
Todos os dias ouvimos falar de liberdade. Seja por consideramos que não a temos na totalidade, seja porque acreditamos que alguns a têm em excesso. Mas, afinal, será que sabemos realmente o que é a liberdade?
Aproxima-se a celebração do dia mais bonito da nossa história, o 25 de abril de 1974 ou o Dia da Liberdade, um dia histórico que marca a fim da opressão e a entrada de Portugal numa democracia.
Após a queda do regime fascista que vigorou no nosso país durante quase 50 anos, assistimos, como consequência da Revolução dos Cravos, ao fim da tirania e à libertação de presos políticos que haviam vivido durante longos anos sob a égide da tortura e da repressão. Os portugueses foram perseguidos, espancados e aterrorizados por largos anos, num país onde o direito de reunião, de associação ou de liberdade de expressão e discordância face ao regime instituído eram censurados e violentamente punidos. A população portuguesa, para além desta falta de liberdade para se associar ou exprimir livremente, vivia situações graves de pobreza, com a falta de cuidados de saúde, dificuldades no acesso à habitação com condições dignas ou a impossibilidade de aceder ou prosseguir um percurso escolar que lhes trouxesse novas e melhores oportunidades. Vivemos, em Portugal, longas décadas de uma ditadura fascista que matou e torturou milhares de pessoas, seja em Portugal ou nas ex-colónias para onde eram enviados grande parte dos nossos jovens rapazes, alguns dos maiores e melhores ativos deste país que eram atirados para uma guerra que ninguém conseguia compreender, principalmente aqueles que eram forçados a ir sem saber se um dia regressariam, adiando sonhos e projetos de vida futuros.
Foi abril de 1974 que nos garantiu as liberdades de expressão, de associação ou de imprensa, bem como o acesso ao sufrágio universal. Foi este abril que nos trouxe a liberdade para viver mais dignamente, com acesso a cuidados de saúde para todos e a uma educação com respostas para todas as crianças. A Escola Pública, como hoje a conhecemos, permitiu iniciar um duro combate contra o analfabetismo crónico que se vivia até então, apostando na literacia como um direito universal. Mas o 25 de abril também nos trouxe outra liberdade, a liberdade dos direitos para os trabalhadores que passaram a ter acesso a um sistema de proteção social e um Salário Mínimo Nacional. É também a partir deste momento que é criado o Serviço Nacional de Saúde, um mecanismo inovador capaz de proporcionar o acesso a cuidados de saúde que passaram, assim, a estar ao alcance de todos, principalmente daqueles que menos tinham. Mas estas foram apenas algumas das conquistas que este extraordinário abril nos deu e que ainda hoje são referências daquele que é um Estado Social que tem o dever de cuidar e proteger os seus.
O 25 de abril de 1974, assente na coragem de muitos homens e mulheres que lutaram com as suas vidas para nos devolverem a liberdade, deu-nos a possibilidade de viver condignamente, quebrando a opressão e a repressão que Portugal enfrentava até então, permitindo-nos assumir uma trajetória de crescimento e desenvolvimento capaz de proporcionar o início da construção de projetos de emancipação justos e dignos para toda a população.
Agora, 48 anos depois deste histórico dia 25 de abril, cabe-nos a árdua tarefa de honrar as conquistas do passado e de continuar a lutar, em conjunto, pela defesa da democracia, da liberdade, do respeito e da justiça social. É imperativo que sejamos capazes de construir uma visão de esperança e de sonho, alicerçada na coesão, na união e na confiança na nossa capacidade transformadora.
Hoje, a desinformação e as fake news proliferam a uma velocidade vertiginosa, o discurso do ódio, a discriminação, a violência e o racismo crescem de forma assustadora, revelando a nossa incapacidade para uma vivência diária assente no respeito e na tolerância, ameaçando a liberdade e os mais elementares direitos humanos.
Se o povo é, efetivamente, a base da democracia, então todos nós somos responsáveis pelo atual sistema democrático em que vivemos porque somos membros de um todo, partes de um coletivo que tem o dever de cuidar de todos os elementos da sua comunidade, sem limitações, distinções ou discriminações, quaisquer que sejam as características de cada um, desde a classe social, ao género, ou à sexualidade, raça, etnia, nacionalidade, confissão religiosa ou outra.
Importa, então, termos uma ação potenciadora de liberdade(s), de democracia e de justiça, contribuindo para uma verdadeira afirmação da cidadania e do respeito pelo outro. Que sejamos capazes de honrar as conquistas do nosso passado e preservar o seu legado, valores e princípios num presente que se torne futuro.
Existe uma enorme necessidade de refletirmos e agirmos em conjunto, de aprendermos com o passado, de ensinarmos às nossas crianças e jovens o que fomos e continuamos a ser capazes de fazer enquanto país, para podermos continuar a trabalhar para a construção de uma visão e ação plurais e potenciadoras de liberdades, de coesão, de justiça e de solidariedade, contribuindo para uma verdadeira afirmação da liberdade e da democracia.
Se aquele foi “O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo”, como escreveu Sophia de Mello Breyner, que mantenhamos a esperança de continuar a acordar num país repleto de esperança, liberdade e democracia.
Continuemos, juntos, a lutar pelos valores que abril nos trouxe.
Hoje, como ontem, lutemos por um Portugal melhor!
A responsabilidade é de todos.

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