Que por acaso vive em Lisboa

“Vocês têm uma relação parassocial estranha com o sítio de onde são”, disse-me uma vez uma pessoa, sobre a relação dos arouquenses com o concelho. 

E é possível que tenhamos. Talvez “parassocial” não seja a melhor palavra, mas pouco me importa. O que me importa é que há qualquer coisa que eu não consigo explicar, qualquer coisa que não é só bairrismo, que não é orgulho irracional por um pedaço de terra. 

Ao chegar à FCSH em Lisboa, para o meu primeiro dia de aulas do mestrado, uma das primeiras coisas que encontrei nos corredores, no meio de uma pilha de livros gratuitos, foi uma série de exemplares do “Memórias de um arouquense” de António de Almeida Brandão. Por uma questão de princípios, fiquei com um para mim e, ao longo daquela semana, recolhi mais alguns. Sempre que passo por aquele corredor, parecem surgir mais exemplares, não importa quantos tire. Talvez ande por aí outro arouquense, encarregado de espalhar a palavra pela FCSH e que, motivado por ver, logo na primeira semana, três livros a desaparecerem, esteja euforicamente a repor o stock. Talvez se desiluda por saber que fui eu que os levei. A todos. Não peço desculpas por isso, mas prometo falar dele a toda a gente. E talvez ainda roube mais uns quantos para oferecer.

Uma das minhas músicas mais ouvidas em 2022 foi o Hino de Arouca, especificamente a versão do Rancho Folclórico Arouca São Paulo Clube. Parece mentira, mas é verdade e a culpa é do restaurante chinês das Olaias, que resolveu passar um jogo do Arouca e me deu umas saudades tremendas de casa. O Hino, especialmente interpretado por aquelas pessoas que, tal como eu, também estão deslocadas, ainda me ajuda, de vez em quando.

Vivi um ano num bairro recheado de pessoas com origens em Arouca ou em lugares perto. Uma vez, uma vizinha perguntou-me se eu sabia quem ela era. Não fazia a mínima ideia e admito que já não me lembro do seu nome, mas disse-me que era da aldeia imediatamente a seguir à minha, na pontinha de Alvarenga. Há qualquer coisa de reconfortante em encontrar nesta cidade vestígios do que está longe. 

Gosto muito de Lisboa, mas ainda não me sinto totalmente daqui – e, se tudo correr bem, nunca me sentirei. Há uma parte importante de mim que está e estará sempre aí e é-me inconcebível a ideia de passar um mês que seja sem voltar. Disseram-me uma vez que já falava “à lisboeta” e desde então que forço ativamente o meu sotaque. Preciso que saibam, e nunca se esqueçam, que sou um arouquense que por acaso vive em Lisboa.

Rodrigo Samuel Duarte

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