Um passeio noturno por Veneza

Cheguei à estação de Santa Lucia por volta da meia-noite. O vento soprava languidamente no canal e os candeeiros de ferro fundido projetavam um feixe prateado nas águas turvas do Grande Canal. Diante de mim, erguia-se a igreja de San Simeone Piccolo com a sua magnífica cúpula verde-bronze. Contemplei o seu frontão de gosto neoclássico. Admirei o jogo de sombras das colunas de feição coríntia e a escadaria de mármore carcomida pela impiedade do tempo. Deixei-me levar pela melancolia, pela placidez do momento. Senti uma estranha harmonia à minha volta. Estava em Veneza.

Tinha como destino o hotel Gorizia a La Valigia, perto da praça de São Marcos. Estava exausto, desejoso de uma cama de lençóis de seda, mas o caminho era longo. Pela frente tinha alguns quilómetros, dezenas de pontes, fondamentas, ruas sinuosas, vielas, becos, quelhas, congostas, passadiços e canais. Não é fácil calcorrear a Sereníssima. Orientei-me pelas placas «Per S. Marco» como se fosse um peregrino jacobeu em busca das vieiras amarelas. As placas «Per S. Marco», «Per Rialto», «All’  Academia» e «Alla Ferrovia» salvam qualquer forasteiro desorientado do labirinto veneziano. O meu passo era lento; o fôlego ofegante. O silêncio de Veneza remeteu-me para uma introspeção reconfortante, ingénua e romântica, mas o lânguido marulhar das correntes do Grande Canal deixou-me inquieto.  Ouvia-se o estalar da madeira das gôndolas e das balsas amarradas aos cais. E, ao longe, ecoavam os brados dos turistas ébrios que cambaleavam à saída das tabernas. Vieram-me à memória as descrições da Sereníssima de Claudio Magris, Jan Morris e Javier Marías.

Atravessei todo o sestiere (distrito) de Cannaregio, sem nunca me afastar do Grande Canal, a artéria aorta de Veneza. Sempre que atravessava uma ponte dava por mim a fitar os palazzi venezianos, imaginando o quotidiano romanesco de quem lá vive. As janelas bíforas e tríforas de gosto bizantino; as portadas enegrecidas; os recantos brumosos; os ornamentos góticos e renascentistas; os pináculos rendilhados; os silhares de pedra da Ístria; as chaminés altas e esguias; as luzes tépidas dos candeeiros que ladeiam os passeios… A Veneza noturna oferece-nos um espetáculo visual único e irreplicável. Esta cidade não suscita reminiscências de outros sítios e convida o espectador a um exercício de introspeção vagarosa. Há uma estranha sensação de isolamento interior que nos assola; que nos reconforta; que nos transporta para um lugar sentimental alheio à barbárie. Revejo-me nas palavras de Javier Marías. Em Veneza, Um Interior escreveu: «A cidade muda totalmente de noite. […] e à medida que as horas avançam Veneza vai ficando cada vez mais deserta e mais possuída pelos sons individuais. O ruído dos passos cruza-se com o bater da água e a aparência de cenário de qualquer recanto acentua-se, pois nenhum cenário o parece tanto como quando não tem ação e está vazio».

Cheguei finalmente ao hotel Gorizia a La Valigia estafado. A aventura no labirinto veneziano foi desgastante, mas o meu «passeio noturno» pela Sereníssima limpou o meu espírito. O silêncio da lagoa embalou-me. A bruma da cidade trouxe-me leveza. O panorama marítimo veneziano – sedoso e onírico – propiciou a renovação de votos com a minha solitude. Naquela noite de verão veneziana, pude ouvir o ruído da vida e escutar o silêncio da alma.

Miguel Brandão

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