O 25 de abril e os desafios da liberdade

Foram 48 os anos duros e cruéis que isolaram Portugal através de uma ditadura fascista que torturou e matou milhares de pessoas, aproveitando-se do medo para semear ódio e opressão, destruindo sonhos e cancelando projetos de vida.

Não vivi nessa época e não sei o que é viver sem liberdade. Não sei o que ser controlado ou não poder dizer o que penso. Não sei o que é, apenas por ser mulher, não poder votar, não poder viajar livremente ou ter o meu destino traçado por outros que não eu. Não sei o que é viver com medo ou ser torturada por pensar diferente. Não sei o que é não poder fazer um curso superior ou não conseguir aceder a cuidados de saúde -– só depois do 25 de abril foi criado o Sistema Nacional de Saúde e consagrado o direito à educação. Não sei o que é não poder pertencer a uma associação ou não poder defender causas comuns. Não sei o que é ter de pagar uma taxa para andar de bicicleta, não poder vestir o que quero ou não poder beber uma simples Coca-Cola. Não sei o que é não poder ler, ver ou ouvir o que eu quero, nem sei o que é ter pessoas ou palavras proibidas.

Felizmente nasci num país livre e é assim que quero continuar a viver.

Durante 48 anos foram milhares os portugueses que viveram aterrorizados num país onde os direitos humanos eram postos em causa, onde reinava a analfabetização e onde a liberdade de expressão e de discordância face ao regime instituído ou às opções políticas tomadas eram censurados e violentamente punidos. É com profunda tristeza que ouço as histórias de quem viveu esses tempos de sofrimento, tortura, repressão e pobreza, provocados por um fascismo que se alimentava de ódios e divisões, que reprimia quem pensava diferente e via as mulheres como meras donas de casa, submissas aos pais ou maridos. Por outro lado, e como sempre tive orgulho e valorizei as lutas e as conquistas de todas as mulheres e homens que se esforçaram para alcançar a liberdade que agora temos, assusta-me o que vejo acontecer em Portugal e no mundo, sobretudo com o reaparecimento de extremismos que estavam adormecidos e querem normalizar comportamentos que condicionam liberdades e direitos que damos por garantidos.

Hoje, o discurso do ódio, a discriminação, a violência, o racismo e a agressão crescem de forma assustadora, revelando a nossa incapacidade para uma vivência diária assente no respeito e na tolerância, ameaçando a liberdade de cada um e os mais elementares direitos humanos. Liberdade de expressão não é liberdade de discriminação ou agressão.

Se o povo é, efetivamente, “quem mais ordena”, então todos somos responsáveis pelo atual sistema democrático em que vivemos e, como tal, temos o dever de cuidar uns dos outros, sem distinções ou discriminações, quaisquer que sejam as características de cada um, desde a classe social, ao género, à orientação sexual, etnia, nacionalidade, confissão religiosa ou outra, honrando as conquistas alcançadas e preservando valores e princípios de defesa da democracia, da liberdade, do respeito e da justiça social.

Passam 50 anos daquela “(…) madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo.”, como dizia Sophia, e hoje, mais do que nunca, é hora de nos fazermos ouvir, de lutarmos e gritarmos bem alto pela defesa da liberdade e da democracia. Não é apenas quando se perde(m) liberdade(s) que devemos lutar por ela(s), é quando a(s) temos que a(s) devemos honrar, valorizar e defender.

Espalhemos pelo mundo os valores que abril nos trouxe e aproveitemos para falar de sonhos e de esperança. Expliquemos às crianças o que é viver em liberdade. Mostremos aos jovens que vencemos o fascismo com a força das nossas convicções. Partilhemos com todos a felicidade que é viver numa sociedade que respeita e valoriza a diferença, que acolhe todos de igual forma, que é justa e solidária na forma como trata as suas pessoas.

 

Hoje, como ontem, lutemos por um Portugal livre, justo e democrático!

A responsabilidade é de todos.

25 de abril sempre!

sobre o autor
Ana Isabel Castro
Discurso Direto
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