Um ano depois

Os incêndios florestais são, infelizmente, um tema recorrente nesta coluna. Ao longo dos mais de dez anos em que escrevo neste espaço, foram vários os verões em que aqui regressei para lamentar um território novamente fustigado pelas chamas e para reconhecer o trabalho daqueles que, em cada incêndio, tudo fazem para proteger pessoas, habitações e património. Perdoe-me o leitor por não fazer essa contabilidade. Talvez porque seja difícil aceitar que tenhamos de continuar a fazê-la.

Ainda há um ano Arouca era notícia por ser um dos municípios atingidos por um dos grandes incêndios que lavravam no país. Vimos novamente floresta consumida pelas chamas, populações ameaçadas, bombeiros num combate desigual e parte dos Passadiços do Paiva destruída. Passado apenas um ano, Arouca voltou às notícias nacionais pelas mesmas razões. Desta vez foi outra zona do concelho. As imagens do Avelino Vieira, amplamente partilhadas nas redes sociais e reproduzidas pelos canais de televisão, mostraram de forma particularmente impressionante o contraste entre o antes e o depois. Onde tínhamos uma paisagem verde, reconhecível e nossa, ficaram extensas manchas negras que nos recordam, uma vez mais, a dimensão daquilo que o fogo consegue levar em poucas horas.

Mas, desta vez, o incêndio esteve muito perto de nos retirar algo que nenhuma reconstrução permitiria alguma vez recuperar. O acidente com uma viatura dos Bombeiros Voluntários de Arouca, quando quatro operacionais se encontravam envolvidos no combate às chamas, transformou aqueles dias num drama que ultrapassou o próprio incêndio. As circunstâncias do despiste, as dificuldades sentidas no socorro por via das características do terreno e, sobretudo, a gravidade dos ferimentos deixaram uma comunidade inteira com o coração apertado. Se no ano passado lamentávamos sobretudo a destruição da nossa floresta, da paisagem e de bens materiais, este ano fomos confrontados com a terrível possibilidade de o fogo nos poder retirar vidas humanas.

Permita-me o leitor uma palavra particularmente pessoal para o Pedro Bastos. Não apenas por ser, entre os quatro bombeiros feridos, aquele cujo estado de saúde mais preocupação tem suscitado, mas porque o Pedro é meu amigo e colega na Assembleia Municipal e, sobretudo, porque é uma pessoa que Arouca conhece. Quem com ele se cruza reconhece-lhe o espírito cívico, o voluntarismo, a dedicação às causas que abraça e uma disponibilidade permanente para servir os outros. Características que encontramos no Pedro, mas que são também representativas do espírito de missão que reconhecemos nos nossos bombeiros.

Quem tem percorrido o centro de Arouca nestes últimos dias percebe que há algo diferente. Sente-se preocupação, tristeza e ansiedade, mas também uma extraordinária união em torno dos bombeiros feridos e, muito particularmente, do Pedro. Multiplicam-se as mensagens, os gestos simbólicos, as manifestações de solidariedade e de fé. É uma comunidade que espera.

Haverá tempo, naturalmente, para perceber o que falhou, aquilo que podemos fazer diferente e o que dois grandes incêndios em anos consecutivos nos obrigam a repensar. Continuaremos a ter de discutir a prevenção, o ordenamento e a gestão da nossa floresta, a proteção das populações e os meios que colocamos à disposição daqueles que estão na primeira linha do combate. São discussões necessárias e que não podem, como tantas vezes acontece, desaparecer quando chegam as primeiras chuvas e o verão fica para trás. E também para essa discussão precisamos do Pedro. Quem conhece a sua intervenção na Assembleia Municipal sabe o quanto estes temas lhe dizem e o contributo que tem dado para pensar o nosso território e o futuro do nosso concelho.

Mas haverá tempo para essa reflexão. Agora, a prioridade são as pessoas.

Que todos regressem. E que regressem bem.

Artur Miler

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