O Pomar da Dona Antónia

A Dona Antónia vendia laranjas, era dona de um belo pomar, florido, vistoso e perfumado, diz quem se lembra que não havia laranjas como aquelas… Esperava pela altura certa para as colher, nem cedo nem tarde demais, sem pressas e quando as vendia estavam no ponto certo. Ganhou fama e respeito e foi assim, com amor e dedicação ao que fazia que criou os filhos, manteve a casa bem cuidada e teve uma vida honrada, de trabalho é certo mas com alguma recompensa, ainda conseguia pagar a um ou a outro que lhe pedia trabalho.

Aos poucos as vendas foram baixando… cortar e espremer uma laranja dava trabalho, era mais fácil comprar o sumo em pacote. Os mais novos não gostavam de descascar as laranjas, sujava as mãos, preferiam outro tipo de alimentos mais açucarados, mais instantâneos e até na cantina começaram a ter gelatinas e polpas de fruta muito mais cómodas de transportar e consumir.

A Dona Antónia viu o negócio a definhar e para não estragar as laranjas começou a oferecê-las, foi o pior que fez, as pessoas até queriam as laranjas mas já ninguém queria pagar por aquilo que era de graça. Aos poucos o pomar já não estava bem tratado como dantes e também já não podia dar trabalho a quem precisava, ela própria começou a ter dificuldades para sobreviver.

Um vizinho, rapaz novo e empreender sentiu que tinha ali uma oportunidade de negócio com as laranjas oferecidas e começou a vender salada de fruta, sangria e sumo de laranja espremido conforme a vontade do freguês. A própria câmara municipal começou a oferecer laranjas, não eram iguais às da Dona Antónia, mas eram laranjas.

Tempos mais tarde o negócio da Dona Antónia acabou por fechar e soube-se entretanto que na localidade os habitantes começaram a ter falta de vitamina C.

Assim vai a imprensa local, nacional e internacional, já ninguém quer pagar por aquilo que pode ter gratuitamente, on-line, mas exigem a mesma qualidade que tinham as laranjas da Dona Antónia.

Claro que os tempos mudaram e vão continuar a mudar, só que  não há milagres, nenhum negócio sobrevive se não vender os seus produtos. E quais são os produtos da imprensa local? São as notícias da sua terra, são os anúncios nas páginas de jornal.

Neste mês de Agosto, tempo de férias, faço questão de dar  as boas vindas aos portugueses que vivem e trabalham lá fora, as festas vão encher-se de emigrantes que regressam temporariamente para matar saudades da terra e já agora permitam-me um conselho, se conduzir beba um sumo de laranja, fresquinho, docinho do nosso Portugal.

Espero que nestas férias tenha a oportunidade de descansar , de se divertir e quem saber ler uma das nossas reportagens, no nosso jornal impresso, à sombrinha de um belo pomar.

sobre o autor
Margarida Ferreirinha Loureiro
Discurso Direto
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