O Último Mandato

Os ciclos políticos autárquicos passaram, com a limitação de mandatos, a ter uma duração previsível de 12 anos, correspondentes a três mandatos consecutivos. Naturalmente, o eleitorado pode interromper esse percurso a qualquer momento, tendo ainda recentemente assistido a alguns desses momentos, como em Coimbra nestas últimas eleições ou em Lisboa em 2021. O povo é soberano! Mas quando um presidente de câmara alcança esse terceiro mandato, entra numa fase singular da sua trajetória política.

O último mandato é, por natureza, diferente. Desaparece a pressão imediata da reeleição. Deixa de existir a necessidade de calibrar cada decisão em função do próximo ato eleitoral. E é precisamente aí que se revela a verdadeira natureza da liderança. Perante esse cenário, surgem normalmente duas posturas.

A primeira é a do presidente que, liberto da pressão eleitoral, decide governar com maior amplitude. Pode até avançar com projetos que dividem opiniões, mas fá-lo porque entende que o seu tempo político está a terminar e quer que o concelho avance para lá do seu próprio mandato. Não governa para o imediato. Governa para o que vem a seguir. E isso acaba sempre por influenciar quem lhe sucede.

A segunda postura é a do gradual afastamento. Um mandato mais contido, menos disruptivo, mais orientado para a gestão corrente e para a preparação da sucessão. Nesse modelo, o foco desloca-se para a transição e para a preservação do equilíbrio interno, muitas vezes abrindo espaço ao sucessor designado e reduzindo a exposição política.

A história autárquica mostra exemplos de ambas as opções.

Em Arouca, a questão coloca-se agora com particular interesse. No terceiro e último mandato da atual Presidente de Câmara, assiste-se a sinais distintos. Por um lado, surgem projetos de dimensão estrutural, como o novo Parque da Saúde ou mesmo o novo Projeto da instalação de uma Central Fotovoltaica que, sendo discutíveis ou não consensuais, revelam intenção de deixar marca e de influenciar o desenho do concelho nos próximos anos.

Por outro lado, o Orçamento recentemente aprovado confirma um modelo de governação mais centrado na gestão corrente, na continuidade administrativa e na prudência executiva. Um orçamento que, como já referi noutra ocasião, parece refletir um ciclo político em desgaste eleitoral.

A dúvida que se coloca é simples: que marca quererá deixar este último mandato?

Será um ciclo de consolidação estratégica, de visão integradora e de preparação das gerações futuras? Ou um período de transição, onde a prioridade será a sucessão e o equilíbrio político?

Os eleitores, creio, esperam que o mandato que atribuíram seja plenamente honrado. O último mandato tem todas as condições para ser o melhor. O tempo parece curto, é certo, mas é nesse momento que um presidente tem a liberdade de decidir se quer apenas concluir um ciclo ou verdadeiramente encerrá-lo com grandeza.

Ainda restam mais de três anos. Há tempo para escolher.

Com a escolha certa, os maiores beneficiados serão sempre os arouquenses.

sobre o autor
Artur Miler
Discurso Direto
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