
Há obras que se fazem. Há obras que se inauguram. E depois há a ligação da EN222 à A32, que durante décadas foi inaugurada apenas em discursos.
Em Castelo de Paiva, cresceu uma geração inteira a ouvir que “agora é que vai ser”. Mudaram os governos, mudavam os ministros, mudavam os presidentes de câmara, mudavam as cores políticas, mas havia uma coisa que permanecia inalterável: a promessa.
Era quase um ritual. Sempre que havia eleições, lá reaparecia a estrada. Surgia nos programas eleitorais, nos debates, nas visitas oficiais e nas fotografias com capacete branco. Terminadas as eleições, desaparecia novamente na gaveta das prioridades adiadas.
Enquanto isso, os habitantes continuavam a fazer curvas, quilómetros e perder tempo. As empresas viam os custos aumentar, os investidores hesitavam e os jovens continuavam a sentir que viver no interior significava estar mais longe de tudo. Não por culpa da distância, mas por culpa da falta de vontade política.
Durante mais de três décadas disseram-nos que era uma obra essencial. Se era assim tão essencial, porque esperou tanto tempo? Quantas oportunidades ficaram pelo caminho? Quantos investimentos escolheram outros destinos? Quantos trabalhadores perderam horas de vida em deslocações?
O mais curioso é que todos reivindicam agora a paternidade da obra. Parece que, de repente, ninguém adiou.
Mas a verdade é simples: uma obra destas não deveria ser motivo de festa; deveria ser motivo de reflexão.
É justo reconhecer cada passo dado rumo à concretização. Mas também é justo recordar que as populações não vivem de anúncios, vivem de resultados. O alcatrão chega sempre demasiado tarde para compensar décadas de isolamento.
Esperemos, por isso, que desta vez o som das máquinas substitua finalmente o eco das promessas. Que os comunicados deem lugar às escavadoras.
No dia 29/06/2026, nas Lavagueiras, ouviram-se finalmente as máquinas a trabalhar. Um som que, para muitos, valeu mais do que anos de comunicados, conferências de imprensa e promessas sucessivamente adiadas. É um sinal que a população há muito esperava e que alimenta uma esperança legítima: que desta vez a obra avance sem interrupções, sem novos impasses burocráticos e sem voltar a cair no esquecimento.
Contudo, importa não confundir o início dos trabalhos com o cumprimento da promessa. As promessas políticas não se cumprem quando entram as máquinas em obra; cumprem-se quando a obra está concluída, aberta ao trânsito e a servir as populações. O primeiro passo é importante, mas não é a meta.
Depois de tantos anos de espera, ninguém compreenderia que esta empreitada se arrastasse por mais uma década. As pessoas não esperaram mais de trinta anos para assistir a mais dez anos de trabalhos, atrasos e justificações. Esperam, legitimamente, uma execução contínua, eficiente e dentro dos prazos estabelecidos.
Porque estradas não aproximam apenas terras. Aproximam pessoas, oportunidades e futuro.
Paulo Soares

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