
As acessibilidades voltaram a ganhar força no debate político e institucional em Cinfães, com o presidente da Câmara, Carlos Cardoso, a reunir-se em Lisboa com o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, e com Luís Soares, dirigente socialista e presidente do grupo municipal do PS, a levar ao 25.º Congresso Nacional do PS uma moção centrada na prioridade ao interior e no reforço da mobilidade.
Na reunião com o ministro, Carlos Cardoso colocou em cima da mesa a necessidade de intervenção nas principais vias do concelho. Segundo a nota divulgada pelo município, foram abordadas a EN222, a EN225, a EN321 e a EN211, tendo sido entregue um relatório técnico sobre o estado de conservação destas estradas, com identificação de necessidades urgentes, sobretudo ao nível do pavimento e da sinalização.
No mesmo encontro, o autarca apresentou ainda uma proposta para uma nova ligação entre Mesquinhata e a Barragem de Carrapatelo, que permita ligar Cinfães à A4 e reforçar a acessibilidade do território. A Câmara sustenta que se trata de uma solução estratégica para aproximar o concelho, atrair investimento e ajudar à fixação de população. De acordo com a informação tornada pública, Miguel Pinto Luz assumiu também o compromisso de visitar brevemente Cinfães.
Em paralelo, Luís Soares apresentou no 25.º Congresso Nacional do Partido Socialista, que decorreu entre os dias 27 e 29 de março, em Viseu, a moção setorial “Interior sem acessos não tem futuro”, documento que defende uma mudança de prioridades nas políticas públicas para os territórios do interior. Em declarações ao Discurso Directo, o dirigente socialista considerou que Cinfães é um exemplo claro das dificuldades que persistem em muitos concelhos de baixa densidade, com prejuízos diretos para as populações, para as empresas e para o desenvolvimento económico e social.
Luís Soares entende que o concelho sempre esteve unido na reivindicação por melhores acessos, mas sublinha que este é um problema que ultrapassa Cinfães e atinge todo o distrito de Viseu e o interior do país. Nas declarações prestadas ao Discurso Directo, defendeu que as acessibilidades continuam a ser uma condição essencial para fixar pessoas, captar investimento e criar emprego.
Questionado sobre a convergência política em torno deste tema, Luís Soares reconheceu a centralidade do problema, mas deixou críticas ao PSD, acusando o partido de ter usado o tema das acessibilidades como bandeira política sem que isso se tivesse traduzido em melhorias concretas quando esteve ou está em posição de poder. Nas declarações ao Discurso Directo, apontou mesmo o dedo ao ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, afirmando que a sua deslocação a Cinfães, em período eleitoral, serviu sobretudo para fazer campanha, sem trazer respostas concretas para os problemas do concelho. O dirigente socialista sustentou ainda que o executivo municipal liderado pelo PS tem procurado resolver problemas concretos, contrapondo essa atuação ao que classificou como falta de resposta prática por parte dos social-democratas.
O dirigente socialista admitiu, no entanto, que o problema das acessibilidades se arrasta há anos e que tanto PS como PSD, quando tiveram responsabilidades governativas, não conseguiram resolver de forma definitiva as fragilidades do concelho nesta matéria. Na sua perspetiva, isso ajuda a explicar porque continua a existir um fosso entre o litoral e o interior, com custos acrescidos para famílias e empresas instaladas em territórios como Cinfães.
Entre as propostas defendidas na moção apresentada por Luís Soares estão a aceleração dos investimentos já previstos, a reavaliação das prioridades de investimento em favor dos territórios de baixa densidade, a aplicação de critérios de discriminação positiva na distribuição de fundos nacionais e comunitários, o reforço da rede rodoviária e a integração do interior na estratégia ferroviária nacional.
Na prática, Luís Soares defende que essa discriminação positiva deve traduzir-se em apoios concretos às empresas e às famílias, compensando os custos acrescidos de viver e investir no interior. Só assim, sustenta, será possível combater as assimetrias territoriais e criar condições reais para travar a perda de população.
Do lado do PSD, Ana Leitão considerou, em declarações ao Discurso Directo, que a necessidade de melhorar os acessos é evidente, mas deixou críticas ao momento escolhido pelo executivo para avançar com esta iniciativa. A social-democrata sustentou que estas reivindicações são justas e necessárias, mas sublinhou que não são novas e estranhou que a reunião com o ministro só tenha acontecido agora, depois de o tema ter voltado à Assembleia Municipal e quando outros municípios vizinhos já tinham promovido contactos semelhantes.
Ana Leitão referiu ainda que o PSD não conhece em detalhe aquilo que foi efetivamente discutido ou entregue na reunião, para além da informação tornada pública, lamentando que a oposição não tenha tido acesso a esses elementos. Ainda assim, sustentou que, no que toca às acessibilidades e infraestruturas da responsabilidade do Estado central, existe alinhamento entre os dois maiores partidos do concelho, lembrando até a aprovação de uma moção conjunta sobre esta matéria.
A divergência, segundo Ana Leitão, surge sobretudo na visão estratégica mais ampla para o território. O PSD defende que, a par da pressão sobre o Governo para intervir nas estradas nacionais, o município deve olhar com mais atenção para as acessibilidades internas e para a rede viária municipal, argumentando que também aí persistem carências e tempos de deslocação elevados dentro do próprio concelho.
A coincidência entre a iniciativa institucional liderada por Carlos Cardoso junto do Governo, a ofensiva política levada por Luís Soares ao Congresso socialista, realizado entre 27 e 29 de março, em Viseu, e a concordância assumida pelo PSD quanto à urgência de reforçar as acessibilidades volta, assim, a colocar este dossiê no centro das reivindicações de Cinfães. Se, por um lado, há alinhamento quanto à necessidade de pressionar o Estado central para intervir nas principais vias do concelho, por outro mantêm-se diferenças na leitura política do processo e na visão estratégica para o território, sobretudo no que toca ao peso a dar também às acessibilidades internas. Ainda assim, a melhoria das ligações continua a surgir como condição decisiva para a segurança, o investimento e o futuro do concelho.
Fotos: Município de Cinfães; Luís Soares
Pedro Gonçalves

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