Jantar de Natal do PCP Arouca com discurso de Álvaro Couto

PCP Arouca realizou o seu jantar de Natal no dia 26 de Dezembro, num restaurante da Vila. Momentos de convivo que encerram habitualmente com um discurso político. Este ano Álvaro Couto, que foi candidato à junta de freguesia de Fajões   fez um discurso sobre a actual situação politica e social que comparou com o acidente no Estádio da Luz em Lisboa, em 2014, nesse dia fortes rajadas de vento provocaram o levantamento de várias placas da cobertura, felizmente apenas houve danos materiais porque o recinto já tinha sido evacuado.

Publicamos o texto de Álvaro Cunha na íntegra, sendo que o conteúdo é da inteira responsabilidade do autor

“PRESSÁGIOS 2025

Há 16 anos atrás, (lá vem sempre a História atrás de nós) publiquei um texto com o título
«Presságios», no blogue CDU/AROUCA Trago-o aqui novamente, pois o assunto se
mantém atual. Na altura, a circunstância era a propósito de uma tempestade que entretanto
se abatia lá do alto, da cobertura do estádio da Luz, onde o vento começava por empurrar
farrapos em lã de rocha sobre o relvado e, pouco depois, os farrapos eram já brilhos de
estrela a cintilar caindo do céu, a lembrar bonecos de peluches, imitando águias ou leões
que desciam em rajadas. Nesse domingo, saindo da casa de sonhos do estádio, não vinha
o futebol, áspero, másculo, bairrista, do derby lisboeta. Apenas, chegava um temporal dos
diabos a ensopar-nos de chuva e vento até à medula. Porém, nem isso desmobilizou das
bancadas a respectiva paisagem humana que, eufórica e impaciente, se foi maravilhando,
durante quase uma hora, com os olhos postos lá em cima. Lá em cima, era o esplendor do
tecto do estádio, tão perto do céu, para onde todas as cabeças se viravam, como no ralo
duma espécie de confessionário público. Cinquenta mil papalvos, numa casa de sonhos,
olhando felizes para cima e assobiando distraídos para o lado, com a imaginação a arder.
Foi assim que a Benfica/TV nem precisou de sair dos caminhos das bancadas da Luz para
nos mostrar a nudez ou impor a transcendência da alma lusa, ao confrontar a evidência de
mais uma desgraça nacional.
Na mesma noite, já o próprio primeiro-ministro (Passos Coelho) nos tinha preparado para as
falsas ideias de desmoronamento do país, que alguns andavam para aí a espalhar há anos.
Dizia ele, na altura, que se quisermos reagir aos arautos da desgraça, «era preciso que
mudássemos o chip das mentalidades». E, depois de ter sido substituído, ainda veio dizer
que depois dele regressaria o diabo. Eis, a mais profunda mixórdia entre a política, a
psicologia e psiquiatria, a moral, a ética e a religião. Uma aparente confusão dos diabos que
nos tem levado aos campos do extermínio – desde o dito liberalismo, a aparente social-
democracia, o  auto proclamado socialismo «democrático» até aos velhos fascismos.
Agora, o Pavilhão de Portugal enche mais uma vez as máquinas de sonhos das
claques ligadas às esquerdas e direitas ( ou seja, aos cachecóis vermelhos e verdes) ao
luar e ao vento. Aprovam agora os europeístas, mais de 90 de mil milhões de empréstimos
para a guerra, junto aos ouvidos dos rivais, que estão sentindo a mesma emoção dos que
passam sob a pala de Portugal, «a obra impossível» desenhada por Siza Vieira. Dizem
eles, que quando isso acontece, se sente uma espécie de «medo feliz». O medo de que a
pala possa cair, mesmo sabendo que não se tratando de uma obra de engenharia tão
genial como a do estádio da Luz (até sabendo nós que a pala sofre, actualmente,
infiltrações de água por todo o lado), ela nunca cairá, pois os usos e fundos congelados aos
russos que acabará, finalmente, por pagar isto tudo, nem que seja de forma ilegal.
Na bancada vip, também o primeiro-ministro sonha que neva numa estância de
inverno transalpina e ele está esquiando. Porém, como o que tomba do céu engrossa cada
vez mais, Montenegro projecta reforçar a defesa e a segurança, e que depois de
vertiginosas descidas das taxas de juro, em telas de lã de rocha, com os gurus dos
mercados bolsistas lançando-se, montanha abaixo, em prova de slalom gigante, ainda será
o russo que paga o projectado pacote laboral, o empobrecimento das famílias, das escolas,
do Serviço Nacional de Saúde, e das pequenas e médias empresas.
Entretanto, na mesma bancada, o rosto de António Costa enche a máquina de
sonhos da senhora Van Der Leun. A lã de rocha, caindo do céu da Europa, não é senão
que uma exposição naturalista dos famosos enquadramentos financeiros da Comissão

Europeia. Toda a sua colecção impressionista, despenhando-se assim das alturas, para o
ar livre, revelando ao público, finalmente, o milagre da sua observação e do seu desenho.
Exposição de finanças públicas e privadas impressionista e ultra modernista, há tanto tempo
desejada, quase palpável, quase relevo, ancorando-se aos pés, não de algum FMI, mas do
povo europeu que vai pagar pelo espectáculo da guerra que vai custar mais milhares de
vidas e mais de 90 mil milhões de euros, que assim vai e irá.
Entretanto, há sempre três enormes chapas de zinco a encher o ecrã, despertando
um mundo que, sentindo esse medo feliz, afinal se encontra tranquilamente sentado,
debaixo de uma pala, a sonhar Índias, a admirar quadros financeiros e a assistir aos altos e
baixos das taxas de juros das dívidas e de cada inflacção nacional. Essas três chapas
chamam-se – Trump; Putin; Zelenski.
Por maldade ou azar, a primeira chapa metálica já encontrou duas pela frente,
encostadas inofensivas à procura de sobreviver nos destroços de um embarcação à deriva
e manda-as matar; os outros dois,quanto mais vidas encontram, mais eles ceifam.
Entretanto, uma coisa já se sabe: a guerra na Europa vai continuar . . . e   mais guerra virá
lá para os lados da América do Sul . . . e melhor não se anuncia (antes pelo contrário) ao
que está a acontecer no médio- oriente (guerra Israel/Palestina/Irão) e nos vários conflitos
africanos.
Os papalvos, a começar pela ONU, parece que ainda não se aperceberam das eventuais
consequências da tragédia anunciada. As pessoas estão malucas. Os tempos estão a
mudar.
O árbitro, António Guterres, no balneário, que também esteve a sonhar durante esse tempo
todo, lá espreitou à janela, onde lhe chegou a notícia de mais desmoronamentos iminentes,
cabendo-lhe desligar então a casa de sonhos da ONU.
O derby do capitalismo afundou-se, de vez, ao fim dos recentes anos.
Nem o capital, investido de todo o seu Poder, escapa à evidência destes tempos.”

Foto: Correio de Azeméis

 

sobre o autor
Margarida Ferreirinha Loureiro
Discurso Direto
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