O Discurso Directo teve a oportunidade de entrevistar o antigo lateral brasileiro do FC Arouca, Mateus Quaresma, que se destacou pelos arouquenses durante a sua passagem pelo clube, entre 2020 e 2024.
Recorde-se que Quaresma juntou-se aos Lobos de Arouca na temporada 2020/21, tendo conquistado a titularidade na asa esquerda da defesa na época em que os arouquenses regressaram à Primeira Liga. A sua reta final da passagem pelo clube ficou marcada por várias lesões, uma delas bastante grave e que o afastou muito tempo dos relvados, mas ultrapassou a marca dos 100 jogos pelo clube.
Esta é a primeira parte da entrevista, onde revisitamos todo o seu trajeto, no clube e na vila, e também falamos do seu presente, agora de regresso ao Brasil. Nesta parte, falamos especialmente da sua chegada a Arouca e do início do seu trajeto no clube.
Discurso Directo (DD): Como é que surgiu a oportunidade de sair do Brasil e de vir para Portugal para jogar no FC Arouca? O que é que o levou a vir para cá e quais é que foram as primeiras impressões que teve do clube e da vila?
Quaresma (Q): «Obrigado pela entrevista, fico muito feliz e honrado de falar do FC Arouca, falar da vila onde passei os melhores 5 anos da minha vida. Estou muito grato a Deus por tudo o que vivi aí».
«Eu estava no Cascavel, no Paraná, onde estava a disputar o Paranaense e, consequentemente, depois teria o campeonato da Série D, acho que foi em 2020. E eu fui despontando no campeonato, estava a ser considerado o melhor lateral esquerdo da competição».
«E, se eu não me engano, em meados do final do campeonato, o Joel Pinho mandou-me mensagem a perguntar se eu teria interesse de ir para o FC Arouca, um projeto de subida que tinham. E, graças a Deus, logo no início da Série D do Campeonato Brasileiro, acho que eu fiz um jogo e eu aceitei o convite do FC Arouca e viajei para Portugal. Quando cheguei a Portugal, era tudo muito novo, a questão do país, mas creio que não foge muito dos costumes do Brasil».
«Quando cheguei ao FC Arouca, conseguimos a subida. Lembro-me que precisávamos de fazer uma série de vitórias na segunda volta para poder chegar ao playoff. Conseguimos, apanhamos o Rio Ave no playoff e conseguimos fazer bons resultados».
«O primeiro jogo em casa e depois fomos lá e conseguimos a subida. É um clube que merece estar onde está, que está a crescer».
«Os primeiros quesitos que eu notei foi o profissionalismo. Os clubes são bastante profissionais no que fazem, têm um entendimento do que precisam e do que não precisam».
«E quando eu cheguei ao FC Arouca, foi isso que eu notei. É um clube, como eu falei e repito, que está em crescimento, que tem pessoas profissionais e eu sou muito grato por tudo o que eu vivi ali».
«Eu nunca imaginei que chegaria ao FC Arouca naquele ano e teria a subida. Eu acho que é muito difícil chegar logo de caras e consegui-lo. É um momento que vai ficar bastante marcado na minha vida. Não só esse, mas também outros que vivi».
É um dos primeiros que ficou bastante marcado na minha vida. Eu, um menino lá de Bom Retiro do Sul, que é a minha cidade, não imaginaria que chegaria a um clube de Primeira e conseguiria uma subida de tão rapidamente».
DD: A sua estreia foi para a Taça de Portugal, contra os Africanos de Bragança. E, curiosamente, na estreia, marcou. Três jogos depois dessa estreia, no campeonato, uma assistência para golo, com o Vizela. E no jogo a seguir, a este da assistência, a estreia titular frente ao Feirense. Tudo isto, nos primeiros tempos do clube, também lhe deram alento e esperança de que a experiência seria boa desportivamente?
Q: «Esses três momentos foram primordiais para começar bem no FC Arouca. E, como eu falei antes, desde que eu cheguei eu sentia, no meu coração, que eu ia viver uma história muito bonita ali no FC Arouca. As primeiras impressões são as que ficam!».
DD: Durante boa parte dessa época, especialmente quando o Quaresma começa a ter mais minutos e jogos, a linha defensiva era totalmente brasileira. Na baliza estava ou o Victor Braga ou o Fernando Castro, depois, a lateral direito, o Thales, no meio, o Brunão e o João Basso e, na esquerda, o Quaresma. Isso também facilitou a integração no clube e na química entre cada um de vocês no momento defensivo?
Q: «Com certeza! Cheguei a um ambiente onde criei laços, onde todos remam para o mesmo lado, cria-se um vínculo de família e a receção também das pessoas é muito importante. E eu creio que isso ajudou sim, porque, querendo ou não, nós brasileiros, com brasileiros, mas também com portugueses, nós entendemo-nos, torna-se mais fácil na questão do entendimento dentro de campo. Foi um dos fatores primordiais para, na minha chegada, adaptar-me rapidamente».
DD: Ainda sobre essa 1ª temporada, na reta final, a equipa embalou numa série de 11 vitórias consecutivas, contando com as duas do play-off. Este ciclo vitorioso, foi aí que vocês sentiram que realmente era possível subir, fosse quem fosse o adversário no play-off?
Q: «Sim! Quando eu cheguei ao FC Arouca, fizemos alguns jogos e depois começou a 2ª volta. Nós fazíamos algumas contas para saber quanto é que faltava para chegar ao play-off e nós sabíamos o que teríamos que fazer. Cada jogo que passava, a gente tratava como uma final».
«Não importava se vencíamos só por 1-0, sabíamos o que queríamos, que era chegar ao 3º lugar para poder ir para o play-off. Independentemente do adversário que viesse, nós teríamos que fazer o nosso papel, que era ganhar. E, como falei, esse ano foi muito especial, porque praticamente deu tudo certo para nós e o que nós imaginávamos aconteceu».
«Na última jornada, com o Chaves, precisávamos de ganhar e conseguimos, acho que também foi um dos jogos que sabíamos que íamos conseguir a tão sonhada subida».
DD: Nessa sua 1ª temporada, disputada na pandemia, como é que foi disputar toda aquela temporada sem ninguém na bancada todos os jogos?
Q: «Aquele ano foi um ano difícil, mundialmente, muitas mortes. Quando se olha para a bancada e não se vê os adeptos, não há a sua energia passada para dentro de campo para nós nos sentimos mais confiantes, mais enérgicos. Ficamos um pouco mais abaixo na questão de energia, mas, ao mesmo tempo, nós sabemos que nós teríamos que fazer pelos adeptos, pela nossa família que estava em casa, a ver os jogos pela televisão. Sentimos a falta deles!»
«Eu ainda tenho aqui gravado no meu telemóvel um momento que me marcou também foi que, na reta final e na viagem de regresso de um jogo, os adeptos do FC Arouca estavam à nossa espera no portão do Estádio com sinalizadores e bandeiras. Foi muito bonito da parte deles, não se podia fazer, mas eles não deixaram de ir lá e de passar aquela mensagem para nós, porque eles estavam juntos».
«Foi um dos momentos marcantes, sem contar com o da subida também, porque quando voltamos, o autocarro parou várias vezes pelo concelho e os adeptos vinham atrás de nós. Quando nós chegamos ao centro da vila, eu tenho os vídeos no meu telemóvel até hoje e sempre que os vejo, arrepio-me pelo quão importante isso foi para a minha vida, para a minha carreira».
DD: Falando do regresso à Primeira Liga, a temporada 21-22 foi uma época dura, apertada, a manutenção foi conquistada já perto do final da época, muitos jogos complicados, também jogos com algumas baixas ainda por causa da pandemia. Mas também o seu segundo ano em Portugal, primeira temporada do Quaresma na Primeira Liga. Como é que viveram também toda essa temporada?
Q: «Foi um ano de afirmação. Manteve-se boa parte do plantel e depois foram chegando alguns jogadores para compor, para nos ajudar. Foi um ano difícil, um ano que conseguimos a manutenção nas últimas jornadas. Desportivamente, foi um campeonato bom a nível individual, poderia ser melhor, mas dentro de tudo que aconteceu, acho que foi um ano de afirmação positiva.»
DD: Falando desta terceira temporada, lá está, no arranque, há um golaço contra o Vitória SC. Na época como um todo, o Quaresma é titularíssimo, foram 41 jogos, e no fim, a festa da qualificação para as competições europeias. Pedia-lhe, lá está, que nos falasse um pouco de toda esta temporada e perguntava-lhe se considera que foi a sua melhor época da carreira individualmente e coletivamente também.
Q: «Eu acredito que sim. Essa época foi um Quaresma que estava pronto, tanto taticamente como fisicamente. Creio que foi uma temporada muito importante para mim. Essa temporada foi onde depois teve algumas sondagens, teve algumas propostas para eu sair».
«Novamente, foi um dos pontos marcantes da minha vida, conseguimos fazer uma grande campanha».
«Nós fizemos um grande campeonato, o treinador era o Armando Evangelista. Conseguimos colocar o FC Arouca nas competições europeias de novo. Fiquei muito feliz, foi um dos pontos que vou guardar no meu coração. Acredito que foi um ano maravilhoso».
Simão Duarte
Fotos Arquivo: FC Arouca

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