Do Mar às Serras

Se compararmos a área territorial do nosso País com outros países da Europa e do Mundo, concluímos desde logo que fazemos parte do lote caraterizado por áreas reduzidas e a nossa realidade deve ser repensada, tendo em conta a sobrecarga de muitas parcelas do litoral e o abandono do interior, não só ao nível do território nacional, no seu todo, mas também no próprio interior, nos seus concelhos. No caso de Arouca, existem já contornos que nos chamam a atenção para a excessiva concentração no seu polo central. A vila deveria expandir-se, a nível territorial, para as freguesias envolventes, de modo a reduzir os custos dos terrenos para habitação e a sobrecarga desse bem essencial que, ao amontoar-se em demasia, descarateriza a tradição que cativa o olhar dos visitantes. Arouca, uma vila do médio interior do País, deve continuar a ser diferente das nossas vizinhas, que muito respeitamos, mas que são mais citadinas. A falta de estacionamento necessita ser repensada com urgência, mas evitando a opção de aparcamentos edificados. As árvores, que passaram a ornar a vila desde há várias décadas e lhe dão o fascínio da Natureza, merecem ser protegidas e acarinhadas, como o estão a ser, para que, com elas, se respire e se olhe o seu esplendor, e poder ambiental.

Em contrapartida, para que deixe de haver razão para afirmar que a vila absorve o investimento constante e o trabalho permanente de mais funcionários que toda a área restante do concelho, com uma ou outra exceção como é referido pelos seus responsáveis, deverá ser também acarinhada nas suas vertentes de visibilidade, produtividade e bem-estar dos seus residentes. Não se pode esquecer que são eles, Arouquenses como os “urbanos” da sede do concelho, que lhe dão vida e emoção, afeto e gratidão, vivência constante, para que a desertificação seja adiada e o concelho possa resistir à perda de população, como está a acontecer, infelizmente, nas zonas mais inseridas na serra. Mais distantes, mas com características que enriquecem o visual e transmitem fulgor aos cerca de 330 quilómetros quadrados do nosso território, não podem ser desamparadas, nem devem ser esquecidas.

Muitos dos que vivemos no interior e médio interior ficamos alarmados ao constatar, através de imagens e notícias, que muitas zonas da beira-mar, ao longo do litoral português, estão a recompor as suas praias com gastos elevadíssimos, para retirar ao mar parte da areia que a sua força absorveu no inverno. Situações incontroláveis e muito antigas, que se repetem e agravam ano após ano com as transformações climáticas que se vão sentindo por todo o mundo. Como é natural, são forças da natureza, muita acima das possibilidades de serem controladas ou alteradas através de palavras, decretos ou vontades dos que, nos dias de hoje, embora se sintam poderosos e senhores do Mundo, são incapazes de subjugarem o poder sobre-humano. Apenas capazes de agravarem os efeitos negativos com as decisões que assumem e implementam.

Não podemos nem devemos ser insensíveis, mas capazes de pensar com algum realismo. Somos um País de território retangular, superlotado em boa parte do litoral, mas abandonado em grande parte do interior. Estará na hora de ceder ao mar um pouco da sua área de confluência com terra, recuar as infraestruturas que existem nessas áreas e que, muitas delas, foram implantadas à revelia do bom senso, com decisões adulteradas e sem o mínimo de previsão das consequências futuras. A concentração é uma realidade atual, que responsáveis a vários níveis teimam em não ter em conta, para depois se salvaguardarem com lamentos e remediar com verbas avultadas que, quer queiram quer não, são da população em geral. Será hora de assumir decisões objetivas e tecnicamente válidas, programando e executando, dentro do possível, a retirada do que constitui perigo. Os prédios e outras infraestruturas, que se encontram em locais de risco, que tendem a agravar-se, deveriam ser retirados para locais seguros, utilizando os milhões que se gastam periodicamente nos remendos.

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