Hugo Amaral, presidente do CCR Vila Viçosa: «Dá muito trabalho, mas é um gosto trabalhar para que continue a existir»

O futebol português está repleto de clubes que são verdadeiros casos de estudo e o Vila Viçosa é decididamente um deles. Falamos de um clube (tal como o seu presidente Hugo Amaral, homem da terra, apontou) oriundo de uma aldeia, situada na União de Freguesias de Canelas e Espiunca, com apenas «80, 90 pessoas, se calhar pouco mais, mas todas elas de 40 e muitos anos, 50 para cima. Crianças têm pouquíssimas…».

E, ainda assim, desde a temporada 2017/18, quando regressou ao futebol distrital, mantém-se ininterruptamente em prova, enquanto outras equipas (especialmente as B’s/sub-23), de clubes sediados em maiores focos populacionais, vão desistindo aos poucos.

O Discurso Directo foi ao Campo de Jogos de Vila Viçosa para falar com o capitão Bruno Fonseca e o presidente Hugo Amaral, que nos receberam num palco cujo sintético ainda não foi estreado oficialmente, dado o grande incêndio que afetou a região em 2025, existindo a esperança cada vez mais viva de que existirá a estreia oficial na próxima época. Hugo Amaral, aos 42 anos de idade, lidera os destinos do CCR Vila Viçosa desde 2010, tendo conseguido, em 2017, fazer regressar o futebol à aldeia.

Discurso Directo (DD): Encontra-se na liderança da associação desde 2010, ou seja, já lá vão 16 anos disto. Para além disso, na época 17/18, o regresso do futebol. É preciso muito esforço pessoal e até mesmo financeiro para toda esta força de vontade de manter viva a associação e o clube?

Hugo Amaral (HA): «Claro, é preciso muito esforço. Não é só o meu, é de todos os meus colegas. Isto, com a parte do futebol desde 2017/2018, obviamente dá muito mais trabalho do que antigamente. Antigamente, manter a associação era uns torneios de sueca, jogar à malha, umas brincadeiras dessas. Era relativamente fácil.»

«Mas agora a parte do futebol dá-nos muito mais despesa, temos que esforçar-nos para arranjar patrocínios. Ajudamos os jogadores no gasóleo e pouco mais e não temos muitas condições para melhorar a situação. A parte do futebol dá muito trabalho, mas é um gosto trabalhar para que continue a existir.»

DD: O início da época passada não vos foi nada feliz, com o incêndio e as marcas do mesmo que ainda as vemos aqui e certamente ainda estão na vossa memória, especialmente na sua, pois sei que no dia do incêndio estava aqui a tentar contê-lo dentro dos possíveis. O clube ainda não pôde viver, infelizmente, o sonho de jogar aqui oficialmente uma partida. Como é que está todo este processo e o que mais está a ser preparado para a próxima época, em termos de estruturas?

HA: «(As últimas duas épocas) Foram bastante complicadas. Na 1ª fizemos os jogos e os treinos todos em Alvarenga. Desde logo, agradecer ao presidente (Luís) Filipe (Teles) e também ao agora presidente, o José (Mendes), pela disponibilidade de nos cederem as instalações.»

«Ano passado, como toda a gente sabe, aconteceu o que aconteceu, fizemos a inauguração e estávamos a contar já a fazer aqui a época tranquilos. Infelizmente tivemos que procurar outra vez outra casa. Fizemos o início da época em Alvarenga, embora os treinos fizemo-los todos aqui, em Vila Viçosa. Fizemos uns 4 ou 5 jogos em Alvarenga.»

«Depois, em conversa com a Direção e com a Associação (de Aveiro, AFA), perguntamos se poderíamos jogar em Nespereira, é muito mais perto. Parece que não, mas daqui a Alvarenga é 20 quilómetros ir e vir e daqui ao campo do Nespereira não chega a 5 quilómetros. Todos aceitaram.»

«Relativamente ao início da época, não começou assim muito bem. Acho que tínhamos equipas para ficar um bocadinho mais acima. Em conversações com o treinador (Jorge Cruz), acordamos a saída dele. Entrou o Carlos Duarte, o Vítor Diogo saiu de jogador, teve uma lesão relativamente grave e ficou como treinador-adjunto. Vão fazer a próxima época e também já posso adiantar que o João Traquina também vai continuar, na parte de treinador.»

«(Sobre a reparação do sintético) Na altura, disseram-nos que, no início do ano (2026), já havia condições para fazer a retificação, entretanto, o processo atrasou. Depois, em reunião com a Junta de Freguesia e o sr. responsável pelo sintético, disse-nos que não tinha relvado em stock. Isto, para ficar minimamente bem, tinha que ser algo igual. Entretanto, na comunicação com a fábrica que fez este relvado, foi o que nos disseram também, que não havia. Fazer a relva era relativamente fácil, o pior era o transporte, porque o sintético vem da China para cá.»

«O responsável pelo sintético disse-me que o transporte demorava cerca de 2 meses e está previsto chegar no dia 15 de junho e, logo 3 dias depois, vinha cá fazer o corte para retificar o que está estragado. A rede e os postes a Junta facultaram-nos, já está tudo reparado.»

DD: O que é que podemos perspetivar para a próxima temporada?

HA: «Quando assumimos, com gosto, o novo treinador (Carlos Duarte), o nosso objetivo era ele já fazer uma espécie de pré-epoca naqueles dois meses que esteve ao cargo e já também dar uma vista de olhos nos jogadores. O nosso objetivo é manter praticamente o plantel todo do ano passado porque, apesar dos resultados não serem os ideais, acho que tínhamos uma equipa para fazer mais um bocadinho.»

«Notou-se que, na parte final, pelo menos na parte defensiva, demos muito mais luta às equipas adversárias, porque se você for ver os jogos com as equipas que ficaram lá em cima, o único jogo assim mais desnivelado que tivemos foi este último em Mansores. Foi um jogo assim um bocado mais atípico, marcaram cedo, porque acho que o resultado foi um bocado desnivelado perante o jogo que foi.»

«Mas, de resto, perdemos alguns jogos, mas foram jogos equilibrados. Se tivéssemos um bocadinho mais de trabalho, se calhar mais um ou dois treinos, por exemplo.»

«O mister agora já conhece os jogadores, é tentar manter a maior parte do plantel, que é o nosso objetivo, e como o mister disse, a gente queria atacar os primeiros lugares. Sabemos perfeitamente que é muito difícil, mas o nosso objetivo vai ser lutar mesmo esse, tentar atacar os primeiros lugares.»

«As outras equipas têm outras condições que, se calhar, nós não temos, em termos de orçamento e a posição delas geográfica. Nós ficarmos aqui no cantinho de tudo, é muito mais difícil trazer para cá bons jogadores. Mas estou muito contente com os jogadores que tinha e o objetivo é manter a maior parte do plantel e tentar arranjar mais um ou dois reforços para colmatar o que o mister acha que deve ser colmatado.»

DD: Perguntava-lhe também acerca do interesse mediático, o Cândido Costa e a equipa do Canal 11 já aqui estiveram por duas vezes, a 1ª em terra batida, a 2ª já com sintético, mas pouco depois do incêndio. Só falta agora recebê-los num jogo oficial!

HA: «Na altura que ele esteve cá pela 2ª vez disse que tinha sido inédito, nunca tinha ido ao mesmo local duas vezes. Infelizmente, foi pelo que foi, esteve cá a fazer a reportagem connosco, com os Bombeiros (de Nespereira). Dá um outro impacto, visão ao clube. A gente só tem que aproveitar isso para tentar cativar o pessoal, porque o meu principal objetivo é que o pessoal que esteja cá a jogar que estejam contentes por cá estar.»

DD: A última pergunta tem a ver um pouco com isso. Se calhar, mesmo até as pessoas que viram essas reportagens do Cândido não têm bem a noção de todo este contexto. Falamos de uma aldeia remota, com pouca população no geral e pouca população jovem. O Vila Viçosa é um caso único….

HA: «Nós estamos a falar de uma aldeia que tem cerca de 80, 90 pessoas, se calhar pouco mais, mas todas elas de 40 e muitos anos, 50 para cima, não é? Crianças têm pouquíssimas. Por exemplo, a Presidente da Câmara falou-nos há muitos anos para nós criarmos uma equipa de crianças, mas é impossível. Mesmo juntando a freguesia toda, é muito difícil. Vila Viçosa fica a 20 e pouco quilómetros do centro (de Arouca), mesmo para arranjar atletas para os seniores, é complicado.»

DD: O vosso caso, mais do que encarar as dificuldades e sucumbir perante elas, fazem delas força….

HA: «O pessoal aqui de Vila Viçosa ajuda-nos bastante. É generoso e só tenho a agradecer, é claro, mas a gente tem que esgravatar por aí fora, para ter os patrocinadores, se não, sem os patrocinadores principalmente, e claro, a ajuda da Câmara e da Junta, é impossível mesmo ter futebol.»

Simão Duarte

Fotos: Pedro Gonçalves, RTP e Hugo Amaral

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Discurso Direto
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