
Começo realmente a soar como um disco riscado, sempre a voltar ao mesmo tipo de críticas. Mas serei eu a implicar?
Curiosamente, os meus vizinhos também soaram durante anos – décadas, até – como um disco riscado. «Se um dia acontecer alguma coisa e for preciso uma ambulância…», repetia-se vezes sem conta.
Este mês, esse dia chegou.
Um homem com pouco mais de 40 anos sentiu-se mal em casa, numa zona de Souselo onde os acessos não permitem a passagem de uma ambulância, e acabou por morrer, como noticiamos nesta mesma edição.
É um caso particularmente próximo de mim. Aconteceu na minha rua e assisti a praticamente todo o desenrolar da situação. Talvez por isso me custe ainda mais compreender o silêncio que se seguiu.
Como é que ninguém fala disto?
Não se trata de transformar a morte de uma pessoa numa guerra de acusações, muito menos de aproveitar a dor de uma família. Mas há uma diferença entre explorar uma tragédia e fingir que nada aconteceu.
Em comunidades locais como as nossas, os responsáveis políticos estão entre as pessoas com mais voz. Essa voz também deve servir para levantar problemas, pedir esclarecimentos e procurar respostas. E tiveram oportunidade de se pronunciar e… nada? Do executivo em funções, da oposição, da Junta de Freguesia… NADA?!
E nem falo apenas da política. Fora dela, como é que um caso tão grave fica reduzido às conversas entre vizinhos e, passado pouco tempo, parece já não incomodar mais ninguém?
Durante anos, ouviu-se naquela rua a mesma pergunta: «E se um dia for preciso uma ambulância?». O dia chegou. E o que mais me custa aceitar é que, depois disso, o disco riscado se tenha partido e todos pareçam ter ficado sem nada para dizer.

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