O melhor lugar para criar um filho

Ter um filho muda muitas coisas. Muda quase tudo, atrevo-me a dizer. Incluíndo, a forma como olhamos para o lugar onde vivemos.

De repente, uma estrada já não é apenas uma estrada. É o tempo que demoramos a chegar a uma urgência. Uma creche deixa de ser apenas mais um equipamento e passa a ser a possibilidade de regressarmos ao trabalho sabendo que existe uma resposta para o nosso filho. Uma escola, um parque, uma atividade ao fim de semana ou um transporte público deixam de ser pormenores. Passam a fazer parte daquilo que procuramos no lugar que escolhemos para construir uma vida.

Durante anos habituamo-nos a discutir a perda de população do interior quase sempre da mesma forma: é preciso fixar jovens, aumentar a natalidade, atrair habitantes. São objetivos importantes, mas há uma pergunta anterior que talvez mereça mais atenção: estamos a criar condições para que seja realmente fácil construir aqui uma vida?

Portugal tem um problema demográfico que já não é novidade. Em julho deste ano nasceram 7566 crianças e, ainda assim, o saldo natural do país foi negativo em 1935 pessoas. Nasceram menos 236 bebés do que no mesmo mês do ano anterior. Entre 2021 e 2024, apenas 120 dos 308 municípios portugueses aumentaram o número de jovens. No mesmo período, 99 municípios perderam população em idade ativa.

A perda de população cruza-se com outro problema: menos pessoas significam também maior dificuldade em manter serviços, comércio, escolas e respostas de proximidade. É um ciclo difícil de quebrar. E não se quebra apenas com incentivos financeiros.

Uma família não decide onde viver por causa de um apoio recebido no dia em que nasce um filho. Essa decisão constrói-se nos milhares de dias que vêm depois.

É preciso conseguir trabalhar, ter casa, encontrar uma vaga na creche, chegar aos cuidados de saúde quando são necessários e saber que haverá uma escola, atividades e respostas à medida que a criança cresce.

É aqui que o interior tem, simultaneamente, uma enorme oportunidade e um enorme desafio. Porque há muito na vida fora dos grandes centros que pode ser extraordinário para uma criança. Há espaço. Há natureza. Há proximidade. Há comunidades onde ainda nos conhecemos pelo nome e redes familiares que, para quem tem filhos, fazem uma diferença difícil de traduzir em números. Há tempo que, em muitos casos, não é passado no trânsito. Há liberdade para brincar fora de casa. Há uma relação com os lugares e com as pessoas que é cada vez mais difícil encontrar em contextos urbanos. Não devemos ter receio de reconhecer estas vantagens. O erro está em achar que são suficientes.

E é  aqui que, para mim, a discussão sobre natalidade se cruza verdadeiramente com a discussão sobre desenvolvimento.

Acredito que a política de natalidade mais eficaz pode nem ter “natalidade” no nome. Pode ser uma política de habitação que permita a um casal jovem ter casa. Pode ser uma creche com vagas suficientes. Uma boa escola. Uma ligação rodoviária que retire meia hora a uma viagem. Pode ser uma programação cultural pensada também para crianças e jovens. Pode ser uma empresa que se instala e cria emprego qualificado. Pode, até, ser uma rua onde é possível andar com um carrinho de bebé.

Porque ter filhos não acontece isoladamente do resto da vida. E se queremos mais famílias nos territórios de baixa densidade, precisamos de olhar para todas estas decisões como partes da mesma política.

Falar de demografia não pode ser apenas contar quantos habitantes somos ou quantos perdemos. Tem de significar perguntar quantas famílias conseguem imaginar aqui os próximos vinte anos das suas vidas.

E esta pergunta importa a todos.

Quando nasce uma criança num território envelhecido, não nasce apenas um filho numa família. Nasce um futuro aluno para uma escola que queremos manter aberta. Uma criança para uma associação desportiva. Um jovem para uma coletividade. Um futuro consumidor no comércio local. Talvez um futuro trabalhador, empreendedor ou cuidador. Nasce alguém que poderá, um dia, decidir ficar.

Por isso, criar condições para as famílias não é apenas política social. É também política económica, educativa, de mobilidade e de desenvolvimento territorial.

Hoje olho, inevitavelmente, para o lugar onde vivo também através dos olhos do meu filho.

Quero que o meu filho cresça com aquilo que este território tem de melhor. Que conheça a proximidade, a liberdade, as pessoas e o sentimento de pertença que fazem parte de crescer aqui. Mas quero também que crescer aqui nunca seja sinónimo de ter menos.

Talvez seja esse o verdadeiro desafio para o interior: deixar de pedir às famílias que escolham entre qualidade de vida e oportunidades. Devemos poder ter as duas.

Porque, num país onde faltam crianças e em territórios onde faltam pessoas, criar um filho no interior não devia exigir uma dose adicional de esforço.

Devia ser uma vantagem.

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