Frente a Frente

Sobre refeições escolares

Desafiado a escrever sobre as refeições escolares em Arouca, a primeira coisa lógica que me parecia fazer sentido era ir comer a uma das cantinas de um dos agrupamentos.
E, assim, foi… pedidas as respetivas autorizações, lá fui à Escola Secundária de Arouca almoçar, entre alunos e com exatamente a mesma refeição do que eles.

Devo dizer que fiquei agradavelmente surpreendido…

Mas antes de mais convém desmistificar algo que muitas pessoas desconhecem: o facto da confeção de refeições estar entregue a uma empresa, não quer dizer que as refeições são feitas numa qualquer cozinha industrial num qualquer concelho vizinho, e transportadas para Arouca. As refeições são sempre confecionadas em Arouca, na sua enormíssima maioria por pessoas de Arouca e sempre com prioridade a produtos agrícolas do concelho, numa parceria com o Arouca Agrícola. E isto garante que quem lá está a fazer as refeições, além dos ingredientes, coloca também muito cuidado no que faz.

Em Arouca, neste momento, coexistem 2 modelos: na Escola Secundária de Arouca (que também fornece a escola básica), na Escola Básica e Secundária de Escariz e no Polo Escolar do Burgo (que faz as refeições para várias escolas do concelho), existe este modelo de funcionamento, de concessão a uma empresa. Nos polos de Rossas, Mansores e Chave, são as Associações de Pais (de forma protocolada com o Município) que asseguram a confeção das refeições dos alunos. No modelo de funcionamento das cantinas concessionadas, são mais de 40 as pessoas envolvidas.

Como já foi várias vezes referido em reuniões da Assembleia Municipal (e também da Câmara Municipal) as equipas de educação do município e a sua nutricionista, fazem visitas regulares, sem pré-aviso, para observar como tudo decorre e para sugerir, se necessário, medidas corretivas. O mesmo podem fazer encarregados de educação, mediante agendamento e de forma gratuita. Ver, in loco, como estão as refeições das crianças e jovens. Ferramenta que, aparentemente, ainda é pouco utilizada.

Na visita que tive oportunidade de fazer, a refeição pareceu-me muito bem…sopa, prato de peixe (que já sabemos não granjeia grande fama junto dos jovens, apesar do seu valor nutricional), salada e no fim pera assada (havendo mais fruta caso quisesse ter escolhido).  Terminado o processo e devolução dos tabuleiros, houve então a oportunidade de preencher o questionário de avaliação que todos os “avaliadores” devem preencher.

É sabido que o modelo da concessão levantou várias resistências. Sabemos que normalmente a mudança leva a isso. Mas, mais importante que o modelo, não é a garantia de qualidade nas refeições servidas? Porque todos os modelos terão eixos de melhoria e exigirão olhar atento do município, dos encarregados de educação e comunidade educativa.

A mim parece-me que, mais do que estar preocupados com o modelo ou com meia dúzia de reclamações (que devem ser averiguadas e corrigidas, obviamente) o importante é que o modelo sirva os estudantes cumprindo os requisitos nutricionais.

E o modelo ou a coexistência de diferentes modelos, será tanto melhor quando mais tiveram linhas de orientação comuns. Que procurem sempre garantir mão de obra local e produtos locais, contribuindo assim para uma maior proximidade à comunidade.

Pedro Sousa

 

Refeições Escolares “À Moda Antiga”…

Sou do tempo em que a comida era confecionada nas próprias escolas. Ainda hoje, quando nos cruzamos com pessoas dessa geração, recordamos com carinho quem se preocupava genuinamente com a nossa alimentação e com o nosso bem-estar. Essa memória coletiva permanece viva e deve servir de inspiração para o presente. Cabe-nos agora zelar pelo futuro dos nossos filhos e netos.

A discussão sobre o serviço de refeições escolares não pode limitar-se à racionalidade económica. Em Arouca, por exemplo, coloca-se frente a frente dois modelos distintos: a chamada “boa comida”, preparada localmente com produtos frescos e locais, e a comida “industrial” produzida em larga escala. Embora os custos da primeira possam ser superiores, os seus benefícios ultrapassam largamente a diferença financeira. Um modelo assente em cadeias curtas de abastecimento valoriza produtores locais, dinamiza a economia do setor primário do concelho e incentiva micro-negócios ligados à agricultura familiar e comércio local, potenciando o “Arouca Agrícola”, a “Feirinha do Agricultor”, ou mesmo o “Compre no Comércio Local”.

O que está verdadeiramente em causa é o modelo de fornecimento das refeições. Existem bons exemplos no concelho, como os polos escolares de Rossas e Chave, onde o serviço é assegurado pelas Associações de Pais. Este modelo reforça a proximidade, a responsabilidade partilhada e a qualidade percebida pelas famílias. Em contraste, existe o modelo de fornecimento em escala por empresas externas. Não está em causa o profissionalismo dessas empresas, que cumprem, certamente, os padrões contratualizados. Trata-se de um sistema mais distante da comunidade e orientado por critérios de eficiência económica.

A alimentação escolar é uma questão de saúde pública, de justiça social e de qualidade educativa. Vivenciando os dois modelos sou apologista que as cantinas devem funcionar sob gestão direta da Câmara Municipal ou do agrupamento de escolas, sempre que existam condições para tal. A gestão pública permite maior controlo sobre a qualidade das refeições, privilegiando produtos frescos, sazonais e de origem local. Além disso, qualquer problema pode ser resolvido com maior rapidez e transparência, sem a complexidade associada a contratos externos.

Este modelo coloca o bem-estar dos alunos acima da lógica do lucro. Numa concessão, a empresa tem objetivos financeiros legítimos; numa gestão direta, o foco deve ser a saúde, a satisfação e o desenvolvimento das crianças. A alimentação não é apenas um serviço complementar, é parte integrante do processo educativo, influenciando hábitos, rendimento escolar, qualidade de vida e em muitos casos é a única refeição diária de alguns dos nossos alunos.

A proximidade é outro fator determinante; pais e encarregados de educação podem dialogar diretamente com a escola ou com o município, promovendo participação ativa e responsabilidade coletiva. A autarquia torna-se mais sensível às necessidades reais da comunidade educativa.

É verdade que a gestão direta implica maiores responsabilidades e desafios organizacionais. Porém, quando bem estruturada, representa um investimento na saúde das crianças, no fortalecimento da economia local e na promoção de hábitos alimentares saudáveis.

Mas, agora que já experienciámos os dois modelos de fornecimento (naturalmente salvaguardando nos dois o valor nutricional das refeições), faça-se um exercício sério e profundo que permita aos Arouquenses tomar decisões, pois a diferença pode ser traduzida em menos um foguetório ou mesmo um concerto de música pimba.

Vítor Carvalho

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