Quando Ficamos às Escuras

Sentei-me na noite de terça-feira, 27 de janeiro, ao computador para escrever a minha primeira crónica. Não tinha tema, não tinha ângulo, não tinha aquela faísca que, de vez em quando, faz uma página andar sozinha. Tinha só o cansaço do dia e a intenção. Que, para quem vive de contar histórias, costuma ser metade do caminho.

E depois falhou a luz.

Na minha casa, em Souselo, foi como se alguém tivesse desligado o quotidiano. E rapidamente percebi que não era um problema “ali na rua” ou “só na minha zona”: Souselo ficou todo às escuras, de uma ponta à outra, sem exceções. A freguesia apagou-se por completo.

Fiquei no escuro e, quase por instinto, fui à varanda. Foi aí que o contraste se tornou impossível de ignorar: em frente, do outro lado do rio Paiva, via Fornos iluminado, com a normalidade intacta. À minha esquerda, Travanca, dentro do mesmo concelho, também acesa. À volta, luz. Aqui, Souselo inteiro, escuro. Não era a escuridão de um temporal que apaga meio mundo; era uma escuridão que deixava o resto do mapa aceso. E isso, em vez de tranquilizar, incomoda.

A eletricidade falhou por volta das 19h, naquela hora em que a casa começa a pedir coisas simples: aquecer comida, acender luzes, carregar o telemóvel, continuar o dia sem grandes dramatismos. O jantar ia ser o que é em tantas casas portuguesas: sobras de outra refeição, aquecidas no micro-ondas, sem cerimónias nem romantismos. Sem eletricidade, o plano mudou: passou a ser aquecido “à moda antiga”, em banho-maria. De repente, a cozinha ficou mais lenta. E eu, sem querer, também.

Depois, veio o inevitável: jantar à luz das velas. Para quem passasse na rua e espreitasse pela janela, talvez fosse uma imagem bonita: a chama pequena, as sombras a mexer, o silêncio, a casa mais quieta. Mas para quem está lá dentro existe sempre aquela diferença fundamental entre escolher um ambiente e ser empurrado para ele.

O mais “engraçado” foi a gestão de baterias. Com o telemóvel e o portátil a descerem percentagem a percentagem, comecei a fazer contas ao que ainda dava para ver. Descartei o supérfluo e acabei a gastar os últimos resquícios de energia apenas no essencial: acompanhar o debate entre os dois candidatos às Presidenciais. E com a falta de eletricidade percebi que tanto a bateria como a democracia estavam em modo de poupança.

Foi assim que aconteceu uma das imagens mais improváveis da noite: jantar e debate à luz das velas. E, à luz das velas, convenhamos, até António José Seguro e André Ventura parecem mais suaves. Quase românticos. Não pelo conteúdo, mas porque a chama faz milagres e o contexto muda tudo.

A seguir veio a parte menos poética: ir para a cama mais cedo, com aquela esperança discreta de que a luz voltasse durante a noite. Dormir a pensar que, de manhã, tudo estaria “normal” outra vez, como se o normal fosse uma coisa que regressa sozinha, silenciosa, sem explicações.

A eletricidade só voltou já de madrugada, quando a freguesia dormia. E quando acordei, estava tudo de volta: telemóveis a carregar, o micro-ondas a postos para mais um dia de trabalho, a cozinha pronta para a pressa do dia seguinte. Mas ficou-me a memória da varanda, e daquela sensação de estar às escuras a ver o mundo iluminado à volta.

Naquela noite, ao contrário do que queria, não tive uma ideia genial. Tive várias ideias… nenhuma com grande utilidade. Sem as distrações do costume, fiquei a pensar em tudo e em nada, até perceber que a história estava ali, à minha volta, e não na minha cabeça.

Com o risco de soar a cliché, percebi, quando a eletricidade voltou, que, de vez em quando, faz bem ficarmos às escuras e sermos obrigados a viver em “modo de poupança”. Não falo apenas da bateria do telemóvel ou da casa, falo também do essencial numa sociedade, a democracia. No corre-corre do dia-a-dia, damos tudo por garantido, como se fosse infinito e automático. Mas a democracia, tal como a energia, precisa de atenção e de “carga”, e quando entramos em modo de poupança, percebemos uma coisa simples: nada dura para sempre, e não há garantia de que tudo volte a tempo.

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