
O Discurso Directo esteve à conversa com a jovem arouquense Mariana Fernandes, a propósito das suas vivências no mundo da música. Apesar da tenra idade (24 anos de idade) e de ainda ter toda uma vida pela frente, está desde pequena no universo musical. Falamos de todo esse percurso, especialmente os acontecimentos mais recentes, onde fundou o projeto «TuttiStudio» e idealizou o «Dó-Ré-Mi».
Esta é a 2ª e última parte da entrevista completa, que lançamos no dia (24 de outubro de 2026) que o TuttiStudio completa um ano de existência.
Discurso Directo (DD): Agora sobre os seus projetos, começando pelo Dó Ré Mi, que tem que ver com esta sua nova vertente de acompanhamento das crianças. Como surgiu a ideia de concretizar este projeto?
MF: «Tudo começou com as aulas de educação musical na Banda Musical de Arouca, na Escola de Música, em que comecei a lidar com crianças entre os 4 e 5 anos, e na altura não havia ainda assim tanto material. Isso fazia com que eu tivesse que puxar pela minha criatividade e ir à procura de atividades.
E depois, como estava a falar no início da conversa, quando surgiu a oportunidade de fazer a formação da música na primeira infância, foi aí que tive bastante material e comecei a perceber que agora realmente tenho aqui bastantes coisas por onde posso pegar.
No final do curso, eu ainda estava com a minha tese a decorrer, e na altura sentia que tinha que fazer alguma coisa com a formação que tive, que podia ser uma abertura de portas. E foi aí que parei um bocadinho e pensei: “Cá em Arouca, não existem assim tantas atividades para idades tão pequenas”. Neste caso, digamos, a partir dos 4/5 meses, até mais ou menos aos 3 aninhos, e depois até dos 3 aos 6, ou seja, temos as creches, os jardins, a Câmara também tem as Bebetecas com a biblioteca municipal, só que aí é mais a nível de leitura.
E eu sentia que a nível musical, realmente não havia nada. Pensei em falar diretamente tentar falar com alguém do Município e propor um projeto infantil. E em julho desse ano, estamos a falar do ano de 2025, foi quando fui à Câmara apresentar o projeto e tive a oportunidade de falar com a vereadora da Cultura (Cláudia Oliveira). E ela adorou a parte de ligar a música à parte infantil, que realmente sentia que poderia ser uma mais-valia para acrescentar e valorizar mais ainda a parte das Bebetecasm, que decorrem já uma vez por mês na Biblioteca Municipal.
O projeto, na altura, ainda foi à aprovação por parte do Município. Então, decidiram dar o nome de projeto Dó-Ré-Mi, e eu gostei bastante também do nome, e depois propuseram não só fazer uma sessão, como duas sessões, em que englobasse desde os 5 meses até aos 6 anos, e fazer também uma vez por mês, mas nesse caso, no 2º fim de semana, porque a Bebeteca já é no último, então assim dava para a intercalação de projetos, que faz parte do mesmo, mas que tem duas vertentes. Tem a parte da leitura e depois a da música, que também existe leitura de histórias, mas neste caso são cantadas»
DD: O Tuttistudio também é relacionado com a música, mas numa vertente ligeiramente diferente.
MF: «É um complemento. porque eu tenho também a música na infância, e já abri uma turma para pequeninos, mas acrescentando outra parte minha, que é a parte da falta transversal, formação musical, e até à iniciação. Tem instrumentos, a voz, o piano, ou seja, ligar todo o meu mundo.
O estúdio já existe, na verdade, há 4 anos, só que não havia nome para ele. Tudo começou com uma aula online, em que eu acabei a minha licenciatura e gostava de pôr em prática o meu conhecimento, mas de uma forma diferente. Porquê? Porque eu comecei a perceber que também gostava de ensinar adultos. Não só crianças, mas também colocar o desafio a pessoas mais velhas.
E foi engraçado, coloquei-me numa plataforma, na Fixando, e ao longo do tempo foram-me surgindo alunos, sendo que a minha primeira aluna foi logo uma senhora de cerca de 40 anos. Foi muito interessante todo o percurso que fiz com ela.
Depois, entretanto, começaram-me a surgir alunas mais novas, também outras mais ou menos perto dos 40 anos. Agora recentemente uma já com quase 60 anos. Comecei a ganhar alguns alunos ao longo do tempo e, após a formação da minha primeira infância, eu disse: “Podia incluir isto e abrir algo meu, com as aulas online, mas também se calhar com aulas presenciais e porque não também aulas presenciais, por exemplo, na parte infantil”.
Foi aí que eu comecei a pensar no nome. Tutti Studio surgiu porque tutti vem de todos, é uma palavra italiana e nós, na música clássica, utilizamos muito a palavra tutti de orquestra. Na altura, o nome soou-me bem. Como é para todos, ficou “Tutti Studio: Música para todos”.
Depois começou aí o desenvolvimento da página, pedi à minha melhor amiga para me fazer o logotipo, e a partir daí comecei a colocar vídeos, posts educativos, do que eu também fui aprendendo. Para cativar as pessoas a perceberem o quão a música é importante no desenvolvimento, não só infantil, neste caso que tem sido um bocadinho mais o foco, mas também até o desenvolvimento dos adultos e, futuramente, abranger também para a terceira idade.
DD: Especificamente do Tutti Studio, como é que se encontra neste momento, ou seja, com que regularidade é que ainda tem pessoas interessadas em aprender consigo?
MF: «Neste momento, tenho os dias da semana todos preenchidos, em que vou dando as aulas online. Tenho também alunas na parte presencial e agora, recentemente, agora no início deste mês de setembro, surgiu a oportunidade de abrir uma turma para pequeninos entre os 2/3/4 anos. E depois também abri outra turma, também presencial, entre os 8/9/10, mais ou menos.
Claro que faltam-me aqui ainda algumas idades que também quero abranger, mas, para já, está a fluir. É superinteressante também perceber o feedback que depois a página tem, está a crescer aos poucos, porque neste momento estou num espaço presencial temporário.
Depois também tenho um trabalho à parte, que também tem a ver com a música infantil, em que estou em laboral. O estúdio está mais pós-laboral, mas consigo organizar bem as aulas.
DD: Falando da música e da cultura, pergunto-lhe sobre como é que olha para o mundo da cultura, para o panorama atual de se viver da cultura, tanto aqui como no país.
MF: «Em Arouca está a ser melhor e há mais ofertas, todos os projetos que as bandas fazem ao Município, o Município tem encarado isso bastante bem e eu fico super contente quando existe essa entrega também das duas partes. A nível cultural, cá em Arouca, temos tido bastantes oportunidades, mais a nível educativo, depois também a nível de projetos em relação às bandas. Não temos uma orquestra propriamente profissional, mas claro que as bandas têm feito também projetos muito bons também no ramo profissional. Até como, na celebração dos 200 anos da banda, por exemplo, a Banda de Arouca criou a Orquestra Sinfónica da Música Arouca, que foi um projeto super interessante e aí foi uma parte mais profissional que tivemos mais contato.
A nível nacional, está a ser passo a passo, temos também já algumas orquestras em movimento no país, claro que podíamos ter mais apoios e, sim, nesse aspeto é sempre o que assusta mais, porque, se formos a ver, a nível de orquestras profissionais, de quantas temos no país, não são assim muitas, e depois também os lugares (para músicos dentro das orquestras) não são assim muitos.
No caso da flauta, no máximo temos 2/3 flautas, depende muito, mas normalmente é 3 o limite por orquestra. Claro que os lugares, neste momento, estão todos preenchidos, mas, de resto, não é fácil, mas também uma coisa que eu acredito muito é que temos que abranger mais os horizontes.
Daí também a criação do meu projeto próprio, mas antes deste grande projeto que estou a criar, também criei, juntamente com uma amiga minha, um grupo de eventos, em que fazemos casamentos, batizados e bodas, e foi aí que surgiu o meu bichinho pelo mundo dos projetos.
Quando terminei a licenciatura, eu gostava de tocar, mas não tocar só nas bandas ou só numa orquestra, eu gostava de ir para outros sítios, outros projetos, o que surgir. E foi aí que nasceu a Aika – Música para eventos, e temos tido alguns eventos durante o ano, não só cá em Arouca, mas também já temos ido ao Porto, Aveiro, Oliveira de Azeméis, Castelo de Paiva.
E foi também de toda essa experiência que fui tendo com o crescimento de um projeto, porque uma coisa que aprendi foi que os projetos começam do zero, não crescem logo, não têm logo um pico. São coisas que vão acontecendo, que se vão construindo, e por exemplo, o caso do meu estúdio é também a prova disso.
Está ainda a crescer, mas já estou já há 4 anos, em que fui desenvolvendo mais pelas partes das aulas online, porque também não tinha, andava sempre de um lado para o outro, não dava para estar só num sítio. Acompanhar todo este processo passo a passo é muito importante».
DD: Já aqui falamos em vários locais em que a música a levou. Para lá da Suécia, a que outros países já foi?
MF: «Quando faço as minhas viagens, gosto sempre de ter algum momento musical. Enquanto flautista, intérprete de música, neste momento foi Espanha, Suécia e Países Baixos, mas a nível de enriquecimento musical, gostei muito quando fui outra vez aos Países Baixos, a Amsterdão, à Concertgebouw, ouvi a Orquestra de Stuttgart tocar a 3ª Sinfonia de Bruckner, e foi dos momentos mais especiais. As salas embelezam logo a sonoridade da orquestra. Mais recentemente, em Paris, fui ver a Orquestra de Câmara de Paris e também foi um momento bastante bonito, que recordo.
Claro que gostava de ir a mais sítios e ouvir orquestras e grupos mais pequenos, a nível de grupos de câmara, mas tenho estas duas vertentes».
DD: Apesar da sua tenra idade, já conquistou bastantes coisas, desenvolveu vários projetos. Que sonhos ainda tem no horizonte, na música e na vida?
MF: «Quero continuar, para já, nesta parte do ensino da música no meu projeto, ir crescendo, levar a música a vários sítios, nomeadamente instituições. Também dar aulas em academias de música, que é a minha formação de especialização. Continuar com os projetos a nível interpretativos, como o grupo de eventos, e também tenho a oportunidade de ir a vários pontos do país e tocar nas bandas, também em orquestras.
Fazer um bocadinho de tudo, mas realmente o meu foco é, sem dúvida, a área do ensino, neste momento».
Simão Duarte
Fotos cedidas pela entrevistada

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