
Jorge Amorim é o Presidente da Mesa da Assembleia de Compartes do Baldio da Ameixieira, Currais e Cales, distingue-se pelo seu empenho e dinamismo na gestão destes terrenos comunitários .Engenheiro electrónico com uma vida profissional activa, dedica-se à gestão do Baldio em regime de voluntariado.
Os Baldios em Arouca representam quase 80% da Serra da Freita , acima dos 600 metros e são muito importantes a nível local porque promovem a silvicultura, o pastoreio, o turismo de natureza e a produção de energia, sendo fundamentais para o desenvolvimento rural sustentável. Neste caso há um grande empenho em recuperar a floresta autóctone.
Discurso Directo. Como vai ser a gestão do Baldios da Ameixieira , com ou sem protocolo com o ICNF( Instituto de Conservação da Natureza e Florestas ) ?
Jorge Amorim. Temos a gestão de compartes que é feita pelo o Conselho Directivo que executa as decisões dos compartes . Até 24 de janeiro de 2026 os baldios tiveram em co-gestão com o ICNF, entretanto os 50 anos que ficaram estabelecidos terminaram e está neste momento a ser considerado se vamos continuar ou não porque não concordamos com os termos e provavelmente não vamos subscrever, pelo menos para já . Atenção que o ICNF nunca nos deu dinheiro, mas contribuía com algum trabalho, sobretudo limpeza, mas partilhávamos com eles os nossos recursos, a venda de madeira , e o que nos propõem é exactamente o mesmo e nós não temos madeira para vender nos próximos anos porque ardeu tudo.
D.D. E com a Câmara de Arouca vão fazer co-gestão?
J.A. A C.M.A é um parceiro com que queremos ter uma boa relação, podemos trabalhar em conjunto até porque há interesses comuns , turísticos no nosso baldio e portanto estamos abertos a trabalhar nessa parceria.
D.D.E ainda estão a discutir internamente o caminho a seguir ?
J.A. Vamos ter eleições para os órgão directivos do Baldio que executam as decisões da assembleia de compartes , se voltarmos a ser eleitos o caminho a seguir será o mesmo e sim há questões protocoladas com a C.M.A que deverá ser um parceiro na partilha de recursos, por exemplo nós temos três reservatórios de água para o combate a incêndios que estão integrados no plano municipal de combate a incêndios florestais
D.D. São conhecidos pelo dinamismo na gestão do vosso Baldio , o que vos distingue neste momento ?
J.A. O que distingue neste momento o nosso Baldio é o comprometimento em gerar uma floresta autóctone nos nossos 200 hectares privilegiando árvores que sejam resilientes aos fogos e ao mesmo tempo uma floresta bonita onde se pode desenvolver a vida selvagem e que ao mesmo tempo esteja preparada para as alterações climáticas que já se sentem como por exemplo o sobreiro e carvalho, há outros baldios que também já o têm feito porque são mais adaptadas a secas , o nosso solo é pouco profundo e portanto não podemos ter arvores que necessitem de solo profundo e estamos a trabalhar nesse sentido. Já temos uma biodiversidade interessante, também já temos castanheiros e estamos a plantar espécies que sejam uma alternativa em termos de receitas à da própria madeira. Ou seja a madeira é a principal fonte de receita dos baldios e nós queremos criar outras, também vamos ter cogumelos em maior fartura e pastoreio.
D.D. E dinheiro para manter essa floresta?
J.A. Ora bem , esse é o ponto delicado de muitos baldios em Arouca , o nosso baldio em particular é pequeno e não tem muitos recursos financeiros , isto obriga-nos a ser criativos . Temos uma pequena parte dos rendimentos do parque eólico da Freita , 10 % e isto não permite sequer gerar receitas para a limpeza das faixas de gestão de combustível que seriam as mais adequadas . Todo o trabalho é feito em voluntariado pelos compartes e outros voluntários que querem participar , além disso estamos a tentar ligações com empresas que queiram apadrinhar partes do território e dessa forma poderão contribuir mas poderão também usufruir de um espaço para actividades , convívios com os trabalhadores, acções de responsabilidade social e team building . Com este apadrinhamento , claro que não é para vender nem alugar, as empresas passam a ter um área avençada onde podem contribuir para o meio ambiente mas nós teremos sempre a responsabilidade da gestão do Baldio , no fundo é uma forma das empresas nos ajudarem mas a com a vantagem de passarem a dispor de um terrenos para actividades , com isso podemos manter uma floresta saudável e que possa crescer.
D.D. É presidente há 4 anos e se for reeleito vai ficar mais 4 anos . Engenheiro electrónico no activo , como consegue dedicar tantas horas a esta actividade de gestão do Baldio da Ameixieira e Cales e Currais ?
Eu sempre tive paixão pela natureza, já fui coordenador em 2010 no município de Arouca num projecto “limpar Portugal” depois dos incêndios de 2016 que devastaram Arouca e o nosso Baldio em particular, foi preciso meter mãos à obra e comecei a trabalhar na recuperação da floresta ainda com outra direcção. Faço isto com muita dedicação , muita pesquisa e trabalho, aliás todos trabalham gratuitamente e são muitas horas, todas as semanas mas com muito gosto.
D.D. Em Arouca há outros baldios , colaboram uns com os outros ou cada um por si ?
J.A. Neste momento cada um por si, tenho o contacto de todos mas não há o hábito de comunicarmos e agirmos em conjunto . Formalmente não existe essa comunicação mas ninguém é contra ninguém até porque ninguém quer ter risco de incêndios e vamos falando mas não formalmente.
D.D. Quantos baldios há em Arouca ?
J.A. Penso que somos 16 ou 17 e representamos na Serra da Freita, acima dos 600 metros, 80% do território , quase todas as encostas e o planalto são Baldios e estamos integrados na Rede Natura 2000.
D.D. Na legislação ou na co-gestão há algo que deveria mudar?
J.A. Penso que devemos ser mais considerados nas decisões do terreno porque nós estamos cá todos os dias , somos activos muito importantes no terreno , por exemplo o ICNF deveria colaborar connosco com ou sem protocolos de co-gestão, eles são e têm recursos do Estado que deveriam estar `nossa disposição para a limpeza das florestas , quase que só aparecem para vir buscar madeira, portanto agora vão estar longe durante muitos anos porque não temos madeira para vender .

O envio da nossa newsletter é semanal.
Garantimos que nunca enviaremos publicidade ou spam para o seu e-mail.
Pode desinscrever-se a qualquer momento através do link de desinscrição na parte inferior de cada e-mail.