
As eleições autárquicas de 12 de outubro não alteraram a liderança do executivo municipal de Arouca, mas deixaram sinais políticos que não podem ser ignorados. A reeleição de Margarida Belém para um terceiro e último mandato ocorre num contexto de erosão eleitoral do Partido Socialista, traduzida numa diferença de apenas 433 votos — a mais curta desde 2005 — e numa vitória da coligação Primeiro Arouca para a Assembleia Municipal.
Estes resultados evidenciaram não apenas um maior equilíbrio político no concelho, mas também a existência de duas visões distintas para o futuro de Arouca: uma ancorada na continuidade do modelo seguido nos últimos anos e outra associada a uma mudança prudente, sustentada e progressiva. Era, por isso, legítimo esperar que o primeiro Orçamento deste novo mandato refletisse, pelo menos em parte, a leitura política saída das urnas.
Tal expectativa não se confirma. O Orçamento Municipal para 2026 surge como a reafirmação de um modelo de governação excessivamente focado na gestão corrente, desprovido de ambição estratégica e incapaz de assumir opções políticas claras. Em vez de um documento orientado para o futuro, encontramos um Orçamento que adia decisões estruturais e evita escolhas que poderiam preparar o concelho para os desafios que se avizinham.
A forma como são tratadas as freguesias é particularmente reveladora. A abertura de rúbricas para obras essenciais com cabimentos simbólicos — em alguns casos de apenas 100 euros — não constitui um compromisso sério de execução, antes funcionando como um exercício formal que pouco diz às populações. Áreas como o saneamento básico ou a ampliação e requalificação de cemitérios continuam a ser secundarizadas, apesar de serem determinantes para a qualidade de vida, a dignidade coletiva e a coesão territorial.
Também nos domínios da economia local, da atração de investimento, da habitação e do apoio às famílias, o Orçamento revela fragilidades persistentes. Em matérias estruturantes como a mobilidade, a cultura ou a política de atração empresarial, continuam a faltar medidas concretas e uma visão integrada de médio e longo prazo. O Município parece resignar-se a gerir o presente, sem ousar desenhar o futuro. A boa gestão financeira deve estar ao serviço do desenvolvimento e da melhoria efetiva da vida das pessoas. Um Orçamento municipal não pode limitar-se a assegurar o funcionamento da estrutura administrativa; deve ser um instrumento político capaz de responder aos problemas reais do território. A este quadro acresce ainda um aspeto que não deve ser desvalorizado: o envio tardio da documentação para apreciação na Assembleia Municipal, limitando a análise crítica e o contributo responsável da oposição.
Este é o primeiro Orçamento de um novo ciclo autárquico, mas também o reflexo fiel de um ciclo político que se aproxima do seu término. Os arouquenses esperam, legitimamente, que os próximos anos tragam maior ambição, maior planeamento e uma visão mais clara para o concelho.

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