«Mais do que ser mãe, o meu sonho é acolher uma criança»

Deolinda Lopes tinha seis anos quando foi afastada dos pais e passou a viver numa instituição, em Castelo de Paiva, com os dois irmãos. Três anos depois, os três foram acolhidos por uma família do concelho. Hoje, dá aulas de piano, estuda Educação Musical e sonha acolher uma criança.

Ao Discurso Directo, fala da família que a acolheu e da música, que se tornou um refúgio.

Discurso Directo  (D.D): Começando pelo início, tinhas apenas seis anos quando foste para a instituição. O que é que te lembras dessa altura e de como chegaste à família de acolhimento?

Deolinda Lopes (D.L): «Não me lembro de muita coisa, era muito pequenina. Estive três anos na instituição com os meus irmãos. Aos nove anos, fomos para uma família que já conhecíamos, por isso a mudança foi gradual. Para uma criança, tantas mudanças são difíceis de entender, mas acho que foi tranquilo.»

D.D: E acabaste por encontrar ali a tua família, não foi? Olhando para trás, o que é que mudou quando passaste a viver com elas?

D.L: «Não fui adotada, mas a minha família é a que está comigo. A Quina não é a minha mãe biológica, mas é como se fosse. Cuidou de nós como se não houvesse amanhã. Nunca foi casada, não tem filhos e, mesmo assim, teve a coragem de acolher três crianças. Mas não esteve sozinha. As irmãs, a Linda e a Irundina, também foram fundamentais. Estiveram sempre presentes, deram-nos tudo o que puderam e continuam ao nosso lado. Gostava mesmo que as pessoas conhecessem e valorizassem estas três mulheres, porque fizeram tudo por nós.

Também agradeço muito à instituição, foi essencial para mim. Mas estar numa família onde há amor é diferente, é um sítio a que podemos chamar o nosso lar. Eu própria tinha muita revolta e acho que muitas crianças precisam de uma família, de amor e de cuidados. Não são só as necessidades básicas, o amor é importante.»

D.D: A música também tem um papel muito importante na tua vida. Esse gosto já vinha de pequena ou surgiu depois de seres acolhida?

D.L: «Sempre adorei cantar e quis aprender um instrumento. Na instituição deram-me um teclado pequenino, com microfone, e isso despertou ainda mais o interesse. Com esta família, pude estudar na Academia de Castelo de Paiva. Acho que foi o destino, porque a família é quase toda de músicos. Hoje dou aulas de piano e faço o mestrado em Ensino de Educação Musical.»

D.D: E acabaste por encontrar na música uma forma de expressar aquilo que sentias. Foi também assim que surgiu a canção dedicada ao teu padrinho?

D.L: «Foi uma homenagem ao meu padrinho, que não era de sangue, mas era de coração. Morreu quando eu tinha nove anos e ainda hoje é uma dor muito presente. A música é um refúgio e ajudou-me a expressar o que sentia. Demorei a partilhar a canção porque tinha medo de ser julgada. Agora estou a escrever outra para a Quina, para lhe mostrar o quanto é importante para nós.»

D.D: E não te ficaste pela música. Também estás a escrever um livro sobre a tua história, certo?

D.L: «Estou a escrever um livrinho pequenino para falar um bocadinho da minha história, inspirar crianças e jovens e também agradecer à família que me acolheu.»

D.D: E com os teus irmãos, sendo a mais velha, também acabaste por assumir um papel de proteção. Achas que essa preocupação com os outros se reflete na forma como estás com os teus alunos?

D.L: «Tentei sempre proteger os meus irmãos ao máximo. Lembro-me de lhes preparar a roupa, de lhes dar comida e de os ajudar com os trabalhos de casa. Hoje, quando dou aulas, também procuro estar atenta às crianças. Se vejo um aluno mais triste, pergunto se está tudo bem, se precisa de falar. O professor Pedro (piano) também tinha essa sensibilidade comigo. Acho que um professor tem um papel fundamental na vida de uma criança, porque não é só ensinar a matéria. Quero ter uma turma, poder ensinar aquilo que sei e perceber se os alunos estão bem, para também os poder ajudar sempre que puder.»

D.D: E há ainda um sonho teu que tem muito a ver com tudo aquilo que viveste…

D.L: «Mais do que ser mãe, o meu sonho é mesmo adotar ou acolher uma criança. Sei o que é sentir-me sozinha e gostava de dar a alguém aquilo que me deram a mim. Quando estava na instituição, pensava que ia ficar lá para sempre, que ninguém ia querer saber de mim e que nunca teria uma família. Mas tive, e tenho. É importante que outras crianças percebam que há pessoas que gostam de nós e que é possível sermos felizes.»

Foto: Deolinda Lopes

Pedro Gonçalves

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Discurso Direto
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