“Eu sei que as pessoas podem ter receio, é um meio pequeno, não tenham medo porque vivemos em democracia”

Nascido e criado em Arouca, Pedro Bastos, do CDS, é certamente o Deputado da Assembleia Municipal de Arouca com presença mais marcante e interventiva. Sabe do que fala porque conhece os assuntos, vai aos locais, ouve as pessoas, sente na pele os problemas e também porque é funcionário municipal. Nesta entrevista faz um apelo aos arouquenses “participem, apareçam nas assembleias e acima de tudo unam-se para resolver os problemas que são de todos, juntos somos mais fortes, não tenham medo porque vivemos em democracia”. Como diz a canção, falará até que a voz lhe doa, não consegue deixar de intervir quando o assunto é de interesse público e da terra que é a sua.

D.D. O parque de campismo está fechado há dois ou três anos, sabe porquê?

P.B. Já levei esse assunto várias vezes à Assembleia, é o único parque do concelho e está encerrado porque as obras foram mal planeadas e não resolveram os problemas. O Sr. Joaquim que explorava o parque tinha infiltrações do telhado mas a Câmara fez ouvidos de mercador e começou as obras pela zona dos balneários, ao longo dos anos têm sido investidos milhares de Euros em intervenções parcelares e não está resolvido.

D.D. Numa zona de turismo natureza não há parque de campismo por falha da Câmara?

P.B. Sem dúvida, o que está a acontecer é o campismo selvagem, sem regras e ninguém fiscaliza. Faziam concorrência desleal ao parque de campismo quando estava aberto e agora fazem campismo sem infra-estruturas. Portanto é preciso pensar no parque de campismo para o futuro, com instalações modernas e é preciso fiscalizar o turismo selvagem. Também é necessário fazer apoios de acolhimento na zona da Freita, apoio ao auto caravanismo e ao turismo diário. Além disso temos que considerar novas zonas de campismo junto ao Paiva como por exemplo no Areinho e Espiunca.

D.D. Passando para a área da habitação, enquanto Deputado Municipal tem contestado o PDM, pode dizer-nos qual é o maior erro que encontra no PDM?

P.B. Não vale a pena entrar em pormenores porque é um caso complexo, já fiz as queixas formais ao Ministério Público e à CCDR Norte e não quero falar disso agora mas posso dizer que os alertas que fiz têm-se revelado pertinentes porque as correcções que estão a ser feitas mostram que eu tinha razão. A sensação que eu tenho é que fazem trabalho de gabinete sem olhar para a realidade. É preciso ouvir as Juntas e as pessoas para fazer o PDM.

D.D. Portanto a Câmara está a resolver a reboque em vez de planear de acordo com as necessidades de habitação?

P.B. Exacto, olham para as sugestões dos outros como se fosse luta política e não é o caso, muitos de nós levam sugestões concretas. Por exemplo em Figueiredo e Forcado que são zonas urbanas com infra-estruturas, há intervalos onde não se pode construir. Quem herdou um terreno e quer construir a sua casa não pode por causa da limitação do PDM e isso afasta as pessoas do lugar onde sempre viveram. Atenção que estou a falar de áreas que já são urbanas e não áreas isoladas no meio dos campos. Portanto aumentam a desertificação porque as pessoas vão para sítios onde encontram terrenos mais baratos e por vezes fora do Concelho. Outro exemplo: a Quinta do Cerrado custou milhares de euros de investimento camarário para construção a custo controlado, mas isto não é custo controlado, quem está a iniciar a vida não consegue lá chegar porque os preços são elevados. Há outras formas de o fazer, eu defendo um modelo em que a camara constrói e as pessoas fazem um contrato em que pagam uma renda mensal mas com possibilidade de compra ao fim de alguns anos e esse modelo funciona bem na minha perspectiva para quem tem dificuldades no início de vida e não tem apoios familiares.

D.D. Isso leva-me a outra pergunta, concorda com a política de apoios sociais da Câmara, há uma estratégia bem definida, por exemplo para a terceira idade?

P.B. Tem havido efectivamente apoios à terceira idade, mas não têm sido bem dirigidos e podem não garantir continuidade como por exemplo a Quinta do Reguengo onde ninguém sabe muito bem quais as intenções para aquele espaço, isto acontece porque está tudo muito condicionado aos apoios comunitários e por isso vamos andando ao sabor do vento, os projectos não podem terminar quando terminam os apoios porque estamos a dar e a tirar aos arouquenses que entretanto já se habituaram àquele serviço, àquele apoio.

D.D. Portanto quando se diz que a estratégia deste executivo é seguir os fundos comunitários, concorda?

P.B. Concordo plenamente. Claro que temos que aproveitar os fundos comunitários, só quem for tolo é que não o faz, mas também precisamos de ter uma estratégia bem definida para os reais problemas de Arouca e seguir essa estratégia.

D.D. É contra a instalação da central fotovoltaica em Arouca, porquê?

P.B. Eu sou a favor das energias renováveis mas antes de destruírem área de floresta devem ter uma estratégia inteligente como por exemplo instalar painéis nas zonas públicas, nos parques de estacionamento (fazerem coberturas e instalarem painéis), nas bermas das estradas, nos edifícios públicos. Além disso quem tem painéis solares em casa que é o meu caso e que os instalei com o meu dinheiro, sem subsídios, deve ter um benefício, se as pessoas tiverem benefício no preço que pagam pela electricidade, certamente irão instalar painéis solares nos telhados e nas suas propriedades. Nós injectamos energia na rede sem termos vantagem, pelo contrário, temos prejuízo porque não recuperamos o dinheiro que investimos. Aqui o Estado tem alguma culpa.

“0 que acontece agora é que o executivo camarário usa essa cedência de equipamentos para condicionar as votações na Assembleia Municipal, as juntas com receio de serem penalizadas acabam por votar ao lado da Câmara”.

D.D. Concorda que haja maior delegação de competências para as juntas de freguesia?

P.B. Concordo sim, desde que essa delegação seja acompanhada de meios financeiros e operacionais e que nessa transferência sejam considerados os custos directos e indirectos como por exemplo compra e manutenção de equipamentos, combustível e custos de pessoal. As juntas conseguem dar respostas mais rápidas porque conhecem os problemas, vivem lá. O que acontece agora são protocolos de cedências de máquinas, eu na última Assembleia levantei muitas dúvidas sobre a legalidade deste protocolo. Os recursos públicos não podem ser utilizados como forma de premiar ou castigar cores políticas, os critérios têm que ser claros e transparentes, o que acontece agora é que o executivo camarário usa essa cedência de equipamentos para condicionar as votações na Assembleia Municipal, as juntas com receio de serem penalizadas acabam por votar ao lado da Câmara. O desenvolvimento do Concelho não pode depender destes jogos políticos. Muita gente tem medo de dizer isto frontalmente, mas eu não tenho. Isto é uma forma sorrateira de manipular os Presidentes de Junta. Veja o que aconteceu na votação para a Mesa da Assembleia. O resultado da eleição interna foi diferente da votação eleitoral. Por isso se diz na voz do povo que as obras avançam em função da cor política. Isto não pode acontecer.

D.D. Por exemplo a recolha de lixo deve ser transferida para as Juntas?

P.B. Eu vejo o sistema que está com bons olhos. Porque uma gestão global consegue melhores preços e melhor negociação mas é preciso adaptar as necessidades do concelho aos contractos que são feitos. No verão e na altura de eventos a recolha tem que ser reforçada. A Câmara já teve tempo para fazer esses reajustes.

D.D. E no que respeita à transmissão das reuniões da Assembleia Municipal, devem estar disponíveis no site da Câmara ou nas Redes Sociais?

P.B. Ainda bem que a Assembleia chumbou a mudança do regimento, parece que queriam silenciar, impedindo que as reuniões ficassem disponíveis on-line.

Faço um pedido à população, vejam as reuniões da Assembleia Municipal, participem, tragam problemas e soluções, se todos nos unirmos em volta de um problema conseguimos resolver e mudar as coisas, juntos somos mais fortes independentemente do partido político a que pertencemos temos que estar unidos nas soluções dos problemas. Eu sei que as pessoas podem ter receio, é um meio pequeno não tenham medo porque vivemos em democracia. O executivo olha para as sugestões dos outros partidos como se fosse luta política em vez de olhar para os problemas e possíveis soluções.

D.D. Vai concorrer novamente em coligação? Quer manter a aliança com o PSD?

P.B. Isso é difícil responder, primeiro tenho que decidir se estarei disponível para a política, por razões familiares e também porque tenho sido muito prejudicado e para bom entendedor meia palavra basta. É um assunto a ponderar. Mais do que estar na política é estar ao lado dos arouquenses e por Arouca.

D.D. O Pedro Bastos tem falado e seguido com atenção a poluição nos rios, muito recentemente o caso do Rio Frades?

P.B. Sim, as pessoas alertaram-me e eu fui directamente ver o que aconteceu, percorri os afluentes até identificar o problema numa ribeira na zona entre Cabreiros e Tebilhão. Tudo indica ter sido um desabamento de terras numa obra pública. Claro que não sei se foi só isso e fiz uma denúncia formal para as várias entidades e até dei a conhecer à Deputada Europeia Ana Pedro Miguel porque ela está a preparar uma intervenção no Parlamento Europeu sobre a problemática do Rio Paiva. Nessa altura, o Vereador do Ambiente telefonou-me quando viu as minhas publicações nas redes sociais, eles também estavam em cima do assunto. Mas o problema da poluição dos rios já é antigo.

Temos duas ETARES nas imediações do Rio Paiva, uma em Canelas e outra em Alvarenga, no Verão a população aumenta bastante e as ETARES não têm capacidade. Também há muitas fossas sumidouras que estão a sumir para algum lado… Temos a ponte e as atracções turísticas que foram autorizadas por várias autoridades mas não fizeram estruturas de WCs. Deviam fazer fossas estanques como está a do Areinho e a da Espiunca. Há explorações agrícolas que foram aprovadas e não garantiram correctamente a eliminação dos inertes, decidiram que seriam eliminados como adubos mas depois os donos dos terrenos não têm autorização para adubar com esses inertes. Também temos a pedreira que quando chove leva as lamas para o rio. Se tivéssemos guardas florestais e guarda-rios muitas situações poderiam ser evitadas.

“Há um cruzamento em Escariz, no lugar de Alagoas que é muito perigoso, é um caso em que a população se deveria unir ”

Há outra assunto que me preocupa e quero chamar a atenção para isso . A Junta de Freguesia de Escariz tem um problema grave que não há maneira de resolverem. Eu e os deputados do CDS vamos tentar fazer pressão na Assembleia da República. Trata-se do cruzamento no lugar de Alagoas onde há muitos acidentes mas andamos há anos a arrastar uma solução. Aqui está um caso em que a população se deve unir e exigir.

D.D.E a solução seria qual?

P.B. Alterar o cruzamento, talvez uma rotunda, mudar a sinalética, lombas de redução de velocidade, mas a solução tem que ser técnica de quem sabe. Isto é muito urgente. E quando puxamos todo para o mesmo lado e protestamos nos locais certos, conseguimos solucionar problemas.

Margarida Ferreirinha

sobre o autor
Margarida Ferreirinha Loureiro
Discurso Direto
Partilhe este artigo
Comentários
Relacionados
Newsletter

Fique Sempre Informado!

Subscreva a nossa newsletter e receba notificações de novas publicações.

O envio da nossa newsletter é semanal.
Garantimos que nunca enviaremos publicidade ou spam para o seu e-mail.
Pode desinscrever-se a qualquer momento através do link de desinscrição na parte inferior de cada e-mail.

Veja também