
O Discurso Directo esteve à conversa com a jovem arouquense Mariana Fernandes, a propósito das suas vivências no mundo da música. Apesar da tenra idade (24 anos de idade) e de ainda ter toda uma vida pela frente, está desde pequena no universo musical. Falamos de todo esse percurso, especialmente os acontecimentos mais recentes, onde fundou o projeto «TuttiStudio» e idealizou o «Dó-Ré-Mi».
Esta é a 1ª parte da entrevista completa.
Discurso Directo (DD): Como é que se deu a sua entrada no mundo da música e o que a levou a entrar nele?
Mariana Fernandes (MF): «Comecei quando ainda estava na primária, primeiramente a aprender piano com a professora Florinda, daqui de Arouca. Depois surgiu a oportunidade de fazer o dia aberto numa banda filarmónica, na altura a Banda Musical de Figueiredo, onde depois fiz a prova e, como já tinha estado a assistir às bandas nas festas da catequese, decidi que o meu instrumento tinha que ser a flauta transversal, porque era aquele instrumento que eu olhava e dizia logo “É este o instrumento que eu gostava de um dia aprender”»
«Depois, entretanto, foi-se dando o meu percurso, decidi fazer provas para a Academia da Arouca, onde estive lá até ao meu quinto grau, correspondendo ao 9º ano de escolaridade e aí foi, digamos, quando as coisas começaram a ficar um bocadinho mais sérias e eu decidi ir para a Academia de Música de Castelo de Paiva, em que estudei lá há três anos, fiz o meu ensino secundário.»
«Com a mudança de academia, também mudei de banda, fui para a Banda Musical de Arouca, que estou até hoje. (Depois de concluído o ensino secundário) tive de decidir se realmente queria ir mesmo para o mundo profissional ou ir para outra área. Neste caso, decidi seguir o ensino articulado e fiz provas para o ensino superior, tendo feito a minha licenciatura em Música Flauta Transversal na Escola Superior de Música e Espetáculo do Porto e depois fiz o meu mestrado em Ensino de Música na Universidade de Aveiro, em que terminei agora em dezembro de 2025.»
«Durante o mestrado surgiu, assim sem eu estar a contar, uma possível formação na música na primeira infância, em que eu, antes desta formação, comecei a dar aulas na Escola de Música da Banda Musical de Arouca, em Educação Musical, e senti a necessidade de ter uma formação extra para estas idades tão pequenas.»
«Durante o mestrado, decidi então fazer também a formação que foi pós-laboral, durante três meses, e tendo terminado e tendo olhado para isso como: “Poderá abrir-me uma porta? Para onde é que eu lhe posso pegar e para onde é que posso desenvolver isto?”»
DD: Está ligada à música praticamente desde que nasceu.
MF: «Sim, desde os meus 8 anos».
DD: Já nessa tenra idade era um mundo no qual imaginava entrar? Porque, geralmente, nós, quando somos jovens, pensamos em mil e um profissões ao mesmo tempo.
MF: «Sim, eu quando era mesmo novinha, quando nós começamos a ter um bocadinho mais de consciência infantil, digamos assim, a partir dos meus 5/6 anos, eu gostava muito de dançar. Ouvia música e adorava dançar, criar coreografias.
E, depois, nas festas da catequese, quando entrei para a catequese, a banda estava sempre presente, pronto, como nós vemos aqui nas festas religiosas. E sempre gostei de ouvir a banda. Era daquelas crianças que ia para a escadaria, para o palco, e ficava lá só a ouvir a banda.
E, a partir daí, acho que foi quando realmente começou a criar um bichinho, mas eu não sabia como desenvolvê-lo na altura. Comecei a entrar para o mundo da música mais através dos estudos, comecei pela banda. Foi aí que eu realmente pensei: “Por que não ir realmente para uma escola de música oficial e desenvolver mais estudos?” E depois as coisas foram-se desenrolando».
DD: Ainda era muito jovem na altura e geralmente, quando se é jovem, às vezes faz-se coisas e não sabe bem explica-las. Achas que hoje em dia, olhando para trás, consegues explicar o porquê desse fascínio muito específico com essas atuações das bandas? Porque elas geralmente são mais ligadas à música clássica e até à música mais popular e não tanto às músicas que estamos habituados a ouvir em jovens.
MF: «Acima de tudo, eu comecei a ir um bocado pelo companheirismo dos meus amigos. Acho que é uma das razões que nos levam a entrar no grupo. Duas amigas minhas convenceram-me. E eu fui naquela de “Toco piano, mas porque não experimentar outros instrumentos?”.
Mas quando me perguntaram o que gostava de tocar, disse logo a flauta. E depois quando realmente entrei para as bandas filarmónicas, que o meu percurso começou em 2012, eu estava prestes a fazer 10 anos de idade, foi nessa altura que eu percebi: “Agora vou fazer realmente fazer parte”. É quando começam os ensaios, porque nós não entramos logo para as festas, ainda ficámos ali uns meses ou um ano até a ter ensaios com a banda.
O meu percurso começou com a banda juvenil, durante cerca de um ano. E depois, quando a professora percebe que já estamos numa fase avançada, diz-nos que vamos começar a ir aos ensaios da banda grande. E isso é logo uma motivação!
E ainda hoje eu digo isso aos meus alunos, na Escola de Música da Banda, que é: “Estamos agora a ter as aulas individuais, depois temos a opção da banda infantil, depois a juvenil e só depois então a banda grande”. E eles às vezes chegam ali e querem logo dar o salto grande. E eu já lhes disse que não, tem tudo a ver com processo, passo a passo.
Agora, quando olho para trás, percebo o quanto isso foi importante. Porque a dificuldade das obras da banda juvenil, para depois as obras da banda grande, da banda sénior, digamos, é quando realmente nós percebemos que foi bom todo o trabalho.
Porque as bandas ajudam-nos muito a desenvolver a parte da leitura musical, o tocar em grupo, que é muito importante, mais em termos técnicos, por causa da afinação, e também o tocar em conjunto. Também é bastante importante termos esta cooperação entre todos. Todo o trabalho que acabei por desenvolver também nas bandas foi crucial para a minha formação».
DD: Ainda sobre esta questão do companheirismo, e como está na Banda Musical de Arouca, também é importante contactar de perto com pessoas como, por exemplo, o sr. Correia e o sr. Garrido, que têm outras vivências de vida e também da vida musical?
MF: «Ao mudar de banda, decidi então mudar para a de Arouca e uma das pessoas que me inspirou a vir foi o sr. Garrido. Ele sempre foi uma pessoa que vinha até comigo nos estágios da orquestra. Foi por aí que eu também comecei a ganhar essa ligação mais a sério com a música, e o sr. Garrido foi uma das pessoas que sempre falou comigo sobre o mundo da música e essa paixão que ele tem.
Depois, entretanto, ao entrar e conhecer, por exemplo, o sr. Correia, o sr. Valdemar, o sr. Tides, todos esses elementos que ainda estão presentes.
Quando estamos a falar, eles aconselham-nos. Por exemplo, quando chegou uma altura em que eu comecei a fazer os solos, a expor-me mais, eles vinham até comigo e davam-me os parabéns ou diziam-me que gostaram muito do som ou da forma como interpretei.
A palavra mais indicada é mesmo inspiração, porque eles já estão ali há décadas e para quem ainda está agora a fazer os seus 10 anos de bandas, olharmos para pessoas que já são avós e que ainda estão presentes na banda, é muito inspirador.
E mesmo quando temos momentos mais desafiantes, ou seja, obras com elevada exigência, adoro a forma como eles se entregam e como eles estudam e fazem para com que o trabalho esteja feito».
DD: Como é que se apresentaria?
MF: «Sou natural de Arouca, tenho 24 anos, sou uma pessoa muito curiosa, muito dedicada a tudo o que me proponho. Gosto muito de desafios e também da criação de coisas novas ou de as fazer melhor. Procuro também sempre muito saber mais, ir atrás de mais conhecimento e de estar informada sobre as coisas.
Sou comunicadora, gosto muito de comunicar com amigos, com a família, falar com as pessoas e principalmente pessoas que já têm história e perceber também o outro lado da vida, que nós não temos tanto contacto, com avós e com pessoas mais velhas da família».
DD: Numa interligação entre o lado pessoal e profissional, que recomendações musicais pretende dar aos nossos leitores?
MF: «A nível clássico, é sobretudo a música pura, Bach, Mozart, Beethoven. Eu estudei muito Mozart por causa da falta ser um instrumento que Mozart compôs tanto, fiz quintetos, concertos, andantes, rondós. Mas realmente Mozart, Bach e Tchaikovsky são os meus compositores a nível prediletos da música clássica.
Depois, mais a nível mais atual, sou uma pessoa que gosto muito de vários estilos, desde o jazz, soul, até à música portuguesa. Sou muito mais aliada à música portuguesa do que à música estrangeira. Gosto muito da Áurea, é uma das minhas cantoras favoritas já há muito tempo, depois bandas como os Expensive Soul. Não posso deixar de falar de João Pedro Pais e depois, no fado, a Marisa, é sem dúvida também uma das cantoras que mais gosto.
Lá está, falando também a nível de cantores, a Banda de Arouca tem a parte de Sonhos da Praça, que é muito interessante de nós termos contacto com os cantores. Por exemplo, o Miguel Gameiro, fui recentemente ouvir os Pólo Norte, e ter feito no mesmo ano os Sons da Praça com ele.
DD: Nesta edição dos Sons da Praça, na reta final do concerto, esteve em palco, com o microfone na mão, a cantar o hino de Arouca com o Miguel Gameiro e o arouquense Simão Oliveira. A vertente do canto também é algo que explora com alguma regularidade em palco?
MF: «Essa é outra parte da minha vida, Ddesde pequenina que canto, na Academia fui cantando em coros e tive a oportunidade de entrar num coro muito bom na Academia de Música de Castelo Paiva, que fazia competições internacionais. Foi a partir daí, do meu 10º ano, que eu comecei, a nível coral, a fluir um bocadinho mais e a ter esta paixão também pelo mundo da voz.
Tive a oportunidade de fazer concursos cá em Portugal com o coro em Aveiro, também fizemos ali na Póvoa de Varzim e tive o grande desafio que fomos ir à Suécia, a Gotemburgo, em que ganhamos duas medalhas de prata e uma de ouro. E todo o caminho até aí, a nível coral, desenvolvi-me muito.
Ainda hoje, estava a rever uma aparição no vídeo por causa da morte de Jorge Palma, uma das primeiras músicas que eu cantei no coro foi “A Gente Vai Continuar”. E aquela música na altura, em 2017, marcou-me muito pela letra e pelo arranjo que nós tínhamos da música. (Ter visto esse vídeo) reativou-me as memórias quanto ao mundo do coro.
Entretanto, quando saí da Academia, tive a oportunidade de fazer parte de um projeto do Pro Vocal Ensemble, que ainda hoje continua. E nós, que ainda fizemos competições, concursos a nível mais nacional.
E então, desde aí que sim, que aprimorei bastante a parte do canto. E quando entrei para o mundo mais de educação infantil, mais para os pequeninos, a parte vocal, o instrumento, é mesmo muito importante para a parte da exploração vocal com a criança, para também eles desenvolverem a linguagem.
Ou seja, com toda a experiência, neste caso mais a sério do ano 2017/18, comecei a ganhar também a paixão pelo canto. Quando a Cuca Roseta veio cá em 2023, eu também cantei com ela, foi a primeira vez, eu nunca tinha pegado no microfone. Cantei com ela, que também é uma das minhas cantoras favoritas.
Nos Sons da Praça, os cantores pedem sempre uma ajuda extra, a banda já sabe que eu nesse aspeto já estou um bocadinho mais à vontade. E claro, o Simão foi um grande apoio, fui eu que puxei por ele, porque ele queria que eu fosse sozinha.
É uma experiência sempre muito boa, cantar o hino da nossa terra, até porque sei-o de cor e salteado. E depois, sempre que o canto, é um momento muito especial e que me arrepio sempre. É um momento bastante bonito».
DD: Já que também estamos a falar da voz, levanto o pormenor que é os cuidados a ter, especialmente na música, há mais cuidados. No seu caso em específico, que tipo de cuidados é que tem por causa de estar no mundo da música que, se calhar, se não estivesse, não teria com tanta firmeza, digamos assim.
MF: «Uma das coisas mais importantes é sem dúvida o exercício físico. Eu ganhei também outra paixão pelo mundo do pilates, que é uma modalidade muito interessante para explorarmos a consciência corporal e a respiração também ao mesmo tempo, fora outras coisas.
Até fazendo aqui um parêntesis, eu desenvolvi a minha prova de aptidão artística no 12º ano precisamente sobre o método pilates na postura de um flautista, porque eu já percebia que, quando comecei a praticar o pilates no meu 10º ano mais ou menos, foi quando percebi a importância que tem nós desenvolvermos o nosso corpo e de o prepararmos para possíveis lesões.
Pilates, reforço muscular, como o ginásio, ou até treinos, por exemplo, em casa, isso é sem dúvida muito importante. E depois, claro, a parte da alimentação, a qualidade do sono também, para recuperarmos bem, também dou muito valor a isso. Mas sem dúvida que o exercício físico é das coisas mais importantes».
DD: Até porque quando uma pessoa chega a palco, não basta ter a música bem estudada, tem que ter toda essa preparação antes de lá chegar, não é?
MF: «Sim, toda a parte do reforço muscular e, claro, a preparatória do estudo em casa. Mas lá está, por exemplo, antes do momento fazemos um aquecimento corporal que, por acaso, nas minhas aulas individuais de flauta eu já faço isso, porque sinto que é mesmo importante que o aluno tenha essa consciência corporal e depois também que aliviemos certas tensões que estão acumuladas do dia-a-dia.
Quando pratico pilates, chego ao final da aula e, sim, sinto-me muito mais aliviada. E tambémo acompanhamento de um fisioterapeuta, osteopata, mas sem dúvida fisioterapeuta. Eu faço sempre por ir de 4 em 4 meses, dependendo também de como sinto. Se senti que já estou com muita acumulação de tensão, sim, vou fazer um check-up.
DD: Acerca da preparação antes dos espetáculos, as pessoas já têm consciência de quando um artista chega à palco não é simplesmente um rasgo de inspiração, há muita preparação antes disso. Para facilitar, pegando, por exemplo nos Sons da Praça com o Miguel Gameiro, quanto tempo de preparação mais ou menos é que existiu para este espetáculo?
MF: «Primeiro, depende sempre da chegada das partituras, por parte do artista, mas, normalmente, um mês e meio. Para este tipo de concerto, que é um concerto mais pequeno, apesar de que parece muito grande, mas as obras são obras mais curtas (em duração), um mês e meio basta para a banda se adaptar às obras e ficar ambientada.
Quando estamos a falar já de um concerto mais a nível clássico, em que tem outro tipo de exigência, as músicas são mais longas, às vezes de 15/20 minutos ou até de meia hora, aí já estamos a falar de 3/4 meses, dependendo, mais uma vez, do calendário da banda.
Mas sim, a nível de concertos como o dos Sons da Praça, com os artistas, um mês e meio. Nós até às vezes dois meses antes já começamos a ter as partituras, mas lá está, nunca chegam todas ao mesmo tempo. Vão chegando, vamos lendo, e depois, nas últimas semanas, é quando nos focamos um bocado mais para aprimorarmos».

Simão Duarte
Fotos cedidas pela entrevistada

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