
O futebol português está repleto de clubes que são verdadeiros casos de estudo e o Vila Viçosa é decididamente um deles. Falamos de um clube (tal como o seu presidente Hugo Amaral, homem da terra, apontou) oriundo de uma aldeia, situada na União de Freguesias de Canelas e Espiunca, com apenas «80, 90 pessoas, se calhar pouco mais, mas todas elas de 40 e muitos anos, 50 para cima. Crianças têm pouquíssimas…».
E, ainda assim, desde a temporada 2017/18, quando regressou ao futebol distrital, mantém-se ininterruptamente em prova, enquanto outras equipas (especialmente as B’s/sub-23), de clubes sediados em maiores focos populacionais, vão desistindo aos poucos.
O Discurso Directo foi ao Campo de Jogos de Vila Viçosa para falar com o capitão Bruno Fonseca e o presidente Hugo Amaral, que nos receberam num palco cujo sintético ainda não foi estreado oficialmente, dado o grande incêndio que afetou a região em 2025, existindo a esperança cada vez mais viva de que existirá a estreia oficial na próxima época. Carlos Duarte (43 anos de idade) irá manter-se no cargo, ele que é professor de 1º ciclo em Vila Flor, Bragança, mas é natural de Nespereira, Cinfães. Precisamente por essa razão, não nos foi possível efetuar a entrevista presencialmente, mas sim por chamada.
Discurso Directo (DD): Não só pelo panorama do futebol distrital, que geralmente já é exigente a todos aqueles que trabalham diretamente com ele, mas também pela sua situação profissional, o facto de se encontrar em Vila Flor, Bragança, evidentemente que isto exigiu um enorme esforço da sua parte nestes meses de trabalho no Vila Viçosa….
Carlos Duarte (CD): «Sim, e na altura que a decisão foi tomada de eu aceitar o cargo, já sabia, tanto eu como o Hugo (Amaral, presidente), que íamos passar por esta fase de grande esforço. Ele mostrou-me disponibilidade para ajudar no que fosse preciso e só foi possível aceitar porque o intuito maior era preparar a próxima época. Eu espero no próximo ano estar a trabalhar mais perto, tudo indica que sim, e por isso é que aceitei passar estes meses que foram de grande esforço.»
DD: Olhando única e exclusivamente para os resultados, qual é o balanço feito da última época?
CD: «Nunca exigi aos jogadores, nem nunca me foi exigido resultados, e o intuito era mesmo conhecer os jogadores, ver os que poderia contar para a forma que eu gosto de jogar para a próxima época. É lógico que queríamos juntar a isso os resultados. Os resultados estiveram dentro das perspetivas, poderiam ter sido melhores em alguns jogos em que merecíamos e tivemos muitas oportunidades para ganhar, especialmente nos jogos em casa que terminaram empatados a zero, mas o objetivo principal, como já disse, era eu ter conhecimento dos jogadores, quem se adaptava à forma que eu gosto de treinar e que eu gosto de jogar, e nesse aspeto o balanço foi bastante positivo. Os resultados já sabíamos que, mesmo que fossem muito bons, a diferença pontual para os lugares de cima já era grande.»
DD: É certo que, de março em diante, depois de se estrear frente ao CRC Vale, existem apenas 2 triunfos, mas empataram em casa a zeros com o CCR São Martinho, perderam em casa contra a Sanjoanense B por 1-2. Estes resultados, que podemos considerar positivos, frente a equipas que lutaram pelos lugares cimeiros dão boas perspetivas para o que o plantel poderá fazer na próxima época?
CD: «Sim, realmente esses jogos mostraram-me que há ali uma base com qualidade suficiente que, se conseguirmos reforçar alguns lugares que são necessários, julgo que poderemos estar ao nível dessas equipas e lutar pelos lugares cimeiros, são esses os objetivos. São objetivos realistas.
Eu não considero tanto o jogo com o CCR São Martinho um jogo muito bem conseguido, foi um jogo em que taticamente estivemos muito bem, podíamos ter ganho em algumas transições, mas tivemos muito pouco a bola, muito menos do que gostaríamos de ter.
A Sanjoanense B, que eu considero uma excelente equipa, fizemos um jogo equilibrado e podia ter dado para qualquer um dos lados. O primeiro jogo com o CRC Vale, eu ainda nem sabia sequer os nomes dos jogadores todos, mas a partir daí fizemos algumas boas exibições e é isso que me deixa com esperançoso que, caso consigamos uns 2 ou 3 reforços, as coisas melhorem na próxima época.»
DD: Destes últimos 8 jogos da época, houve alguma performance que ficou especialmente na memória?
CD: «O jogo com a Sanjoanense B julgo que foi o que estivemos melhor em diferentes aspetos do jogo, porque foi um jogo até bastante interessante a nível tático, em que as duas equipas tentaram sempre contrariar o que a outra nos estava a deixar conseguir fazer e foi um jogo que, enquanto treinador, me deu bastante gozo. É lógico que há outros que tivemos muito melhor em termos de espetáculo e, apesar de ter ficado 0-0, o jogo em casa com o União da Mata, em que ficamos com 10 jogadores a partir dos 15 minutos de jogo, em que conseguimos mandar 4 bolas ao posto e dominar o jogo praticamente todo, só por mera infelicidade é que não conseguimos.»
DD: Em 8 jogos, não é fácil criar uma ideia de jogo de raiz, mas, taticamente, como é que foi a ideia de jogo do Vila Viçosa nestes 8 jogos e com que esquemas táticos mais vezes se posicionaram dentro de campo?
CD: «Quando entrei, mantive a estrutura que eles tinham vindo a jogar, mesmo nas bolas paradas mantivemos o que estava, até para os jogadores se sentirem mais à vontade na transição e visto que não havia nenhuma urgência em reverter resultados, optámos por aí, indo sempre treinando a forma de jogar com a mesma grada. No 1º jogo em que utilizamos essa estratégia foi curiosamente a 1ª vitória fora desde que chegámos e com uma margem que acabou por ser reduzida, mas que não espelhou o que se passou em campo porque podia ter sido uma vitória muito mais dilatada. E a partir daí, mesmo em treinos e em jogos, utilizámos o sistema que eu jogo mais vezes, que é o 3x4x3 e é essa base que vamos preparar a próxima época.»
DD: Na perspetiva de um treinador, como é trabalhar no Vila Viçosa? O Vila treinava em casa, mas, pela questão dos incêndios que infelizmente assolaram a nossa região, o Vila andou sempre com a casa às costas, jogaram em Nespereira, na sua casa (Carlos Duarte é de Nespereira).
CD: «É uma boa questão, porque eu quando estive no Nespereira passámos por algo idêntico, porque o campo estava em obras e tínhamos que jogar em Souselo, ou seja, já tinha passado por isso. Tanto num clube como no outro, essas condicionantes notam-se pouco, porque (o Vila Viçosa) é um clube com pouca gente, poucos diretores, mas são diretores que não deixam faltar nada, e fazem com que isso nem se note.»
«É sempre um contratempo não estar a jogar em casa, como é lógico, mas a passagem de Alvarenga para Nespereira, mesmo em termos do número de adeptos que estavam presentes nos jogos em casa, foi um upgrade grande, porque tivemos sempre mais adeptos, e, como lhe digo, a forma como aquelas pessoas de Vila Viçosa trabalham, faz com que os jogadores nunca sintam, e mesmo o treinador, que existem esses contratempos. Por isso, é um clube muito bom de se trabalhar.»
DD: Como é que a equipa técnica está a encarar a próxima temporada?
CD: «Nós começamos logo a prepará-la a partir do momento que eu decidi que continuávamos, e por isso está-se um trabalho contínuo. Não é fácil construir plantéis no futebol distrital, que nesta época é muito competitivo em termos de assédio aos melhores jogadores, e julgo que as coisas estão-nos a correr bem, já conseguimos segurar a base que eu queria que ficasse no plantel, e estamos a tentar compor as posições que eu acho que nos faziam falta, e mesmo nisso as coisas estão bem adiantadas.»
«Estou satisfeito com o rumo que as coisas estão a levar, apesar de ainda estarmos a entrar no mês de junho, e no futebol distrital a qualquer momento podem acontecer surpresas que a gente não espera, porque os jogadores não são profissionais e algumas vezes há outros aspetos que falam mais alto, mas, de qualquer forma, está a correr bem e estamo-nos a preparar bem.»
DD: A preparação para a próxima época, estando a ser feita desde a sua chegada em Março, fará com que a ideia da equipa técnica e todo o projeto esteja ainda mais robusto, dando mais força e maiores possibilidades do Vila lutar pela subida?
CD: «É esse o objetivo, não vamos estar a esconder. Nós sabemos que, por mais que a Direção, por mais que o trabalho do treinador seja bom, quem joga e quem decide as coisas são os jogadores. E, neste momento, com os jogadores que tinha na época passada, eu tinha a certeza que, se conseguíssemos fechar duas ou três posições com qualidade, que estaríamos nessa luta. Com o plantel que tínhamos, dava para competir, mas acho que era curto para atacar os primeiros lugares, como a tabela classificativa assim o indicou. Por isso, vamos estar sempre dependentes dos reforços que conseguirmos.»
Simão Duarte
Fotos: Pedro Gonçalves e Tertulia Alvinegra

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