Na 1ª subida do FC Arouca à Primeira Liga, havia um único arouquense no plantel: Artur Soares, apelidado de Tucka, tinha 18 anos na época 13/14 e estava a terminar o processo de formação, mas já integrava o plantel sénior. Na temporada seguinte, estreou-se em casa, na última jornada, figurando nos últimos 12/13 minutos da partida. Certeiro nas palavras, não tivesse ele sido ponta-de-lança, é agora diretor desportivo, seguindo as pisadas do irmão Flávio Soares, que já tinha essa pasta no FC Arouca quando Tucka se estreou em campo e, agora, está no Gil Vicente.
Discurso Directo (DD): Começando pela carreira de jogador, o que o motivou a praticar futebol e a ingressar na formação do FC Arouca?
Tucka (T): «A motivação acho que é o que todos os jovens falam. Na minha altura ainda se começava a jogar em casa, nos terrenos. E o bichinho sempre lá esteve, até porque agora é mais as Playstations, mas na altura nós saíamos de casa e íamos jogar todos futebol com os vizinhos, com os amigos. E sempre foi uma coisa que eu gostei muito. Depois, já numa idade mais tardia, com 12 anos talvez, vim aqui pela freguesia de Canelas ao Torneio do Parque. E foi aí que começou a evoluir para a formação do FC Arouca. Tive o convite deles, aceitei e começou aí a minha história na formação do FC Arouca»
DD: Na altura da formação, começou logo como ponta-de-lança?
T: «Ainda era futebol de sete, não era bem um ponta de lança fixo, mas sim, já jogava na frente. Era com dois, mas sempre fui mais fixo, sim»
DD: Concluída a formação, quando o FC Arouca sobe pela primeira vez à Primeira Liga. Especialmente vistos de dentro, dado que fez parte do plantel, como foram esses primeiros passos do clube na Primeira Liga?
T: «Devem ter sido um bocadinho como os meus, enquanto jogador. Foi assim um choque, positivo, vir da formação, que era distrital na altura, até acho que fomos a única equipa de juniores que subiu aos Nacionais. E é uma diferença grande e uma coisa nova»
«Mas foram experiências para a vida toda, que ficaram, não tenho a menor dúvida. Apesar de não me ter estreado, só o facto de ir ao Restelo na última jornada aquecer, já é uma coisa que vai ficar sempre na minha cabeça. É um choque grande, mas coisas positivas, coisas novas que vou levar para a vida toda»
DD: Sendo que era muito jovem na altura e estava rodeado de vários jogadores com muita experiência de Primeira Liga (Bruno Amaro, Nuno Coelho, Paulo Sérgio, etc), como é que o plantel o acolheu e como foi toda essa experiência?
T: «Acolheram-me bem. Revejo muito estes momentos que agora estão a passar-se com alguns da formação no FC Arouca. O facto de chegarmos lá na primeira pré-época e raparem-me o cabelo também, não era fácil, mas lá conseguiram»
«Mas acolheram-me sempre bem. Eu a olhar para eles é sempre com admiração e nunca pensei que fossem pessoas tão normais, mas são pessoas 5 estrelas, acolhedoras. Não tenho nada a apontar de negativo»
DD: Ao minuto 78 de uma receção ao Moreirense, o treinador Pedro Emanuel lançou-o para jogo. Quais são as lembranças que ficaram?
T: «Estava mais nervoso do que estou aqui a falar convosco! (risos) Mas foi o momento único da minha vida. Só tenho de agradecer a ele, à estrutura e ao clube, por me ter dado essa oportunidade, que não é assim tão recorrente. Vai ficar sempre marcado. Estava no outro mundo. Naquela altura, com aquela idade, entrares num jogo da Primeira Liga, é um momento único»
DD: Com todo o êxtase do momento, lembra-se de tocar na bola?
T: «Há lá um momento que eu me lembro, porque quase fazia golo, mas tudo o resto, estamos noutro mundo, passa tudo. Ficam só as sensações, aquelas memórias que estão aqui. Também acho que toquei pouco na bola»
DD: Agora falando da carreira de diretor desportivo, esteve ligado à UD Mansores como jogador por 4 épocas. Essa ligação foi o motivo para se estrear nestas funções na UD Mansores?
T: «Faz todo o sentido. Quando vim para a UD Mansores, estava numa fase da carreira que já estava a ficar cansado e desmotivado, e a UD Mansores abriu-me as portas e possivelmente foi o sítio onde mais fui feliz e mais gostei de jogar futebol.»
«Agora, nesta nova função, o presidente convidou-me ainda como jogador na altura, eu estava a recuperar-me de uma lesão, só que eu disse que tinha de deixar de jogar, mas que ia entrar nesta nova carreira, e ele abriu-me as portas e até agora teria sido fantástico»
DD: Está a seguir as pisadas do seu irmão, Flávio Soares, que foi diretor desportivo do FC Arouca 13 anos e agora está no Gil Vicente. Para além da forte união familiar que têm, ele é a sua maior inspiração profissional?
T: «É o meu maior exemplo, não tenho a menor dúvida. A capacidade de trabalho dele, ele trabalha mesmo muito, e o facto de nós termos começado do nada, nascemos em Canelas com quase nada, e ele chegar a este nível é um exemplo. Para mim principalmente, que conheço o trabalho dele e o dia-a-dia ainda mais, mas acho que é um exemplo para muita gente»
DD: Para as pessoas ficarem com uma ideia, pedia-lhe que nos explicasse em que consistem as funções de um diretor desportivo e como é, para si, um dia normal de trabalho na UD Mansores?
T: «O dia-a-dia de trabalho depende da fase da época e das circunstâncias, mas abrange muita coisa, principalmente a este nível amador, em que o nome é diretor desportivo, mas faço um bocadinho de tudo e até o presidente ajuda. Eu sou mais um!»
«A parte de reforçar a equipa nesta fase, antes de começar agora a pré-época, analisar o que é que vai faltar, o que é que não vai faltar, basicamente antecipar tudo. Essa parte de antecipar as coisas que vão acontecer e a formação da equipa é o grosso do meu trabalho»
DD: No seu caso, apesar de estar há pouco tempo nestas funções, já foi uma primeira época de sucesso, porque o clube subiu de divisão. É gratificante e uma prova viva das suas capacidades de exercer estas funções?
T: «Claro que o objetivo final do que nós fazemos é garantir, ou tentar ter, esse sucesso. Correu bem, trabalhámos muito para isso, trabalhámos de maneira diferente do que se calhar um clube amador, ou até do que no Mansores se fazia antigamente»
«Eu, mal entrei no clube, no dia a seguir já estava a trabalhar, enquanto antigamente, se calhar até era o treinador que fazia esta parte. E essa parte que eu falei, de antecipar as coisas, de ser organizado, acho que foi o segredo deste sucesso. Claro que os jogadores e os treinadores são eles, sempre, porque isto pode estar tudo planeado, mas se eles não tiverem a capacidade de andar lá o ano todo a batalhar, não conseguimos»
DD: Quais foram as lições que este primeiro ano como diretor desportivo lhe deu?
T: «Eu acho que a principal lição, que até estou ainda agora a levar com ela, é o facto de ter que separar amizades do futebol. Nós, por exemplo, vamos começar agora uma nova época, e eu tive que me separar de muitos jogadores que, para além da amizade que construímos lá dentro, muitos até são cá fora meus amigos. E essa parte, foi a que me custou mais, sem dúvida nenhuma, que ainda estou a assimilar, é normal, tenho que ganhar isto, mas custa, claro, e essa acho que é a maior lição»
DD: Na época passada, muitos jogadores que tinham passado na UD Mansores, especialmente quando o Tucka lá jogava, regressaram ao clube.
T: «Eu sempre achei que o segredo, principalmente a este nível, de ter sucesso é ter um balneário de boas pessoas, humildes, que se entreajudam. O facto de eu conhecer essas pessoas, porque normalmente nós não temos um scout, tive que ir por esse lado (afetivo). Correu bem e acho que é essa a linha que tenho de continuar a seguir»
DD: Ainda falta algum tempo para a próxima época, mas, como diretor desportivo, como está a correr? O clube já anunciou renovações e contratações.
T: «Estamos já numa fase final do plante, está praticamente fechado. Essa parte de antecipar, antigamente, se calhar só em setembro depois de começar a época, é que vinha o último reforço. Nós não, já estamos numa parte final, ainda faltam 2 ou 3 membros, temos de ser específicos a escolhê-los, mas tudo adiantado, no sítio certo, a correr como nós prevíamos»
DD: Na segunda época nestas funções, uma segunda subida?
T: «Principalmente, dar estabilidade ao clube. Acabamos de subir da 2ª divisão, nós queremos que o clube esteja estável, que não ande no sobe e desce, garantir uma posição que dê estabilidade para o clube continuar a crescer e a manter-se bem»
Simão Duarte
Fotos: Pedro Gonçalves

O envio da nossa newsletter é semanal.
Garantimos que nunca enviaremos publicidade ou spam para o seu e-mail.
Pode desinscrever-se a qualquer momento através do link de desinscrição na parte inferior de cada e-mail.