1ª parte da entrevista de Vasco Seabra ao Discurso Directo

Um balanço da época 25-26, a relação forte com a Direção, a ideia de jogo, a forma de trabalhar, o treino e a gestão dos jogadores menos utilizados

No início do mês de junho, o treinador do FC Arouca, Vasco Seabra, recebeu o Discurso Directo no Estádio Municipal de Arouca, concedendo-nos uma entrevista, a 1ª e única à imprensa local arouquense até à data desta publicação. Depois do compacto da conversa de uma hora com o treinador, que saiu na mais recente edição do nosso jornal impresso, iremos agora publicar  a entrevista na íntegra, dividindo-a em 3 parte, em que a 3ª e última será um jogo de perguntas rápidas sobre o plantel, em texto e vídeo.

Nesta 1ª parte, o técnico fez um balanço da época 25-26, abordou o bom “casamento” que vive com a Direção do clube (e que explica a ligação que vai agora para a 3ª temporada) e ainda a ideia de jogo da equipa, bem como o microciclo semanal, para que os arouquenses possam conhecer mais de perto como trabalha a equipa técnica e o plantel dos Lobos de Arouca.

1ª parte da entrevista de Vasco Seabra ao Discurso Directo

Discurso Directo (DD): Depois da 1ª volta, foi operado um assinalável volte-face à época, terminando no 8º lugar. Durante a época, e também na publicação que fez após a última jornada, falou nos momentos duros e no crescimento do grupo. Manteve-se fiel à ideia e ao processo, com algumas nuances, especialmente as que os jogadores vindos em janeiro trouxeram consigo. Sente que essa fieldade ao processo garantiu não só o sucesso esta época, mas também o da próxima?

Vasco Seabra (VS): «Acredito que o facto de não nos termos desviado traduziu internamente a segurança de que nós não estávamos em desespero. E apesar dos momentos mais críticos, a personalidade da grande maioria do grupo manteve-se estável em relação à energia, à alegria, à forma como traziam todos os dias uma motivação grande para treinar.»

«Eu tenho falado pouco dele, porque já se fala muito dele em quase todas as entrevistas, em quase todos os jornais, mas, por exemplo, um dos jogadores que traduz sempre essa energia, essa aura, é o Trezza. Aquilo que ele traduzia em campo era o dia-a-dia dele e isso acaba por contagiar. Mesmo nesses momentos de crítica, eu recordo-me muitas vezes do Trezza ser quem chega à sala do pequeno-almoço sempre com um sorriso, energia, confiança.»

«Todos nós internamente sentíamos que as coisas não estavam a acontecer e que, obviamente, tínhamos que fazer as nossas reflexões, mas sabíamos que elas estavam num caminho e que nós conseguindo inverter uma ou outra situação que não estava tão boa, que nós iríamos conseguir dar um safanão e uma chegada pontual àquilo que nós estávamos a produzir em termos de comportamentos.»

«Agora, também não vou esconder que os comportamentos não estavam a ser os melhores do mundo, porque, obviamente, estávamos a ter muitos erros, e a correção desses erros acabou por nos trazer essa maturidade de janeiro que nos fez estar mais estáveis e essa estabilidade também nos permitiu, além dos resultados, todos os dados estatísticos que depois advêm daí.»

«Fomos a equipa com mais golos marcados de bola parada na 2ª volta, fomos a 6ª que menos sofreu, fomos dos melhores ataques, fomos das melhores defesas, passamos de um score de 40 e tal golos sofridos para um score de 22, passamos a ter 17 marcados para 29.»

«Isto são tudo números que criam factualidade àquilo que depois foi conquistado dentro do campo. E, obviamente, os 28 pontos são uma marca muito, muito boa, que nos levaram para o 8º lugar, que é um lugar muito honroso e que nos deixou com esse sabor agridoce, porque com um bocadinho mais de pontos da 1ª volta, eventualmente, tínhamos feito uma época histórica no clube. Foi a 4ª melhor, queríamos que pudesse ter sido ainda melhor, porque acho que aquilo que praticamos em termos de jogo, principalmente na 2ª volta, obviamente, com a dinâmica maior, demonstrou o equilíbrio das duas coisas. Nós já jogávamos bem na 1ª volta, não éramos tão consistentes durante todo o jogo, e na 2ª volta, creio que conseguimos esse patamar.»

DD: Já esteve no seu Paços, Famalicão, Mafra, Boavista, Moreirense, Marítimo e Estoril. Em todos eles, criou bons processos e boas ideias de jogo, positivas, mas sentia-se sempre uma “espécie de mal crónico do futebol português” de que nunca tinha tido a estabilidade que merecia. Neste ponto da sua carreira, onde a encontrou finalmente, é aqui em Arouca que vive o seu melhor casamento, num clube humilde, mas ambicioso?

VS: «Sim, indiscutivelmente. O clube tem as suas fragilidades e as suas dores de crescimento, porque é um clube que não vive de investidores, vive de uma pessoa (Presidente Carlos Pinho) que tem uma paixão gigante no clube da vila, que conseguiu transformar o FC Arouca num clube muito humilde em clube de competições europeias, e obviamente que o processo de crescimento tem que ser seguro para que o clube seja sustentável e para que se consiga autofinanciar, porque é um trabalho muito árduo.»

«Aqui, aquilo que nós encontramos foi que as pessoas, no caso, o Joel Pinho, teve uma entrevista comigo quando foi para a saída do Gonzalo e a minha entrada, onde falamos de diversas coisas, onde eu demonstrei como é que nós trabalhávamos, qual era a nossa forma de jogar, de defender, de atacar, como é que nós víamos o plantel do FC Arouca. Ele também nos demonstrou como é que via o processo FC Arouca e se nós estávamos dispostos a aceitar uma situação destas, ou seja, em termos de clube, em termos de localização, de vila, de projeção, daquilo que nós também queríamos fazer. Depois de passarmos esse trâmite, há a passagem para o Presidente, que é uma figura ímpar, que tem um carisma gigante.»

«Não vou esconder que bateu a frontalidade de uns e de outros. Ou seja, eu sou alguém que gosto de conversar, mas que digo as coisas que tenho para dizer na cara e não fico com elas guardadas dentro de mim. O Presidente e o Joel Pinho também são exatamente da mesma forma. Nenhum de nós as leva para o lado pessoal e encara-as como críticas construtivas de forma a que a gente possa construir algo juntos. Eles têm uma capacidade fantástica de não tentarem influenciar, ou seja, são alguém que respeita o meu trabalho, a minha posição e hierarquia no clube, a minha definição da forma de jogar, quem deve jogar, etc. E como respeitam esse trabalho, é porque confiam nesse trabalho que é feito. E isso adveio das reuniões que tivemos anteriormente, no momento da decisão.»

«No momento de, quando terminamos bem, como foi o caso (da época 24/25), ou no momento em que tivemos um período também muito difícil de 6 derrotas (na época 25/26), eu senti que tanto o Presidente como o Joel estiveram sempre alinhados comigo. Não quer dizer que isso não pudesse ser quebrado, ou o que quer que seja, mas a verdade é que em todos os momentos os senti muito alinhados comigo. Eu alinhado com eles em relação àquilo que também eram as coisas que nós achamos que têm de ser melhoradas.»

«Acabo por sentir a título individual que obviamente é um local onde nós sentimos que existe essa força. Tal como nos casamentos, temos momentos de altos e baixos, aqui também houve esses momentos, mas nunca deixamos de escolher continuar juntos. Como escolhemos continuar juntos, essa estabilidade tem vindo a ser determinante para o nosso sucesso a nível individual de equipa técnica, também o sucesso do clube, que no ano passado conseguimos terminar num lugar estável com valorização dos jogadores. E este ano, novamente, um lugar melhor ainda, com valorização dos jogadores, com uma forma de jogar que toda a gente também acaba por valorizar.»

«Este enquadramento acaba sendo um enquadramento que nos sentimos bem, por isso é que também fizemos a renovação. E, obviamente, isso também me leva, para esses clubes todos de trás, a reforçar a confiança que advém das pessoas que lideram o clube.»

DD: Sei que gosta muito de falar do jogo e eu procuro sempre que possível puxar por si sobre isso nas conferências. Terminada esta sua 2ª temporada pelo FC Arouca, onde um dos pontos de convergência de ambas é o facto de ter realizado sempre boas segundas voltas, taticamente como é que olha para cada uma das épocas e o que é que transitou e também o que alterou da 1ª para esta que acabou agora?

VS: «Vamos falar daquilo que é, normalmente, menos importante, mas que é um ponto de partida. E o ponto de partida vem de um 4x2x3x1, ofensivamente. Uma capacidade que nós gostamos de ter, gosto de jogar com 2 médios e um nº10 mais criativo, que possa jogar em espaços entrelinhas e mais próximo das ligações ao avançado. Essa foi uma passagem contínua de uma época para a outra.»

«Em termos defensivos, nós também partimos num 4x4x2. Este ano, no decorrer da época, esse 4x4x2 foi, algumas vezes, híbrido. Nós tanto defendíamos em 4x4x2 como, em determinados jogos, acompanhávamos com um extremo e o nosso 10 passava para a 1ª linha para pressionar, transformando esse 4x4x2 num 5x2x3 ou 5x4x1 para conseguirmos bater com mais referências em termos de pressão, que nos parecia mais identificativo para os nossos jogadores.

«E essa alteração acabou por ser feita de acordo com o que nós sentíamos que eram as características da equipa, as fragilidades que estávamos a ter contra determinadas formas de construir e de jogar e a forma como poderíamos, eventualmente, proteger-nos, sendo mais audazes, para podermos depois pressionar mais e melhor, para podermos recuperar a bola, porque, como o nosso processo é um processo que exige tantas vezes ser protagonista e ter tantas vezes a bola, implica que nós, em termos de pressão, consigamos ter esse mesmo sucesso. Esse foi o ponto principal de mudança, principalmente a nível defensivo.»

«Depois, a nível ofensivo, nós este ano variámos um pouco mais. No ano passado (24-25), nós construímos quase sempre abaixo com o Weverson, com o Chico Lamba e o Fontán, com o Weverson um pouco mais baixo e mais quebrado em termos de construção. O Esgaio jogava habitualmente alto, depois na última fase o Alex (Pinto), e jogávamos muitas vezes com o Jason até aberto. E, portanto, criávamos uma dinâmica de construção a partir daí, para tentarmos chamar a pressão do adversário a um lateral mais baixo com o outro profundo e depois dando mobilidade aos nossos médios que podiam entrar no lugar do nosso lateral esquerdo ou no espaço livre que era deixado pelo nosso lateral direito. Isso nós mantivemos para este ano. No decorrer da época, fomos alterando pontualmente em função do que era estrategicamente para o adversário.»

«Uma ou outra vez, nem sempre acabámos por construir com o Esgaio mais baixo, para tentarmos abrir o extremo desse lado, mas sentimos sempre que, como o Trezza é um jogador mais 2º avançado do que propriamente extremo de fora, acabámos sempre por tentar puxá-lo a seguir mais para dentro para ficar mais próximo da baliza. E depois, algumas vezes, também com os dois laterais mais projetados e, aí sim, dando mobilidade e preponderância aos nossos médios que têm capacidade para ter a bola, para ligar. Essas foram as principais alterações de um ano para o outro.»

«Obviamente que este ano, na 2ª volta, tivemos jogadores, até pelas contratações que fizemos, mais capazes do ponto de vista físico também. A entrada do Espen van Ee na equipa acaba por trazer um pouco mais de abrangência também, de recuperações de bola, o que fez também projetar os jogadores que andam à volta dele para terem uma dimensão também maior, que recuperávamos mais depressa a bola. Estas foram as principais diferenças em termos de características e de forma de jogar que acabaram por divergir e depois entrar na ideia de jogo.»

DD: Vou-lhe pedir agora que nos fale de uma semana de trabalho, de como é o microciclo aqui no Arouca. Acredito que os arouquenses tenham curiosidade em saber como é uma semana de treinos aqui, o ambiente vivido?

VS: «Eu posso projetá-la de acordo com uma normalidade, nem sempre ela existe, mas com uma normalidade imaginando que o jogo é domingo a domingo. Nós fazemos o jogo domingo, após o jogo, habitualmente os jogadores não utilizados ou menos utilizados fazem treino a seguir ao jogo, para que todos estejam mais ou menos no mesmo padrão físico após o jogo. Na segunda-feira habitualmente é folga, terça-feira normalmente iniciamos o treino da parte da tarde, para darmos um pouco mais de descanso aos jogadores, e eles poderem voltar para esse treino para fecharmos a recuperação e quem jogou menos terem ainda um acréscimo em relação à carga apresentada.»

«E depois entramos sim em 4 treinos que são já de preparação do adversário. Nesses 4 treinos, treinamos sempre de manhã, só em raras exceções é que não treinamos de manhã. A nossa chegada ao clube, eu como treinador principal gosto de chegar mais cedo e gosto de trabalhar um bocadinho no ginásio, de fazer o meu treino antes do pequeno almoço, por isso habitualmente chego ao clube às 7h30, treino ali até às 8h15 no ginásio, depois pequeno almoço no clube, os jogadores começam a chegar à volta das 8h30, 8h40. A hora limite de chegada deles é às 9h00, e depois o treino é habitualmente às 10h30. Eles têm pequeno almoço do clube, têm todo um processo que vão fazendo posterior ao pequeno almoço, como tratamentos no departamento médico, exercícios de pré-treino no ginásio, com os profissionais também que temos no ginásio, até haver a preparação depois para o treino.»

«Normalmente, o treino tem 75 minutos, portanto acabará sempre por volta do meio dia. Após o treino, há dias em que eles ainda têm trabalho suplementar no ginásio, outras vezes trabalhos de recuperação no departamento médico, banhos de gelo, massagem, todo esse tipo de trabalho. Alguns jogadores ainda vêm da parte da tarde trabalhar no ginásio com os profissionais, fica facultativo sempre essa parte. Alguns deles gostam de o fazer, sempre orientado por nós, mas de acordo com os nossos profissionais também. Isto vai sendo progressivo durante toda a semana.»

«Sendo o jogo domingo, sexta e sábado já ninguém trabalha de tarde, porque, para nós, a recuperação e o descanso é treinar também, recuperar e descansar é estar predisposto para estar fresco no dia do jogo e poder competir no máximo e no limite. Portanto, esse é o processo habitual de semana. Nos jogos fora, sempre estágio. Este ano, sim, nos jogos em casa também acabamos por fazê-lo. Sentimos que os jogadores também, é um momento que, para eles, é importante estarem resguardados e terem as alimentações como é devido. E, portanto, este é o padrão normal de semana, em termos de microciclo, daquilo que nós projetamos.»

«Nós, em termos de equipa técnica, o nosso trabalho é praticamente diário, não temos grande dia de folga. Normalmente, na folga, um dos adjuntos, que é o Cláudio (Botelho), é quem fica responsável pela análise da própria equipa. O Nuno (Diogo) fica responsável pelas bolas paradas da análise da própria equipa. O Bruno (Pereira), de toda a parte física. O João Cancela, de toda a parte estatística. Tudo isso é reunido e é-me entregue a mim na folga, num documento que nós temos partilhado entre nós.»

«O 1º treino da semana, normalmente, é desenhado por mim e pelo Cláudio (Botelho) e fazemo-lo cá no estádio. E, logo a seguir a isso, temos a análise do adversário interna da equipa técnica. Estruturação, normalmente, sugerida pelo João Cancela, que é o analista dos 4 momentos do jogo, com o Cláudio (Botelho), que também é o responsável pelos 4 momentos do jogo, fazem-me uma proposta estratégica, ou seja, pontos que nós queremos aproveitar ou ter em consideração do adversário. Estruturamos conteúdos para a semana, que nós achamos que são importantes trabalhar, de acordo com o que foi o nosso jogo e o jogo seguinte.»

«E, depois, isso vai sendo gradual, durante a semana, a passagem desses mesmos conteúdos. Exatamente isto que faço com o Cláudio (Botelho) e com o João Cancela no 1º dia da semana, faço com o Nuno Diogo e com o Rui (Filipe Oliveira), que são os responsáveis pelas bolas paradas. O Rui (Filipe Oliveira) como analista das bolas paradas, e o Nuno (Diogo) como membro da equipa técnica responsável pelas vozes paradas. A partir daí, a estrutura da semana está mais ou menos identificada. Fazemos, depois, os treinos dia por dia.»

«Este ano, vamos conseguir dar um upgrade também àquilo que queríamos em termos de treino, porque teremos mais uma pessoa que nos ajuda na análise, a podermos fazer vídeos individuais dos nossos jogadores, porque precisamos de melhorar algumas capacidades individuais durante a semana. É um upgrade que queremos fazer aos nossos jogadores, pontualmente, em função de coisas que nós achamos que para o nosso jogo são importantes que sejam melhoradas extra-treino. O Cláudio (Botelho), que é o responsável também da parte individual e complementar do treino, juntamente com o Bruno (Pereira) da parte física, com o Nuno (Diogo) que também tem determinados jogadores principalmente da parte defensiva, que é ele que analisa mais, para me apresentarem em que dias é que deveremos fazê-lo. E a semana tem todo este padrão e este enquadramento, no sentido de podermos chegar a preparar-nos para o jogo.»

DD: O mister Vasco Seabra é muito interventivo no treino, a ponto de se misturar no meio dos jogadores e trocar umas bolas com eles, ou fica um pouco mais resguardado, a observar ao longe, e deixa que os adjuntos intervenham?

VS: «Os meus adjuntos têm intervenção total com o treino, são capazes de o liderarem. O Cláudio (Botelho) e o Nuno (Diogo) operacionalizam muitas vezes o treino e explicam-no. Ou seja, há vários exercícios de treino que são eles que lideram o exercício e eu fico a observá-lo. Na grande maioria dos exercícios, eu gosto de estar dentro dele. Eu tenho uma paixão grande pelo treino, por viver o treino junto com os jogadores e muitas das vezes gosto de estar perto deles, em contato com eles.»

«E, portanto, habitualmente os meus adjuntos estão exteriormente. Eles funcionam um de cada lado, um com uma tarefa, outro com outra tarefa, que são tarefas que são atribuídas naturalmente ao plano de treino. Habitualmente, o Cláudio (Botelho) sempre mais focado na parte ofensiva, o Nuno Diogo mais focado na parte defensiva, em comportamentos que eu quero que estejam sempre a ser corrigidos. E eu normalmente muito naquilo que é o ritmo do treino, a intensidade do treino, a predisposição, a forma como o jogador tem mais coragem ou menos coragem para se mostrar ao jogo, para se mostrar à bola, para ser mais agressivo defensivamente. Ou seja, aquele contato mais próximo.»

«Normalmente ando com bolas comigo, para se sair uma bola, eu colocá-la de imediato, não gosto que o treino pare muitas vezes. Portanto, eu gosto de vivê-lo de forma mais intrusiva, digamos assim, mais dentro dele.»

«Os meus adjuntos têm um papel determinante em tudo aquilo que é o treino. O Bruno (Pereira) estrutura toda a semana em termos físicos, para nós sabermos até que padrão devemos ir. O Nuno Diogo é alguém que normalmente complementa o treino como adjunto de toda a parte defensiva. O Cláudio (Botelho) é quem estrutura o treino comigo, ou seja, o maior responsável pelos 4 momentos do jogo e pela análise da própria equipa, é ele que me traz a proposta para o treino e eu aprovo ou não, alteramos ou não alteramos.»

«E depois sim, o treino, principalmente os exercícios mais coletivos, são onde eu mais intervenho. Os exercícios mais iniciais, ou que nós partimos os exercícios, aí normalmente o Cláudio (Botelho) e o Nuno (Diogo) dividem tarefas e ficam com um grupo cada um, explicam o exercício, conversam com eles, até porque dentro da própria semana, quando mostramos os 4 momentos do adversário, é o Cláudio (Botelho) que mostra esses 4 momentos do adversário, a forma como o adversário joga e coisas que nós queremos aproveitar e que é em consideração do adversário e o Nuno (Diogo) faz a mesma coisa relativa às bolas paradas. E esses são momentos em que eles também têm liderança para nossos jogos.»

DD: Ainda sobre o treino, pelo facto de ser muito interventivo dentro do mesmo, já aconteceu, por exemplo, levar uma cacetada de um jogador?

VS: «Às vezes há aquele encontrão, ou levar uma bola na cara ou no corpo. Coisas que às vezes acontecem com os jogadores. Para já, acho que foi sempre sem querer, acho que nunca foi proposital.»

DD: Ainda ninguém se vingou.

VS: «Eles vingam-se mais quando é o dia do aniversário, quando se passa no túnel. Mas tirando essa parte, acho que foi sempre tudo ameno.»

«Relativamente a mim ainda, eu sou bastante chatinho no treino. Eu sei que as pessoas habitualmente me confundem por transparecer ser alguém calmo e sereno, porque no dia do jogo eu gosto de estar mais tranquilo para que os jogadores tenham mais poder de decisão, porque já é um momento em que já foi passada muita coisa durante a semana.»

«E eu gosto que todos olhem e sintam segurança do treinador. E, portanto, se eu estiver constantemente aos meios, sinto que eles não sentirão tanta segurança naquilo que eu estou a passar-lhes. No dia-a-dia do treino, não. Sou alguém que intervenho muito e exijo muito deles. Isso é bastante diferente. Quem me conhece fora, habitualmente fica um bocadinho surpreendido com aquilo que acontece depois, dentro do treino. Mas isso faz parte do trabalho.»

DD: Nas outras entrevistas que já deu, naturalmente, foi questionado sobre os jogadores que mais se evidenciaram. Arruabarrena, Fukui, Djouahra, Trezza, Lee, Pablo, etc. Também falaram dos elementos da linha defensiva que chegaram em janeiro. Mas eu queria falar de outro tipo de jogador, que nem sempre é falado, que é todos aqueles que fazem parte do plantel, mas que não são uma opção extremamente regular. Por exemplo, o Vinarcik fez 1, o Diogo Monteiro fez 8, o Valido fez 10, Matías Rocha fez 11, o Pedro Santos 17, o Popovic 19. Como é que se gere o grupo de jogadores deste tipo e como é que os mantém motivados para entrarem em campo e, tal como cada um destes que aqui exemplifiquei, estarem prontos para rubricar boas exibições?

VS: «Eu sou muito frontal, dificilmente escondo aos meus jogadores aquilo que estou a sentir e aquilo que tenho para lhes dizer. Eles sabem que, se tiverem dúvidas, podem vir perguntar, porque eu vou-lhes  dizer. Agora, eu digo-lhes também muitas vezes, que é, a porta está sempre aberta para os receber, mas nem sempre eles vão ouvir aquilo que querem ouvir. Eles vão ouvir muitas vezes aquilo que não querem ouvir. E isso eles podem não concordar, porque isso é natural, cada um terá sempre a sua opinião. Todos aceitamos a opinião dispare uns dos outros.»

«Há alguém que toma decisões, e esse alguém sou eu, eu tomo decisões em função daquilo que eu acho que são as melhores decisões para a equipa. E eu digo isto muitas vezes na 1ª intervenção que tenho com os jogadores. Eu vou sempre ser honesto com eles, e na minha cabeça, vou sempre ser justo e coerente. Na cabeça deles, vai acontecer muitas vezes, não haver coerência e não haver justiça. Dentro deste padrão, eles têm que me conhecer, e eu conhecê-los a eles.»

«E eles têm que saber o que é que eu exijo para jogar, tem que saber o que é que eu exijo a cada um dos elementos para conseguir competir para jogar. E isso dá-me a segurança de perceber que qualquer jogador que venha falar comigo, eu nunca lhes vou justificar o porquê de optar por este em relação àquele. Eu vou lhes dizer aquilo que eles precisam fazer para estarem mais preparados para o jogo. Sempre que tenho uma entrevista com um jogador, digo-lhe sempre que vou garantir 0 vezes que eles vão jogar. Eles são contratados para treinar, para fazer parte de um grupo, em que o propósito maior é o bem desse grupo.»

«(Falando na perspetiva de um jogador) Posso ficar mais feliz, menos feliz. Mas, quanto menor felicidade eu trouxer para o dia-a-dia do treino, habitualmente, menor rendimento eu tenho também. Portanto, quanto mais eu conseguir drenar as minhas frustrações, mais capaz eu vou ser de conseguir competir para me preparar para, quando a outra oportunidade surgir, eu estar disposto a conseguir ter minutos e valorizar essas mesmas oportunidades.»

«Nós falamos aí de vários casos diferentes, uns dos outros, mas posso dar-lhe um exemplo. O Brian Mansilla fez um jogo titular connosco, no Dragão. Foi o único jogo que ele jogou de início. E, por vezes, as pessoas dizem: “Como é que é possível, só o meteste no jogo do Porto, parece que estás a matar o rapaz!”. Não, foi o jogo que eu achava que ele, para aquilo que era a forma como a equipa queria jogar. Nós nesse jogo quisemos construir com o Diogo Monteiro como lateral direito mais baixo, o Porto batia a pressionar com o Pietuszewski e abria, ou seja, o Zaidu é que vinha bater ao Diogo Monteiro, portanto, nós tendo o Brian (Mansilla) bem aberto, tinha que ser o Kiwior a bater no Brian (Mansilla) bem fora. O Brian (Mansilla) era um jogador de 1 contra 1 muito capaz e nós queríamos retirar essas características ao jogo. E por isso é que ele foi escolhido para jogar naquela posição.»

«Nem sempre a decisão do treinador tem única e exclusivamente a ver com a capacidade de trabalho. Porque, se eu fosse falar disso, então o Brian (Mansilla) merecia jogar todos os jogos. Porque o Brian (Mansilla) é um trabalhador inacreditável, tem uma humildade gigantesca, tem um talento individual absurdo e, a verdade, é que ainda não conseguiu exprimir em jogo tudo aquilo que nós vemos enquanto talento individual.»

«E, portanto, este trabalho que nós tentamos fazer com ele, para que ele se prepare para ser alguém capaz de enfrentar 1 jogo, 2 jogos, 3 jogos, 4 jogos, com uma consistência que aquilo que o talento dele nos faz sentir que ele pode vir a atingir, não tem a ver com a capacidade de trabalho dele. Porque se eu tiver 24 jogadores ou 23 jogadores de campo que trabalham todos no seu limite, 11 vão jogar e 12 ou 13 ou 14 vão ficar fora.»

«E isso é uma questão que eles têm que perceber à partida que vai acontecer. E nós sabemos todos que o futebol é um jogo coletivo, mas que tem muito de individual. Porque cada um deles olha muito para o seu umbigo. E, portanto, existe aqui alguém que lidera o processo, que tem a hierarquia clara de ser o treinador, que é quem vai tomar as decisões. Nessas decisões, eu sou claro e honesto com eles, tomo as decisões em função daquilo que eu acho que é o melhor para a equipa. Umas vezes vou acertar, outras vezes não, mas vou fazê-las de consciência tranquila em função daquilo que são as ações para a equipa e para o jogo.»

«Essa é a forma como lido com eles, umas vezes mais duro, outras vezes mais compreensivo, umas vezes mais próximo para lhes tentar puxar para um lugar que eu acho que eles podem vir a ter. Outras vezes mais afastado, porque eles também precisam desse afastamento para conseguirem respirar e drenar alguma frustração que tenham. Nunca nenhum caso é igual ao outro, até porque as personalidades são todas elas diferentes, mas dentro disso, sempre com um propósito, que é o bem-estar de equipa. E quem não estiver nesse bem-estar de equipa, aquilo que normalmente acontece é que não é escolhido.»

Simão Duarte

Foto e vídeo: Pedro Gonçalves

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Simão Duarte
Discurso Direto
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