Marina Granja: “O 25 de Abril deu-nos liberdade, mas ainda há quem queira calar a voz das pessoas”

Aos 90 anos, a professora Marina Granja revisitou, em entrevista, o percurso que a levou da sala de aula à vida política local, numa conversa em que o 25 de Abril surge como ponto de viragem pessoal e coletiva. Em Cinfães, esse novo tempo acabaria por abrir também espaço à afirmação política de uma mulher que, anos mais tarde, viria a integrar o executivo municipal.

Mas antes do percurso autárquico que a tornaria uma das figuras femininas mais marcantes da vida pública local, houve a escola. Natural de Nagozelo do Douro, em São João da Pesqueira, chegou a Cinfães em 1954, ainda muito jovem, para lecionar em Fonte Coberta. Foi no ensino que se afirmou primeiro e foi também aí que começou a construir uma imagem pública de disciplina, entrega e intervenção. Mais tarde, já no pós-25 de Abril, acabaria por entrar na vida partidária, que apresenta como prolongamento natural dessa disponibilidade para a causa pública. Na entrevista, associa essa entrada ao arranque do PPD local e à admiração que tinha por Francisco Sá Carneiro.

Esse primeiro tempo em Cinfães é, de resto, evocado como um momento fundador. Marina Granja lembra que foi colocada numa terra que mal conhecia e sem saber bem ao certo o que iria encontrar. A primeira casa que a acolheu foi a Casa Pepino, em Souselo, episódio que recorda como o início de uma relação de proximidade que se prolongaria ao longo da vida com a família e com a freguesia. É também por isso que, apesar de ter nascido longe, fala de Souselo como a terra onde verdadeiramente se construiu.

Foi também ali, diz, que casou, criou família, consolidou amizades e se afirmou nos vários planos da vida pública e comunitária, numa recordação que revisitou de forma visivelmente emocionada ao longo da entrevista. “Em Souselo tornei-me uma mulher completa”, resume. A frase ajuda a perceber que o vínculo ao lugar nunca foi apenas residencial ou profissional: foi afetivo, cívico e profundamente identitário. E é dessa pertença, construída ao longo de décadas, que nasce também a ideia de que ser autarca significava, acima de tudo, servir a terra e as pessoas que a compõem.

Foi já a partir dessa vida construída em Souselo que Marina Granja viveu um dos momentos mais marcantes da história contemporânea portuguesa. Na conversa, recorda com nitidez o dia da revolução. Estava em São Pedro do Sul, numa ação de formação, quando começaram a circular notícias de que “houve uma revolução”. Sem a rapidez informativa dos dias de hoje, a incerteza foi dando lugar, pouco a pouco, à perceção de que o país estava a mudar. “Mudámos de patrão”, recorda ter dito então, numa tentativa de explicar, de forma simples, o que estava a acontecer. Apesar de admitir que algumas mudanças lhe custaram, nomeadamente a retirada dos crucifixos das salas de aula, diz sem hesitar que viveu esse tempo com entusiasmo e que continua a considerar o 25 de Abril um momento decisivo para o país. A reação não surge desligada do seu percurso: antes de chegar a Cinfães, estudou em colégios religiosos em Lamego, formação que ajuda a explicar o peso que atribuía à escola, à disciplina e a certos símbolos que, para a sua geração, faziam parte da normalidade da sala de aula.

É precisamente dessa experiência de Abril que faz nascer a sua leitura da política. Marina Granja sustenta que a democracia abriu a porta à participação e ao debate, mas lamenta que, passados mais de 50 anos, continue a haver quem procure condicionar opiniões e dividir pessoas por razões partidárias. “Se há eleições, e as eleições são para esclarecer as pessoas, porquê que nós havemos de calar a voz das pessoas?”, questiona. Na sua leitura, o problema não está na diferença de ideias, mas na incapacidade de conviver com elas. E deixa também um aviso que repete ao longo da entrevista: “não podemos confundir liberdade com libertinagem”. O 25 de Abril, defende, foi feito para dar liberdade de expressão, não para a substituir por medo, dependência ou silêncio.

Anos mais tarde, esse percurso político ganhou expressão autárquica nos anos 90, quando Marina Granja integrou o executivo municipal de Cinfães eleita pelo PSD, no mandato liderado por Manuel da Cerveira Pinto. A presença nesse executivo ajuda a enquadrar o papel que assumiu na vida política local e a influência que viria a ter em dossiers que ainda hoje identifica como marcantes no seu percurso público.

Foi no exercício dessas funções que esse cruzamento entre educação e política ganhou forma mais visível, e é aí que Marina Granja situa aquilo que considera ser o núcleo do seu percurso. Fala da autarquia como lugar de serviço e não de exibição, insistindo que, no seu tempo, o foco estava nas acessibilidades, na água, nos caminhos e nas respostas concretas às populações. A obra que mais a marca continua a ser a escola EB 2,3 de Souselo, que define como “a menina dos meus olhos”, mas o sentido político que procura transmitir vai além dessa realização: governar, diz, era olhar para as necessidades das pessoas e não apenas para o calendário festivo ou para a lógica partidária.

Mas essa lógica de serviço não se ficou pela escola nem pela câmara. Ao longo da entrevista, Marina Granja recorda também o trabalho como catequista, dimensão que ajuda a completar o retrato de uma mulher habituada a assumir responsabilidades na comunidade. Aí, como na docência e na política, diz ter procurado educar mais do que apenas transmitir fórmulas, insistindo no respeito, na disciplina e no sentido de responsabilidade. Também por essa via se percebe melhor a forma como lê o 25 de Abril: como conquista de liberdade, sim, mas nunca desligada de deveres, valores e compromisso coletivo.

Ao revisitar esse percurso de professora, autarca e mulher de comunidade, Marina Granja volta também ao tema que atravessa toda a entrevista: o papel das mulheres. Assume-se como exemplo de emancipação feminina numa época em que poucas chegavam a lugares de decisão e considera que a política portuguesa continua, em muitos aspetos, a carregar traços de machismo. Ainda assim, recusa falar em vaidade. Prefere a palavra “orgulho”, não como exaltação pessoal, mas como reconhecimento de um caminho feito com trabalho, frontalidade e convicção.

No final, mais do que uma memória nostálgica ou um balanço pessoal, a antiga autarca deixa um aviso político. Diz ver hoje um país formalmente livre, mas por vezes menos disponível para escutar, discutir e respeitar diferenças. E é por isso que continua a regressar ao 25 de Abril como referência essencial. Não apenas como data histórica, mas como exigência cívica. Na sua leitura, a liberdade conquistada em 1974 só faz sentido se continuar a ser praticada, não só no quotidiano, mas também – e talvez sobretudo – na política local.

Da esquerda para a direita: Marina Granja, Marcelo Rebelo de Sousa, Manuel Cerveira Pinto, José Cesário. Câmara Municipal de Cinfães

Pedro Gonçalves

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Discurso Direto
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