
Até os leitores menos atentos se aperceberam, certamente, do tanto que deu que falar nas últimas semanas em Cinfães a construção de uma casa para decorar uma rotunda. E se há discussões que acabam depressa, outras ficam porque nos obrigam a pensar. Esta teve esse mérito: levou muitos Cinfanenses a discutirem o concelho onde vivem. E isso é sempre positivo.
Mas talvez a discussão mais importante ainda esteja por fazer. Se queremos falar de casas, então olhemos para os números.
Entre 2001 e 2021, o número de alojamentos em Cinfães passou de 11.555 para 12.143. São mais 588 alojamentos em vinte anos. Um crescimento de apenas 5,09%.
À primeira vista, o número pode parecer positivo. Afinal, o parque habitacional aumentou. Mas a comparação com os restantes municípios da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Tâmega e Sousa conta uma história diferente.
Dos 11 municípios da CIM, Cinfães é apenas o 9.º em crescimento do número de alojamentos. Só Resende (4,21%) e Baião (3,56%) registaram uma evolução inferior. Todos os restantes cresceram mais. Muito mais, em alguns casos.
Enquanto Cinfães aumentou o seu parque habitacional em 5,09%, Marco de Canaveses atingiu 14,07%, Penafiel 15,64%, Paços de Ferreira 20,96% e Lousada, que lidera a tabela, 22,34%. Traduzindo estes números para outra perspetiva, o parque habitacional de Lousada cresceu a um ritmo mais de quatro vezes superior ao de Cinfães.
Não significa, naturalmente, que todos estes concelhos sejam comparáveis. Uns têm maior densidade populacional, outros uma realidade económica distinta ou uma localização mais favorável. Mas todos pertencem à mesma Comunidade Intermunicipal. Todos tiveram acesso aos mesmos grandes instrumentos de financiamento europeu. Todos enfrentaram, em maior ou menor grau, o desafio da desertificação do interior e da necessidade de atrair população.
No entanto, se olharmos para municípios com características territoriais mais próximas da nossa realidade, mesmo esses apresentam valores significativamente superiores: Celorico de Basto cresceu 11,40% e Castelo de Paiva 8,85%. Não estamos perante pequenas diferenças estatísticas. Estamos perante ritmos de desenvolvimento distintos. E isso obriga-nos a fazer perguntas.
O que explica que Cinfães tenha registado um dos crescimentos habitacionais mais reduzidos da sua comunidade intermunicipal?
Sem oferta habitacional, torna-se mais difícil fixar pessoas, atrair famílias ou captar investimento. Uma casa não resolve, por si só, o problema demográfico de um concelho. Mas um concelho que oferece poucas oportunidades de habitação dificilmente conseguirá inverter esse problema.
Os dados mostram que, durante vinte anos, Cinfães aumentou o seu parque habitacional em apenas 588 alojamentos, menos de 30 casas por ano.
A questão que fica é simples.
É este o ritmo de que Cinfães precisa para enfrentar os desafios das próximas décadas?
Talvez seja esta a grande oportunidade que nasceu de uma polémica aparentemente pequena. Durante alguns dias discutimos uma casa. Talvez tenha chegado o momento de discutir todas as outras. As que existem. As que faltam.
Ana Leitão

O envio da nossa newsletter é semanal.
Garantimos que nunca enviaremos publicidade ou spam para o seu e-mail.
Pode desinscrever-se a qualquer momento através do link de desinscrição na parte inferior de cada e-mail.