Grandes obras sem betão

Descerrar placas com o seu próprio nome deve ser verdadeiramente emocionante para qualquer pessoa que ocupe um cargo público. Mas, será que as grandes obras físicas são, à luz da atualidade, as mais urgentes para o desenvolvimento de uma comunidade? Talvez se o desenvolvimento de que falarmos for meramente económico.

Num contexto de transformações cada vez mais rápidas, de ascensão de extremismos e propagação de discursos de ódio, com crises constantes de valores diversos, que respostas podem fazer jus a uma contribuição para a melhoria da vida das pessoas, sendo que essa resposta inicia à escala micro? As autarquias devem estar na linha da frente na criação e implementação de projetos que contribuam para o aumento do bem-estar da população. Por maiores que sejam as obras, se as pessoas estiverem tristes e doentes, o poder político falhou – é preciso dizê-lo.

Nesse sentido, nos últimos anos, tem acontecido em Arouca uma espécie de revolução silenciosa na implementação de projetos na área social, cultural, da saúde, que visam melhorar a qualidade de vida da população, mas que o fazem a uma escala micro e que, por vezes e por não serem iniciativas de grandes massas, parecem passar despercebidas, até para algumas forças partidárias.

Num concelho envelhecido e com aldeias serranas e dispersas, onde é forte o isolamento social sobretudo nos seniores, o município tem feito um trabalho que dir-se-ia quiçá hercúleo antes de o vermos implementado. Projetos como o “Há Baile na Aldeia”, o Espaço Sénior, o “Dar + Vida à Aldeia”, a Teleassistência, contribuem para que ser-se sénior em Arouca não seja sinónimo de se estar em isolamento e inatividade.

Mais impressionante são os projetos intergeracionais que têm vindo a ser implementados e que contribuem não apenas para um diálogo e troca de pontos de vista entre jovens e idosos, mas fortalecem os laços sociais e aumentam certamente o respeito intergeracional. Exemplo disso são o Voz Amiga ou o projeto cultural Botar Cantas. Essas iniciativas chamam pelo melhor de cada pessoa enquanto ser social, humano e cultural e, nessa lógica, são a verdadeira emoção. Para as compreendermos melhor, precisamos de as acompanhar, de alguma forma, e até de conversar com quem nelas se envolve, compreendendo assim o real impacto das mesmas.

Na área da saúde, foi recentemente notícia num meio nacional de comunicação social o projeto Equilibra-te, que fornece respostas na área da saúde mental (escassas no Serviço Nacional de Saúde!). Existe ainda o grupo de trail Sapatilhas Verdes, de promoção do desporto e de uma vida saudável, que a cada semana conquista mais amantes da corrida. São vários os projetos, muitos dos quais brotando da criatividade que exige viver num território marcadamente rural.

E é por isso que a ideia de que o atual executivo foi incapaz de trazer para o concelho uma grande obra – como se só por ser grande em empreitada fosse resolver e melhorar tudo – é profundamente injusta, e não o é para com o executivo, é-o sobretudo para todas as pessoas que projetam expectativas em projetos como os já referidos (e outros). Podemos alegar que uns não impedem os outros, embora saibamos a intenção subjacente à ideia inicial deste parágrafo.

O argumento central deste texto é que os poderes políticos, sobretudo de proximidade, devem investir no território numa lógica marcadamente humana, social e cultural e isso vai, necessariamente, depender de uma escala micro de intervenção, sem prejuízo de reivindicação, junto dos poderes mais amplos, por maiores investimentos físicos.

Contribuir para a formação cívica de jovens responsáveis e solidários, contrariar o isolamento senior e valorizar as gentes locais, promover a intergeracionalidade e a partilha de valores (tantos em desuso), tudo isso é um desafio enorme neste século. Por vezes, bem mais complexo do que uma obra física. E essa pode ser muito bem a grande obra de quem souber aplicar os recursos. Às vezes, é mesmo preciso saber escolher o capital social, humano e cultural em detrimento do económico-financeiro. O modelo atual é capitalista, mas (nem todas) as pessoas não têm de ser também.

sobre o autor
Cátia Cardoso
Discurso Direto
Partilhe este artigo
Relacionados
Newsletter

Fique Sempre Informado!

Subscreva a nossa newsletter e receba notificações de novas publicações.

O envio da nossa newsletter é semanal.
Garantimos que nunca enviaremos publicidade ou spam para o seu e-mail.
Pode desinscrever-se a qualquer momento através do link de desinscrição na parte inferior de cada e-mail.

Veja também