos infernais de curvas e contracurvas? Como é que queremos que os arouquenses gostem de nós se só até Canelas é que se consegue ultrapassar? O bife é bom, mas não faz milagres. Sejamos honestos, se a Inglaterra e a Irlanda não fossem divididas por mar mas por uma sequência de curvas da chouriça, posso garantir que o conflito da Irlanda do Norte tinha acabado antes sequer de começar – não havia inglês que se atrevesse a pôr lá os pés.

Não trago soluções, trago material para pensar. E faço um apelo: não sigam o exemplo do Roberto Carlos, não acelerem nas curvas! Por favor.

Rodrigo Samuel Duarte

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