Bruno Fonseca, capitão do CCR Vila Viçosa: «Jogar pela equipa da minha terra, pelas minhas raízes, dá-me muito orgulho e tento dar o máximo»

O futebol português está repleto de clubes que são verdadeiros casos de estudo e o Vila Viçosa é decididamente um deles. Falamos de um clube (tal como o seu presidente Hugo Amaral, homem da terra, apontou) oriundo de uma aldeia, situada na União de Freguesias de Canelas e Espiunca, com apenas «80, 90 pessoas, se calhar pouco mais, mas todas elas de 40 e muitos anos, 50 para cima. Crianças têm pouquíssimas…».

E, ainda assim, desde a temporada 2017/18, quando regressou ao futebol distrital, mantém-se ininterruptamente em prova, enquanto outras equipas (especialmente as B’s/sub-23), de clubes sediados em maiores focos populacionais, vão desistindo aos poucos.

O Discurso Directo foi ao Campo de Jogos de Vila Viçosa para falar com o capitão Bruno Fonseca e o presidente Hugo Amaral, que nos receberam num palco cujo sintético ainda não foi estreado oficialmente, dado o grande incêndio que afetou a região em 2025, existindo a esperança cada vez mais viva de que existirá a estreia oficial na próxima época.

Bruno Fonseca, 30 anos de idade, é auxiliar de ação direta num lar e é alvinegro de gema, digamos assim, dado que não só esteve sempre ligado ao clube desde o reatar do futebol sénior, como também é, a par com Diogo Monteiro, os 2 jogadores do plantel naturais de Vila Viçosa. A paixão pelo clube, pela terra e pelo desporto é enorme, mas fica sempre marcada por um enorme sacrifício pessoal.

Discurso Directo (DD): Tal como o Hugo Amaral (presidente), o Bruno também é daqui da terra, está ligado ao clube desde o reatar do futebol na 2017/18. Também é preciso muito esforço pessoal da sua parte para toda esta força de vontade de entrar em campo e ajudar o clube a manter-se firme?

Bruno Fonseca (BF): «Sem dúvida. Acho que de todos nós é preciso muito esforço, muito sacrifício e a mim a nível individual ainda mais porque, como eu disse, trabalho no lar, por turnos. Às vezes venho jogar direto, saio da noite às 8h00 da manhã, às 11h00/meio-dia tenho que arrancar para ir com a equipa. É preciso muito sacrifício e acho que toda a gente faz um pouco de sacrifício para manter isto em pé e para aqui para a aldeia, que é muito bom.»

DD: No campeonato distrital, a cada ano que passa, nós vamos vendo mais equipas, maior investimento, clubes com outra envergadura. O Vila este ano jogou, por exemplo, contra a Sanjoanense B, que mesmo sendo uma equipa secundária da principal, digamos assim, tem outra arcabouço, tem outros argumentos financeiros. O facto de, em todo este contexto que vocês se inserem, é mesmo, digamos assim, aqui em Vila Viçosa que a gente encontra, efetivamente, o futebol raiz de muito sacrifício, de muito suor, por toda esta causa e por toda esta terra, não é?

BF: «É verdade, é como você disse. É muito difícil para nós, um clube que não tem salários, atrair jogadores é muito difícil. Quem vem para aqui é por amor à camisola. Você deu um caso muito bom, a Sanjoanense B, por exemplo, fomos lá jogar, jogámos contra quase meia equipa de jogadores que jogam Liga 3 e nós, que não recebemos qualquer coisa. É preciso mesmo muito sacrifício e principalmente o Presidente, que faz um esforço enorme para nós termos todas as condições para dar o nosso melhor.»

DD: Foi também mais uma época onde o Bruno, a nível individual, foi uma das peças mais importantes da equipa, contribuindo com 6 golos. Como é o Bruno Fonseca dentro de campo, quais as principais características como jogador e capitão?

BF: «Dentro de campo tento sempre dar o máximo empenho, principalmente como capitão. Eu não sou aquele líder que esteja aos berros, mas eu acho que lidero muito pela dedicação, pelo empenho. E na parte de liderar a equipa, também tenho que agradecer muito aos outros capitães, temos 4, ao Alex, ao Vasco, ao Gonçalo, que me ajudam muito nesse aspeto, para a equipa se manter sempre unida.»

«Temos um grupo fantástico, o outro treinador (Jorge Cruz) saiu a meio da época, mas sempre adorou o nosso grupo, este treinador (Carlos Duarte) chegou e também disse que nunca encontrou um grupo igual e acho que é muito devido à amizade, nós criamos laços muito fortes e ajuda muito.»

«Como jogador, considero-me mais técnico, mas que dá tudo, dá tudo dentro de campo e, claro, tento contribuir com golos, com assistências e dar o máximo pelo clube. Principalmente por estar a jogar pela equipa da minha terra, pelas minhas raízes, dá-me muito orgulho e tento dar o máximo.»

DD: Ainda dentro disto, tem alguma posição/função preferida dentro de campo ou o mais importante é jogar, seja onde for?

BF: «Eu gosto de jogar mais como médio ofensivo, mas eu acho que já joguei de tudo o pouco, já joguei a ponta de lança, extremo, médio, médio defensivo. O importante, e é o que eu digo sempre a qualquer treinador, eu quero é jogar, onde o treinador precisar, eu jogo e vou dar sempre o máximo.»

DD: Mesmo se tiver de ser na baliza?

BF: «Se tiver de ser, também será»

DD: Falamos há pouco da Sanjoanense B, e o vosso jogo na casa deles acabou empatado a uma bola com uma assistência do guarda redes Gonçalo Sousa. Pegando nesse jogo, por exemplo, de todos os jogos desta época, qual foi para si o jogo mais emocionante ou mais importante de todos?

BF: «O mais emocionante se calhar foi mesmo esse, porque, lá está, um contexto muito difícil, onde nós entrámos muito bem nesse jogo. A 1ª parte não foi um massacre, mas entrámos mesmo muito bem, acho que nem eles estavam a contar. Depois tivemos uma expulsão, sofremos o golo e só com alma conseguimos chegar ao empate no último nosso jogo, fizemos um grande jogo.»

«Mas também há outros, o Mansores em casa perdemos também, mas no último minuto, fizemos um excelente jogo também. O São Martinho também empatámos 0-0, também foi um bom jogo, mas se tivesse que dizer um, o Sanjoanense B fora, sim.»

DD: Qual é a meta para a próxima época, tanto a nível individual como coletivo?

BF: «Coletivo, o mister já nos transmitiu que é almejar alto, os lugares lá de cima. Ele quer mesmo subir de divisão! Claro que sabemos, com tudo o que falámos há pouco, é um contexto muito difícil, atrair jogadores de qualidade, mais difícil ainda. Mas ele está ciente disso, está muito confiante e a trabalhar para isso. Ele passou uma mensagem confiante e acho que já toda a gente meteu isso na cabeça, nós queremos almejar alto para a próxima época.»

«A nível individual, eu não penso muito nisso, sinceramente, o que tiver que acontecer será, mas claro, se eu puder contribuir com o máximo de golos e assistências e o máximo de minutos lá dentro, é o que eu quero, claro, mas eu penso principalmente na equipa.»

DD: Estamos aqui no campo, certamente que para si e para toda a população daqui ainda está muito viva na memória, infelizmente, o incêndio do ano passado (2025). O que é que ainda fica na memória desses dias e o quão mais forte é o desejo de jogar aqui oficialmente?

BF: «Lembrar isso é bastante mau, foi muito assustador. Foram momentos muito difíceis, principalmente para o Hugo (Amaral, presidente). Mais uma vez, estava aqui o incêndio, muito mau mesmo, e ele aqui a dar o corpo. O que nós esperámos é que consigamos mesmo jogar cá esta época, porque nós já andavamos com a casa às costas, fomos para Alvarenga, para Nespereira. O nosso povo ter de ir para fora, tentam ir, mas não é a mesma coisa que jogar aqui. É uma situação difícil e nós esperámos mesmo conseguir jogar cá na próxima época.»

Simão Duarte

Fotos: Pedro Gonçalves e Tertulia Alvinegra

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