
A Sala de Artes da Junta de Freguesia de Urrô é um espaço aberto a todos os interessados em expressarem-se através dos mais diversos estilos de dança, do ballet ao contemporâneo, passando ainda pelas danças urbanas (Hip-Hop), Funk Dances, KPOP e até High Heels (Dança de Saltos Altos). Tudo isto e muito mais foi o consolidar de um sonho criado por três jovens entusiasmantes: Francisca Teixeira, Cláudio Gil e Matilde Pereira, fundadores e professores da LIT – Light in Transition.
O Discurso Directo foi recebido na Sala de Artes já referida para uma conversa acerca deste projeto que se encontra a dar os seus primeiros passos, tendo sido recebido por Francisca Teixeira e Cláudio Gil (infelizmente, devido à conjugação de agendas de todas as partes, não foi possível contar com a presença de Matilde Pereira). Matilde Pereira também nos falou das motivações de fazer surgir a LIT, apontando que o desejo sempre foi «construir uma escola de dança do zero, que seja um espaço diferenciado a nível da dança, onde a técnica se funde com a paixão e alegria, e também o exercício físico como ponto fundamental para um estilo de vida saudável».
Discurso Directo (DD): Antes de mais, obrigado por nos receberem. Começava por vos pedir que se apresentassem.
Francisca Teixeira (FT): «Chamo-me Francisca, sou daqui de Arouca, tenho 24 anos e a dança sempre fez parte da minha vida. Conheci o Gilinho, trato-o por Gilinho, na academia de dança de Vale de Cambra. E desde então que foi sempre o projeto de que falamos, numa amizade baseada em sonhos para o futuro.»
Cláudio Gil (CG): «Eu sou o Cláudio Gil e sou do Vale de Cambra. Nós conhecemo-nos, falando um bocadinho do que ela falou, nós conhecemos, acho que já tínhamos mais ou menos 14, 15 anos. Eu tenho 26 anos, a dança faz parte também da minha vida desde que eu sou pequenino. Comecei a dançar em Vale de Cambra, depois andei um bocadinho em várias cidades, até que os meus estudos levaram-me para Lisboa estudar dança. Falando novalmente dos nossos projetos, numa conversa casual, nós decidimos que estava na altura de tentar, pelo menos. E a tentativa levou-nos aqui.»
FT: «Eu lembro perfeitamente, eu era muito novinha e tu para mim eras um ídolo da academia de dança onde nós andávamos e ele, num espetáculo da Disney, em São João da Madeira, chegou à minha beira, não nos conhecíamos de lado nenhum, eu era recém-bailarina na academia e ele disse-me palavras bonitas, do género de “Olha, eu gostei de te ver dançar, tens jeito, vamos ser amigos!”»
CG: «Eu não digo isto a ninguém, atenção, não é o ter dito a ela, eu não elogio as pessoas com facilidade, especialmente na dança, porque depois as pessoas ficam com uma atitude diferente e acham que já tiveram um elogio e já chega. Eu já dava aulas naquela altura.»
FT: «Foi muito importante para mim, porque eu estava noutra academia de dança em que os corpos eram demasiado valorizados, coisa que eu acho que na dança não deve existir, ou seja, não deve existir diferenciação de pessoas só porque tu tens um corpo diferente do que é o estereótipo de um bailarino. E, na altura, eu sofri bastante bullying, por ser um bocadinho mais musculada, não ser tão feminina. Estava a fazer ballet clássico, hoje em dia eu não consigo sequer ver um espetáculo de ballet e até começo a chorar e ficar bem triste, porque o meu sonho era ser bailarina de ballet clássico.»
«E foi muito mau, essa academia é das coisas piores que pode acontecer numa academia, lá está, este género de bullying, até da parte dos professores, coisa que não queremos sequer pensar nunca.»
CG: «Só que isso, infelizmente, nas artes, acontece bastante.»
FT: «Exato, e chegar a uma academia em que fui recebida de braços abertos pelo melhor aluno da academia, foi esperança, foi ter fé que ainda era possível fazer alguma coisa numa paixão que eu tenho desde sempre.»
CG: «Eu acho que os meus valores e os da Francisca são muito parecidos, e eu acho que a arte é muito abrangente, e se não dá em ballet clássico, vai dar n outra coisa, porque a dança é tão grande, há tantos estilos, tanta coisa que uma pessoa pode explorar. Claro que um bailarino quer-se versátil, quanto mais nós conseguimos fazer, mais estilos, mais coisas, ótimo. Mas se não dá um certo ponto específico, pronto. Eu não sei danças de salão, por exemplo, eu não faço nada disso e está tudo bem.»
DD: São formados em dança?
FT: «O Gilinho tem a formação em ballet clássico contemporâneo, que é a base mais da licenciatura que existe em Portugal, que existe pouquíssima oferta a nível de formação de dança em Portugal. Eu fugi à formação académica de dança, porque sentia que não era capaz, mas procurei sempre fazer formações, com bailarinos mais prestigiados em Portugal, para continuar o meu treino.»
DD: Ainda sobre isso, e não querendo de todo ser incómodo ao perguntar sobre isto especificamente, mas, para encerrar o assunto, perguntava se o facto de se terem conhecido fez com que pudesses (Francisca Teixeira) despertar novamente para este mundo da dança, que, se calhar, terias ficado um pouco desacreditada pela infeliz situação que vivenciaste?
FT: «Comecei a fazer dança nas Complexo Desportivo Municipal, ballet, e depois comecei a crescer na academia que vinha cá dar as aulas de ballet. Foi essa academia onde existiu essa infelicidade, que me deu o meu percurso da dança, e parei um ano, mais ou menos. Só que lá está, um bailarino, quando tem a paixão, um ano parece uma eternidade, até encontrar de novo uma academia que tivesse os valores que eu procurava e também o nível que eu procurava.»
«E surgiu em conversa com a mãe da Matilde, que as nossas mães são amigas, e a Matilde também na altura andava na academia que o Gilinho estava, e foi aí que nós nos conhecemos. E que eu voltei a acreditar que é possível realmente»
CG: «Eu tenho a parte académica porque eu comecei a dar aulas mais de contemporâneo, era mais a minha base, e o ballet e comercial também, só que eu dava aulas de contemporâneo já desde os meus 14 anos. E eu fui para o (ensino) secundário, para a JOBRA, em Albergaria-a-Velha, depois fui para a Escola Superior de Dança do Instituto Politécnico de Lisboa, fiz a minha licenciatura e comecei a fazer um mestrado em Criação Coreográfica.»
«Porque o caminho que eu queria, apesar de tudo, sempre foi muito mais a dança contemporânea. E a dança contemporânea, essa sim, precisa de validação académica. Agora, tudo o que é urbanas, comercial, nós não temos uma licenciatura no país que nos dê o necessário para isso, porque a minha licenciatura é toda baseada em contemporâneo e em clássico. E há só mais uma universidade que faz outra licenciatura em dança, que é a FMH, que é outra universidade em Lisboa.»
FT: «É tudo em Lisboa»
CG: «Sim, e essa aí é muito mais teórica do que prática, ou seja, ensina mais a dança pela teoria, como é que o corpo se mexe quando se está a dançar. É muito mais direcionada para outras categorias da dança. Quem quer ser criativo, vai para onde eu estive. Quem quer aprender aquelas coisas específicas, da parte teórica do corpo, etc., vai mais para a outra.»
FT: «Só para contextualizar, o Gilinho e a Matilde estão mais na parte do ballet clássico e contemporâneo, e (o Gilinho) também está a meio termo nas urbanas, porque dá funk.»
«Eu estou mais nas partes urbanas, ou seja, hip-hop e tudo o que envolva os estilos do Bronx.»
CG: «Isso da formação é mais informal, na verdade.»
FT: «Sim, as danças até começaram de uma forma mais informal, ainda estão a crescer. Por exemplo, High Heels, dança em sapatos altos, é uma novidade em Portugal. Ainda não existe propriamente formadores em Portugal para dar esse tipo de dança. Eu estou a tirar uma formação neste momento online com o Ianis Marshall, porque não existe em Portugal.»
DD: Mesmo até depois de vocês fundarem esta academia, tudo quanto são processos da vossa formação, aprendizagem, para poderem transmitir a quem cá vem, são forçados a procurar fora? Não há formadores no país?
FT: «Existem formadores (no país), mas não de todas as modalidades que damos aqui. Nós temos alguma oferta. Por exemplo, a Blaya é uma das formadoras em Portugal em afro. De resto, temos o Abreu, de house. São poucas pessoas que dão formação em Portugal.»
DD: Mas as danças americanas que referiram, os formadores são todos de fora?
FT: «Sim, até porque nós queremos muito, por exemplo, fazer Erasmus de dança.»
DD: O que vos motivou a criarem a LIT e quando é que perceberam que o sonho podia efetivamente concretizar-se?
FT: «Há anos, há muito tempo!»
CG: «Quando a Francisca veio para a minha banda câmara, nós começámos logo a falar de vários projetos. Nós tínhamos muitos juntos, tínhamos e temos vários objetivos e sonhos muito grandes. E um deles sempre foi abrir alguma coisa em Arouca. Porquê? Porque, lá estava, não havia oferta. Ela teve que ir para Vale de Cambra. Ou seja, ela veio por necessidade. E nós percebemos que essa necessidade também se encaixava num dos nossos objetivos, que seria abrir a escola cá em Arouca.»
DD: O sonho foi exigente, complicado de se materializar?
FT: «Foi complicado porque nós seguimos caminhos de formação longe um do outro. Ele foi para Lisboa, eu fui para a Maia, e priorizamos a nossa licenciatura, nas áreas que seguimos, ambas ligadas à arte. E só depois é que voltei para Arouca. Em novembro do ano passado (2025), começamos a pensar a sério, à procura de espaço e de pessoas para nos ajudar. Tivemos a ajuda do sr. Geraldo (presidente da Junta de Freguesia de Urrô), que nos proporcionou este espaço incrível, com muito boas condições para dança.»
«Nós optamos sempre por turmas pequenas, eu, até 5, 7 alunos, mais do que isso é complicado».
CG: «Mais do que isso, só em salas grandes e que o trabalho também permita isso. Se for um trabalho de criação, quantos mais, melhor, porque aí não estamos a acompanhar a evolução, estamos a querer é criar alguma coisa, uma obra. Agora, quando é aulas regulares de técnica que nós queremos ensinar alunos, aí, quantos menos, melhor. Grupinhos de 5,6,7 é o ideal.»
DD: Como foi a adesão do público à vossa semana aberta no início de maio e também quais foram as vossas sensações e emoções de estarem a materializar a 1ª semana oficial da LIT para com o público?
FT: «Muito melhor do que eu pensava. Ele deu jazz, funk, kpop e contemporâneo. Os mais novinhos, ou seja, dos 8 aos 14 anos, não tivemos muita adesão porque, segundo o que os pais nos disseram, já estavam noutras atividades e ficou a ideia e, pelo que percebemos, em setembro já vêm experimentar.»
CG: «O contemporâneo foi ótimo, a turma que está atualmente é praticamente a mesma da semana aberta.»
FT: «Eu sinto que existiu algum receio e eu até fiz um vídeo na altura a explicar que nós aqui não temos níveis. As pessoas achavam que tinham que vir para aqui com algumas bases de dança já, fizeram várias vezes essa pergunta. E eu na altura disse que não, que estamos a começar devagar, se já tiverem bases de dança, ótimo. Mas, se não tiverem, terão o seu tempo para crescer e evoluir. E é desde o ponto zero até onde der.»
CG: «O nosso foco nestes meses, lá está, nós começamos a meio de um ano letivo. O nosso foco é tentar que os alunos que cá estão aprendam o máximo possível. Ou seja, ir devagarinho, se aprenderem dois elementos técnicos, ótimo. Se aprenderem 20, melhor ainda. Não temos uma coisa definida a 100% nesse sentido. É aprenderem o máximo que conseguirem. Para depois, em setembro, aí sim, já estamos a iniciar um ano letivo novo e seremos ainda mais rigorosos do que somos. Porque somos muito liberais e somos muito acolhedores, mas também pedimos rigor, disciplina, a arte precisa disso.»
FT: «É uma linguagem corporal, para saberes falar, tens de saber palavras. Portanto, para saberes dançar, tens de saber mexer de forma certa.»
DD: Olhando também um pouco para a área da Cultura, como é que analisam o panorama atual da área, no país e em Arouca? Os agentes culturais têm o apoio e os meios necessários para poderem apresentar a sua arte?
CG: «A dança é a arte menos apoiada e valorizada no nosso país»
FT: «Nós chamamos academias de fora para vir apresentar em grandes teatros em Portugal, mas esquecemos que em Portugal existem bailarinos muito bons.
CG: «E para dar workshops, é mais fácil pagar centenas de euros a um artista que vem de fora, porque tem mais credibilidade, porque é de fora do que um artista que é de cá.»
FT: «Credibilidade que muitas vezes vem de seguidores nas redes sociais.»
CG: «E não propriamente do teu talento ou do teu currículo, do que tu sabes fazer. Eu não sinto tanto isto na pele, sinto na pele a parte dos apoios, mas a parte dos workshops, eu estou a falar pelo que noto do panorama atual do país.»
FT: «Nós aqui tivemos muita sorte de ter um grupo de pessoas que acreditou em nós, mas passaram-se anos a tentar»
DD: Vamos colocar um cenário em cima da mesa. Suponhamos que a Junta não vos apoiava sequer com a cedência do espaço. A título pessoal, daria, por exemplo, para fazer esta academia numa sala grande em casa?
CG: «Daqui a 10 anos!»
FT: «Cada estilo de dança sequer uma sala diferente, por exemplo, em contemporâneo o chão ter umas molas. Isto são tudo coisas caríssimas e até para materiais em Portugal é difícil encontrar. Nós queremos colocar linóleo aqui e não existe fornecedores em Portugal, do que tenho pesquisado desde novembro (2025).
CG: «Eu falo um bocadinho mais da criação porque é mais a minha área. Mas, por exemplo, apoios para espetáculos, uma pessoa em nome próprio ou até uma academia que esteja a começar como a nossa, é difícil nós conseguirmos alugar um espaço onde possamos apresentar um espetáculo. Nós teríamos de esperar, talvez, pelo dinheiro dos bilhetes para conseguir pagar a sala e nem podemos pensar em ter lucro. Nós não vivemos de ar. Só pedimos o digno, nós trabalhamos o mesmo que qualquer outra área e não somos valorizados como tal.»
DD: Porque, no fundo, mesmo que a área da cultura não seja tão valorizada em questões de apoios, a da dança é ainda pior?
CG: «Há alguns apoios do Estado, para criação e etc, mas são muito poucos.»
FT: «Os projetos são sempre com briefings muito afunilados.»
CG: «E ganham sempre os mesmos, as companhias já estáveis, maiores, só que os projetos emergentes acabam por ficar sempre ali.»
FT: «Isto ainda nos dá maior vontade de lutar para fazer alguma mudança, sermos reivindicativos.»
DD: Sendo certo que ainda estão a dar os primeiros passos, mas quais são os próximos passos que têm em mente para a LIT? Eventualmente, uma apresentação pública?
FT: «Nós trabalhamos com objetivos, as nossas alunas têm que estar motivadas com um objetivo, na maior parte das vezes, de mostrar ao público o que elas fazem aqui na sala. E um deles vai ser, por exemplo, nas alunas de contemporânea, vamos fazer um vídeo onde, com uma dança, também possamos mostrar um bocadinho da beleza que é Arouca. E também já temos apresentações para setembro e para dezembro, em princípio. Ou seja, não ficar só na sala, mostrar também às pessoas o que fazemos aqui.»
CG: «Até porque o bailarino não vive só de estúdio, tem que viver de palco. Aqui constroem-se valores, autoestima, confiança, e isso não vai ficar só numa sala. Tem que se ver num palco, tens que exteriorizar e ter pessoas a ver.»
FT: «Às vezes, os familiares desconhecem o talento das alunas e, num palco, ficam admirados e isso é tão bonito».
CG: «E até pela questão de género, temos um rapaz. Sofre-se um bocadinho na área, já sofri preconceito, mas o sonho é maior que tudo o resto.»
DD: Esse também é um dos vossos objetivos? Quebrar estigmas?
FT: «Isso vive no fundo da minha cabeça, quero não pensar muito sobre isso, porque irrita-me profundamente. É uma luta que nem devia ser uma luta.»
CG: «Eu dou AECs (as chamadas aulas extracurriculares) e eu tenho meninos a dizerem que a dança não é para meninos, mas isso não vem deles, porque eles têm 5 anos. Nós queremos demonstrar, a pais e filhos, que uma coisa não tem nada a ver com a outra.»
Os 3 jovens criadores e professores da LIT
Francisca Teixeira, 24 anos, natural de Arouca
Cláudio Gil, 26 anos, natural de Vale de Cambra
Matilde Pereira, 28 anos, natural de Arouca
Simão Duarte
Fotos: LIT – Light in Transition

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