Oficina Reinventa-te mantém o crescimento artístico da expressão dramática feita por jovens

Desde abril de 2022, existe a «Oficina de Expressão Dramática Reinventa-te», que conquistou o 1º lugar do Orçamento Participativo de Arouca do ano já referido. E por forma a dar a conhecer o passado, o presente e o futuro desta oficina, o Discurso Directo entrevistou Joana Silva, jovem mansorense ligada intrinsecamente a esta iniciativa, como formadora, dado que o universo das artes é uma das suas paixões e é igualmente licenciada na área (Teatro e Educação, na Escola Superior de Educação de Coimbra).

Discurso Directo (DD): Da última vez que falamos, em outubro de 2024, a Oficina Reinventa-te tinha acabado de apresentar a emocionante peça «Anexo 263 – O Tempo Escondido», baseada na obra «O Diário de Anne Frank». Desde então, ou seja, durante 2025 e 2026, quais foram as apresentações, as encenações trabalhadas por esta Oficina?

Joana Silva (JS): «Na Oficina de Expressão Dramática Reinventa-te contamos, atualmente, com duas turmas: os “Exploradores da Cena”, que integram crianças dos 5 aos 10 anos, e os “Mestres da Cena”, constituídos por jovens dos 11 aos 18 anos.»

«Após a apresentação da peça “Anexo 263 – O Tempo Escondido” em diversos locais, surgiu a oportunidade de dar continuidade a este projeto através da realização de um filme. Esta iniciativa nasceu na sequência do interesse manifestado por várias pessoas, em particular por professores, uma vez que “O Diário de Anne Frank” integra o Plano Nacional de Leitura.»

«Ao escrever o guião adaptado, procurei condensar os aspetos essenciais da obra, proporcionando aos alunos um contacto mais acessível e significativo com uma narrativa tão extensa e marcante. O filme constitui, assim, um valioso recurso de síntese e reflexão. Importa ainda sublinhar que, apesar de se tratar de uma história profundamente emocionante, foi escrita por uma jovem com uma idade muito próxima da dos próprios alunos, o que torna a sua mensagem ainda mais próxima e impactante.»

«Do palco passámos, então, para o ecrã: uma nova forma de sentir, interpretar e dar vida a esta poderosa história. As gravações decorreram durante o mês de agosto de 2025, culminando na estreia do filme “Anexo 263 – O Tempo Escondido”, no dia 5 de outubro de 2025, no Salão Paroquial de Mansores. A direção artística esteve a meu cargo, tendo a captação e a edição ficado a cargo de Hélder Antunes. Atualmente, este filme já se encontra em várias escolas do país e pode ser obtido, de forma gratuita, por todos os interessados. Para aceder ao mesmo, basta entrar em contacto com a ACRM através do endereço de correio eletrónico aculturalrmansores@gmail.com ou diretamente com a formadora Joana Silva.»

«Relativamente à turma dos “Exploradores da Cena”, foi apresentada a peça “A Mala dos Sonhos”, uma criação original inspirada nas obras “O Principezinho” e “O Monstro das Emoções”. A estreia teve lugar no dia 22 de junho de 2025. Posteriormente, a peça voltou a ser apresentada no dia 16 de abril de 2026, já com uma turma mais alargada, novos participantes e uma adaptação renovada, no Auditório da Loja Interativa de Arouca, numa sessão esgotada.»

«Este percurso evidencia não só o crescimento artístico da Oficina Reinventa-te, mas também o seu compromisso contínuo com a formação, a criatividade e o desenvolvimento pessoal e emocional dos seus participantes.»

DD: Também nessa altura já havíamos falado do surgimento desta Oficina. Pergunto-te o que é que te motivou a formares-te na ESEC, corrige-me se estiver errado, mas creio que te formaste em Teatro, e também o que te motivou a concorreres ao Orçamento Participativo para formar esta Oficina?

JS: «Formei-me na Escola Superior de Educação de Coimbra, no curso de Teatro e Educação. Na altura, recordo-me de ter escolhido este curso e esta escola pela qualidade e abrangência da sua formação, que alia a vertente artística à pedagógica. Esta combinação permitiu-me não só desenvolver competências enquanto intérprete, mas também enquanto agente educativo e dinamizador cultural. Tive o privilégio de aprender com professores de elevada qualidade, destacando, em particular, aquele que considero o meu “mestre”, António Fonseca, cuja influência foi determinante no meu percurso.»

«Assumi a presidência da direção da ACRM entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2026, com apenas 21 anos. A associação já desenvolvia diversas atividades dirigidas a várias faixas etárias, mas era evidente a ausência de uma proposta estruturada que envolvesse de forma consistente os jovens. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de criar uma oficina de expressão dramática, impulsionada também pelo desafio lançado por alguns elementos da minha equipa.»

«Iniciámos este projeto de forma experimental, com algumas sessões pontuais. No entanto, rapidamente percebemos que existia um interesse crescente: os jovens começaram a aderir em maior número e com vontade de continuidade. Atualmente, a oficina “Reinventa-te” conta com cerca de 32 participantes, incluindo jovens provenientes do concelho de Arouca e da freguesia de Mansores, o que demonstra claramente a necessidade e o impacto deste tipo de iniciativa na comunidade.»

«Sendo um projeto criado de raiz, deparámo-nos com várias dificuldades iniciais. Não existiam condições materiais básicas, como equipamento de luz e som, nem recursos logísticos essenciais, como impressora e projetor. Para além disso, não havia histórico de investimento nesta área por parte de anteriores direções. Perante este cenário, decidimos candidatar-nos ao Orçamento Participativo de Arouca. Trabalhámos intensamente e conseguimos alcançar o primeiro lugar. A criação do “Reinventa-te”, em abril de 2022, e a vitória do Orçamento Participativo, em outubro do mesmo ano, foram, sem dúvida, momentos-chave. Mais do que um apoio financeiro, representaram o reconhecimento do valor do projeto e proporcionaram as condições necessárias para a sua consolidação, crescimento e continuidade, permitindo-nos continuar a fazer a diferença junto das pessoas.»

DD: Conhecendo tu muito bem a área da Cultura, como é que analisas o panorama atual da área, no país e em Arouca? Os agentes culturais têm o apoio e os meios necessários para poderem apresentar a sua arte?

JS: «Em Arouca, a cultura é respeitada e valorizada, é um facto muito importante, mas não suficiente. Falta um espaço completo, com condições adequadas, que permita dar resposta à qualidade crescente dos projetos que têm vindo a surgir. Hoje, mais do que nunca, há talento, há vontade e há criação. O que falta é um lugar à altura.»

«Em 2025, escrevi um artigo para a revista 6 da 4540 Jovem lançada em maio de 2026, onde refletia precisamente sobre isto. Dizia, em essência: em Arouca, a cultura vive nas bandas filarmónicas, na Academia, nos ranchos, nas vozes dos grupos corais, no Cine Clube e nas associações que movem a comunidade. São estes espaços que mantêm acesa a chama da democratização cultural, onde cada pessoa, jovem ou idosa, encontra lugar para criar, participar e sentir. Mas é tempo de deixarmos de olhar para a cultura como um simples passatempo. Não é “tempo livre”. Não é “luxo”. Não é “sorte”. É dedicação. É emoção. É resistência. É mesmo!»

«A cultura ensina-nos a olhar. Ensina-nos a reconhecer o humano em tudo. Um povo que lê, canta, pinta, toca, representa, cria e conhece a sua história nunca será silenciado, mas saberá respeitar o silêncio… que é tão bom e tão preciso e precioso nos dias de hoje. É um povo mais livre e mais consciente. Falar de cultura é arriscado. Abrir o coração é arriscado. Pergunto-me muitas vezes: quem manda, afinal, na cultura? Talvez ninguém. Talvez todos. Talvez a cultura pertença a quem a vive, a quem a sente, a quem a partilha. Em tempos de ódio, a cultura é resistência.»

«Há muito a melhorar, há sempre muito a melhorar. Esta é uma luta ainda em crescimento: diária, exigente, por vezes cansativa. Mas quem trabalha na cultura são pessoas resilientes, comprometidas e profundamente fortes.»

DD: Nos tempos que correm, são muitas as suposições que se apontam aos jovens de um modo geral. Diz-se que têm menores capacidades de se relacionarem pessoalmente com pessoas, por preferirem o contacto digital, ou seja, que se isolam mais, digamos assim. No caso da Oficina Reinventa-te, como é, para ti, trabalhar com um grupo de jovens, especialmente tendo em conta que trabalham peças como a que citei no início da entrevista, a do Anexo 263, que são emocionalmente pesadas?

JS: «De um modo geral, sinto que é cada vez mais difícil que a iniciativa parta deles: propor ideias, arriscar, tomar decisões ou deixar de procurar constantemente a validação do outro. Muitas vezes, não se desafiam a si próprios e desmotivam-se com muita facilidade. Para qualquer formador ou professor, nem sempre é fácil não desanimar perante esta realidade, mas acredito que todo o trabalho acaba por compensar. Acredito, também, que as redes sociais e o contacto digital excessivo estão na origem de algumas destas dificuldades. O telemóvel tornou-se, para muitos jovens, uma espécie de refúgio, algo que lhes transmite uma sensação de segurança. É uma perceção partilhada por muitos de nós, embora seja difícil contrariar esta tendência. Por isso, procuro que a hora e meia de formação seja um espaço diferente: um lugar onde possam olhar em frente e não para baixo, onde se desafiem, se relacionem e, acima de tudo, se conheçam melhor a si próprio.»

«Acredito que as sessões funcionam como um espaço seguro, onde a exposição emocional é possível e incentivada. Ao longo do processo, é visível a evolução de cada um, não apenas enquanto intérprete, mas também enquanto pessoa. Por exemplo, o facto de muitos deles saberem de cor cada palavra do guião do “Anexo 263 – O Tempo Escondido” é apenas um reflexo do seu empenho e da forma como se entregam ao projeto. Tenho, inclusivamente, jovens que fazem parte da Oficina Reinventa-te desde o primeiro dia. Ano após ano, é impossível não sentir admiração ao observar o quanto cresceram, não apenas fisicamente, mas sobretudo a nível pessoal e emocional. O facto de continuarem a querer fazer parte deste projeto é, para mim, um sinal claro do impacto que ele tem nas suas vidas.»

«Este trabalho, é particularmente desafiante também pela diversidade de idades com que lidamos. Ter 10 anos não é o mesmo que ter 15, nem em termos de maturidade, nem de experiência de vida. Ainda assim, é precisamente nessa diversidade que reside a riqueza do grupo. Os mais novos trazem espontaneidade, curiosidade e descoberta e os mais velhos acrescentam profundidade, consciência e capacidade de reflexão.»
«No fundo, mais do que contrariar ideias feitas sobre os jovens de hoje, aquilo que sinto é que eles precisam, e valorizam, espaços reais de encontro, de expressão e de escuta. O teatro tem precisamente essa capacidade: criar encontros, despertar emoções e permitir que cada jovem descubra, em si e nos outros, novas formas de estar e de crescer.»

DD: Quais são os projetos futuros que nos possas revelar?

JS: «Atualmente, a turma dos “Mestres da Cena” encontra-se a desenvolver uma adaptação do conhecido musical “Querido Evan Hansen”. Trata-se de um projeto particularmente desafiante, não só pela sua complexidade emocional, mas também pela exigência interpretativa que implica, representando um contraste significativo em relação aos trabalhos anteriormente apresentados.»

«A escolha desta obra não é inocente. Existe uma preocupação constante em trabalhar histórias que promovam a reflexão e o diálogo, especialmente junto dos jovens. Esta obra aborda temas profundamente atuais, como a solidão, a necessidade de pertença, a saúde mental e o impacto das redes sociais na construção da identidade e das relações humanas. Numa perspetiva mais pessoal, torna-se cada vez mais evidente que os jovens de hoje crescem num contexto muito diferente, marcado por uma exposição permanente, pela comparação constante e por uma crescente necessidade de validação. As relações interpessoais, muitas vezes influenciadas pela pressão das redes sociais e por dinâmicas de competição, podem tornar-se mais frágeis e menos autênticas.»

«Neste sentido, projetos como este assumem uma relevância ainda maior. O teatro, muitas vezes de forma bem discreta, cria espaços seguros de expressão, de escuta e de empatia, onde os jovens podem refletir sobre si próprios e sobre o mundo que os rodeia. Mais do que um espetáculo, este é um processo de crescimento pessoal e coletivo, que procura contribuir para a formação de jovens mais conscientes, equilibrados e emocionalmente preparados para os desafios do presente.»

Simão Duarte

Fotos: ACR Mansores e Carlos Pinho

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Discurso Direto
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