Essa tal Liberdade

Um desafio que Abril ainda nos coloca

Todos os anos por esta altura celebramos a Revolução de 25 de Abril de 1974. Fazemo-lo com cravos vermelhos ao peito, com cerimónias evocativas e com discursos que recordam um dos momentos mais marcantes da nossa história coletiva. É uma celebração justa e necessária. Afinal, foi nesse dia que Portugal recuperou a liberdade política, o pluralismo e a possibilidade de cada cidadão participar na construção do destino coletivo do país. Hoje votamos livremente, expressamos opiniões sem receio e participamos na vida pública de forma aberta. Hoje eu posso escrever e assinar este texto. Mesmo sendo mulher. Sobretudo sendo mulher. Essas são, sem dúvida, as maiores heranças de Abril.

Mas os valores que Abril nos trouxe são, muitas vezes, mais profundos e mais complexos do que aqueles que cabem numa cerimónia. A liberdade conquistada em 1974 não foi apenas o fim de um regime. Foi o início de um caminho exigente, que continua a desafiar-nos a refletir sobre o significado da democracia e sobre a forma como ela se concretiza na vida real das pessoas. E este desafio é particularmente visível em muitos territórios do interior do país.

Ao longo das últimas décadas, a perda de população e a falta de oportunidades económicas fizeram com que grande parte da atividade local passasse a depender direta ou indiretamente do setor público. Muitos empregos estão ligados ao Estado, às autarquias ou a instituições cuja sustentabilidade depende de financiamento público. Ao mesmo tempo, uma parte significativa da população depende de apoios sociais, pensões ou prestações públicas que são, naturalmente, essenciais para garantir dignidade e proteção social.

Nada disto é, por si só, negativo. O Estado Social é uma conquista da democracia e representa um avanço civilizacional que importa preservar. Os apoios sociais existem para proteger os mais vulneráveis e garantir que ninguém fica para trás. O problema surge quando, num território, a dependência se torna estrutural e quase inevitável. Quando as oportunidades económicas são tão escassas que a alternativa ao apoio público ou ao emprego ligado ao poder local não existe. Nessas circunstâncias, a liberdade política pode coexistir com uma realidade social mais complexa. A falta de alternativas económicas limita oportunidades, reduz a capacidade de fixar jovens e torna mais difícil construir um futuro coletivo assente na iniciativa, na inovação e no empreendedorismo. A verdadeira força da democracia reside, também, na capacidade das comunidades criarem riqueza, oportunidades e autonomia. Sociedades mais livres são, muitas vezes, aquelas onde existe uma base económica diversificada, onde as pessoas podem escolher caminhos diferentes e onde o futuro não depende apenas de uma ou duas estruturas institucionais.

Este é um debate que merece ser feito com serenidade e sentido de responsabilidade. Não para apontar culpados, mas para refletir sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para territórios como o nosso. Debater o desenvolvimento do interior deve ser encarado como um tema central para o futuro do país. Territórios como Cinfães têm recursos naturais, património, identidade e qualidade de vida que podem e devem ser valorizados. Mas isso exige visão, estratégia e políticas capazes de atrair investimento, apoiar empresas e criar emprego sustentável. Se queremos comunidades mais livres, verdadeiramente livres, precisamos de investimento. Só assim será possível reforçar aquilo que Abril nos trouxe de mais importante: uma cidadania livre, capaz de participar ativamente na vida democrática, com independência e confiança.

Recordar o 25 de Abril é, portanto, muito mais do que celebrar o passado. É, e tem de ser, assumir o compromisso de continuar a aprofundar a democracia em todas as suas dimensões: política, social e económica. É, e tem de ser, compreender que a liberdade conquistada em 1974 foi o ponto de partida. Mas o desafio das gerações seguintes é garantir que essa liberdade se traduz também em autonomia, oportunidades e futuro. É garantir que Abril chega, de forma plena, a todos os cantos do país.

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