
O país vizinho oferece um conjunto apreciável de lugares magníficos. Um deles é, sem dúvida, a cidade de Santander. A sua luz atlântica, a elegância dos seus bairros e a beleza panorâmica do Cabo Maior transportam o viajante para uma Espanha que escapa à nossa imaginação – uma Espanha distinta da descrita por Hemingway, George Orwell ou mesmo Ramalho Ortigão. De facto, a capital cantábrica em nada se assemelha às Espanhas festivas que tão bem conhecemos. Santander mais parece uma estância de veraneio oitocentista arrancada da Gasconha ou da Bretanha… Não surpreende, por isso, que já em meados do século XIX, um colaborador do Semanario Pintoresco Español (1836-1857), Antolín Esperón, comparasse Santander às cidades portuárias da Alemanha, da Holanda ou mesmo da Inglaterra. A bruma cantábrica, a chuva miúda e os cafés elegantes junto à praia evocam as cidades de veraneio da costa atlântica francesa.
O bairro El Sardinero conserva ainda o glamour da Belle Époque. Construído em 1910, o Gran Casino Sardinero confere um ambiente solene, de gosto burguês, a todo o passeio marítimo. Não muito longe daí, podemos visitar a Península de La Magdalena, situada na baía de Santander. No seu ponto mais alto, ergue-se o Palácio de La Magdalena, um edifício ofertado pelos santanderinos à família real espanhola. O palácio – uma quimera bizarra de estilos arquitetónicos – denuncia o gosto francês e inglês dos Bourbons. Afonso XIII (1886-1941) visitou-o pela primeira vez em 1913 e desde então utilizou La Magdalena como residência oficial de verão até à década de 1930. A memória dos tempos em La Magdalena permaneceu cara à família real. Em 1950, a rainha Vitória Eugénia (1887-1969), esposa de Afonso XIII, escreveu a uma amiga que era em La Magdalena que se sentia «totalmente feliz e independente». A sua filha, Beatriz de Bourbon e Battenberg (1909-2002), recordaria igualmente o sentimento de liberdade vivido no palácio. Escreveu nas suas memórias:
«Pero a mí donde más me gustaba ir era al Palacio de la Magdalena en Santander, porque allí éramos más libres, hacíamos una vida completamente como ‘particulares’.»
Em Santander, há também que vaguear pelos jardins de Pereda e contemplar a vista a partir de uma das plataformas do Centro Botín. O semblante da baía, a faina marítima e o marulhar vagaroso das águas oferecem um quadro mavioso das terras cantábricas. Bem notou o escritor Benito Pérez Galdós (1843-1920), num texto de 1884, que a baía de Santander seria a mais bela da Península Ibérica se não fossem as «rías bajas» da Galiza. Não contrariando Galdós, julgo que qualquer espírito livre consegue admirar a beleza romanesca da baía santanderina. Por momentos, imaginei Monet, Aivazovsky e Turner a pintar este lugar. Melancólica, discreta, elegante: assim é Santander.

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